
JARDIM
É bem assim lidar com um jardim:
amanhecer sem mais poder adiar
o reencontro com o sol e o ar
para adubar, cuidar, colher enfim!
A tesoura porém passa a podar
mais que colher, e continuando assim
você se vê a arrancar capim
a enleirar palhada pra adubar
E antes de enfim enfeixar teu buquê
você inventa de plantar ali
a semente que acaba de colher
e estaquear um outro galho aqui
mais isso lá, e além aquilo, e eis que
o jardim é quem lida com você...

NO HOSPITAL DE BRINQUEDOS
Eles foram deixados de tal jeito ali, que a boneca vê só as costas do ursinho e ele vê apenas as pernas dela. A boneca pergunta por que ele está ali, o ursinho diz que não sabe:
- Você está com a perna quebrada, estou vendo, mas eu estou inteirinho!
Ela fica olhando a mancha escura nele, até perguntar:
- Você era de menino ou menina?
- Eu era não, eu sou de uma mulher.
- E ela gosta de café, não é?
- Como é que você sabe?
Ela continua olhando a mancha escura, ele insiste:
- Hem? Como você sabe?
- Sou um tipo de boneca com dom de adivinhação.
- Então adivinha quando vão me consertar pra voltar pra casa!
Ela solta uma risadinha:
- Era brincadeira minha...
Ele resmunga:
- Hummmm... Acho que sei porque quebraram sua perna...
- Ninguém quebrou, a bicicleta é que passou por cima!
Ficam quietos, até que a boneca suspira:
- Também tenho tanta saudade! Mas até fico com medo de voltar pra casa, porque a menina que gostava tanto de mim está virando moça e...
O ursinho fala orgulhoso:
- Pois a minha dona também era menina, virou mulher mas continua gostando muito de mim!
- E nunca derramou café em você?
- Como você sabe?
Ela solta sua risadinha, ele resmunga:
- Deviam ter te quebrado as duas pernas...
Ela fica silenciosamente chocada, ele fica ruminando raiva, até que ouvem a voz cantante da pianola:
- Vocês deviam se achar felizes, pois ao menos podem ter boas lembranças... Eu, porém, só me lembro de ter sido tocada por gente que não sabia tocar piano. Batiam nas teclas, sem jamais tocar qualquer melodia, até que enjoavam e me deixavam em paz e em silêncio, e eu detesto silêncio, fui feita para tocar!
Talvez por pirraça, a boneca e o ursinho continuam em silêncio, e então ouve-se um relincho do cavalinho de pau:
- Eeeeeiiiiii! Parem de reclamar! Pior seria se fossem brinquedo fora de moda como eu, aqui esquecido faz dois invernos!
O tanque de guerra fala com sua voz que sai espremida do canhão:
- Quer trocar comigo? Já vim para cá uma dúzia de vezes, depois de batalhar contra pés de móveis, ser mordido por cachorro, cair de mesa, ser chutado... É tão bom ficar aqui em paz!
- Paz?! - grita o palhaço de pano - Eu quero é alegria e bagunça, ser jogado pra lá e pra cá, até ser pisado é melhor do que ficar aqui parado!
Então abre-se a porta do armário, todos se arrepiam esperando, mas a mão humana só entra ali para deixar uma velha bola de couro, tão gasta e rasgada que a boneca diz nossa, você parece imprestável!
É verdade, diz a bola:
- Já joguei tanto!... Agora, vão me consertar para guardar de lembrança. Vou descansar iluminada e feliz!
Os brinquedos todos ficam pensando, até que um dragãozinho de pelúcia fala baixinho:
- Os dragões estão extintos há milhões de anos, mas renascem como brinquedos... Cada um tem seu destino.
É verdade, diz o ursinho, olhando com carinho a perna quebrada da boneca, que sussurra:
- Sabia que você tem uma mancha bonita nas costas?

FUTURO
Chove a chuva pluviosamente
pleonasticamente a chuva chove
desde as dezoito até agora as nove
e continua tão chuvosamente
Já encharcou-se a chácara e as couves
de tão chuvadas reverentemente
curvadas lambem chão com línguas verdes
no aquário verde onde nada se move
De chuva o céu parece até cansado
chega de chuva, fala o ar lavado
para a ensopada palha das espigas
Mas pinga a última gota da folha
já surge ali elétrica - e olha
e procura o futuro uma formiga

OS OITO GIGANTES
Aos dezoito anos, muito me envolveu a leitura de Myra y Lopes em Os Quatro Gigantes da Alma: o Medo, a Ira, o Amor e o Dever. Mas, como de tudo fica pouco, acabei apenas lembrando, pela vida afora, de seu exercício para relaxamento: deitar ou mesmo sentar comodamente, relaxando a musculatura, sentindo o corpo pesar de encontro ao planeta, e, depois de relaxar também e principalmente a musculatura facial, visualizar os globos oculares como duas bolas negras navegando lentamente em infinito espaço negro...
Hoje, prefiro ver que são oito os gigantes, quatro negativos e quatro positivos. Os quatro negativos são ainda o medo e a ira, mas também o ódio e a descrença. Não crer em nada é a estrada para nada ser. O IBGE indica que a religião que mais cresce no Brasil é a dos incréus, os que não crêem em deus algum nem têm religião, entre os quais me incluo, e que eram menos de um por cento há vinte anos, hoje são mais de sete por cento.
Creio, porém, em valores que me dão sentido à vida. Tomara que, entre os outros “sete por cento”, a descrença religiosa não se estenda à existência civil, descrendo de melhorias sociais e políticas, gerando o ceticismo e o cinismo, doenças mentais em que os personagens de Machado de Assis são monstruosos mestres. Entre os descrentes, os piores são os que, além de em nada crer e nada fazer para melhorar coisa alguma, dedicam-se (para tentar igualar outros à sua vida sem sentido) a corroer as crenças dos outros. São os descrentes ativos, tão nocivos quanto os que cultivam o ódio.
Os fanáticos se dedicam a encontrar no ódio sentido para a vida, odiando o inimigo político, religioso ou racial, ou mesmo o vizinho que ergueu demais o muro ou não ergueu muro algum. Como o ódio mata antes de tudo quem odeia, isto seria um consolo, se os efeitos colaterais não fossem tão danosos, das rixas às guerras. Como diz o caboclo:
- O demônio tá no inferno, mas o inferno tá na gente...
Do gigante Medo, guardo uma trepidante lembrança. Na festa de encerramento do curso primário, no Educandário Rui Barbosa, em Cornélio Procópio, todos tinham de se apresentar, cantando, declamando, discursando. Resolvi dançar, e isto não teria deixado a platéia de pais boquiaberta, se a música, do disco que levei debaixo do braço, não fosse Tutti Frutti, o clássico rock cantado por Little Richard.
O rock era uma criança naquele tempo, e eu era outra, com dez anos, mas já determinado a vencer o medo: se era para fazer arte, ia ser a arte que eu gostava, e eu gostava era de rock! Botei o disco na vitrola e corri para o centro do palco. Dancei pulando, contorcendo, rebolando, do jeito que via nos filmes. A platéia boquiaberta, meus colegas balançando incredulamente a cabeça. Me olhavam sem piscar meninas que nunca tinham devolvido meus olhares.
Acabei de dançar ofegante, continuaram boquiabertos no silêncio, até que alguém começou a bater palmas e então aplaudiram demoradamente, levantando, o único a receber aplausos em pé e pedidos de bis! A professora Maria Aparecida colocou a música de novo e voltei a dançar, até faltar fôlego, parando no meio da música e mal conseguindo falar:
- Não aguento mais!
Aplaudiram mais ainda, e eu, que tinha me debatido entre vergonha e medo para me decidir a fazer aquilo, desci do palco, apesar das pernas bambas, caminhando melhor para o resto da vida.
E os quatro gigantes positivos? O amor, claro, e seu filho predileto, o perdão. O dever, que passaram a chamar de ética. E a paciência, para compreender, perdoar, amar, e continuar fazendo o dever mesmo quando muitos parecem não saber mais o que é certo. Ou como diz o caboclo:
- O caminho pode ter curva, só não pode passar pelo brejo...

Ando pelo aeroporto com a velha mala de alça entre tantas com rodinhas. Me sinto levando uma placa de identificação, a comunicar a todos que sou um dinossauro, um portador de idéias fósseis num corpo ainda vivo, a sofrer os castigos da envelhescência mental.
No balcão de embarque (check-in para os evoluídos) a moça pergunta o número do celular, digo que não tenho, me olha incrédula. Explico que nunca tive, olha espantada. Digo que o Luís Fernando Veríssimo também nunca teve, ela solta um longo aaahhhh, que até agora não consegui traduzir.
Sento no saguão, escondendo entre as pernas minha mala sem rodinhas, e lembro de Veríssimo me confidenciando:
- Não tenho celular nem sei como funciona.
- Nem eu. Eu evito até pegar.
- É? Por que?
- Tenho medo de gostar.
- Ah, pode pegar que cresce na mão, não.
Entre tantas pessoas com lap-top nos joelhos, penso puxa, tanta gente trabalhando com a cabeça! Mas logo vejo que a maioria está é jogando paciência ou outros jogos... e eu só sei jogar par ou ímpar e joquempô!
Entrando no avião, a aeromoça sorri, (sim, aeromoça, é palavra bonita, “comissária de bordo” parece mistura de burocrata com marinheira). Tomo coragem para perguntar se tem chiclete, no meu tempo de menino as aeromoças da Vasp davam chiclete com a figurinha do corcunda, os chicletes mais deliciosos do mundo, um dia botei tantos na boca que não conseguia falar, com aquela bola enchendo as bochechas.
Ela estranha: chiclete? O dinossauro vai sentar, pensando que a Vasp não existe mais, como não existem mais aquelas poltronas onde a gente sentava sem espremer os joelhos na poltrona da frente...
Fico esperando um lanche gostoso numa bandejinha charmosa, me entregam um envelope com sanduíche sem gosto. Em vez de vinho, suco de uva. A sobremesa deve ter sido aquela bala que deram antes.
Com uma voz fanhosa, comendo sílabas e quase tão veloz quanto locutor de corrida de cavalos, o piloto informa nãosseiquequandonde; mas vou sentir saudade da voz dele no aeroporto em São Paulo, esperando a conexão e ouvindo dezenas de avisos de embarque em vozes irritantes e alto volume. Também sinto saudade das vozes suaves de outrora, enquanto procuro onde sentar entre gente deitada pelo chão, malas empilhadas, crianças correndo, joelhos laptopados, cotovelos em fila, comissários correndo, baús passando com rodinhas.
No hotel, perguntam se quero configurar a banda larga, o dino responde que nem a estreita nem a larga, me olham com piedosa compreensão ou complacente desprezo, nunca sei.
No quarto, ligo para dizer a hora em que devem me chamar de manhã, dizem para usar o timer na cabeceira da cama. O dino tenta entender o timer, o timer fica piscando suas luzinhas ironicamente. Chamo alguém, que vem e em sete segundos ajusta o timer, agradeço.
- Não há de que – diz ele sorrindo finamente sincero para o grosseirossauro.
Mas o controle remoto da tevê eu sei operar, ah-ah! O primeiro canal tem mesa-redonda sobre as novas tecnologias, o mp3, o ipod, o wirer, e o dinossauro fica tentando entender, até que o velho sono traz novos sonhos.
O dinossauro sonha que está num mundo onde as pessoas viajam a pé, levando sacos de couro nas costas, tomando banhos em cascatas e dormindo em cavernas. O dinossauro acorda feliz, vai ao café da manhã e pede ovos crus. Abre um buraco no ovo, salga e chupa, para espanto do garçom, que, no entanto, sorri com a gorjeta. É a vingança do dinossauro.
POR QUE?
Ando pelo aeroporto com a velha mala de alça entre tantas com rodinhas. Me sinto levando uma placa de identificação, a comunicar a todos que sou um dinossauro, um portador de idéias fósseis num corpo ainda vivo, a sofrer os castigos da envelhescência mental. No balcão de embarque (check-in para os evoluídos) a moça pergunta o número do celular, digo que não tenho, me olha incrédula. Explico que nunca tive, olha espantada. Digo que o Luís Fernando Veríssimo também nunca teve, ela solta um longo aaahhhh, que até agora não consegui traduzir. Sento no saguão, escondendo entre as pernas minha mala sem rodinhas, e lembro de Veríssimo me confidenciando: - Não tenho celular nem sei como funciona. - Nem eu. Eu evito até pegar. - É? Por que? - Tenho medo de gostar. - Ah, pode pegar que cresce na mão, não. Entre tantas pessoas com lap-top nos joelhos, penso puxa, tanta gente trabalhando com a cabeça! Mas logo vejo que a maioria está é jogando paciência ou outros jogos... e eu só sei jogar par ou ímpar e joquempô! Entrando no avião, a aeromoça sorri, (sim, aeromoça, é palavra bonita, “comissária de bordo” parece mistura de burocrata com marinheira). Tomo coragem para perguntar se tem chiclete, no meu tempo de menino as aeromoças da Vasp davam chiclete com a figurinha do corcunda, os chicletes mais deliciosos do mundo, um dia botei tantos na boca que não conseguia falar, com aquela bola enchendo as bochechas. Ela estranha: chiclete? O dinossauro vai sentar, pensando que a Vasp não existe mais, como não existem mais aquelas poltronas onde a gente sentava sem espremer os joelhos na poltrona da frente... Fico esperando um lanche gostoso numa bandejinha charmosa, me entregam um envelope com sanduíche sem gosto. Em vez de vinho, suco de uva. A sobremesa deve ter sido aquela bala que deram antes. Com uma voz fanhosa, comendo sílabas e quase tão veloz quanto locutor de corrida de cavalos, o piloto informa nãosseiquequandonde; mas vou sentir saudade da voz dele no aeroporto em São Paulo, esperando a conexão e ouvindo dezenas de avisos de embarque em vozes irritantes e alto volume. Também sinto saudade das vozes suaves de outrora, enquanto procuro onde sentar entre gente deitada pelo chão, malas empilhadas, crianças correndo, joelhos laptopados, cotovelos em fila, comissários correndo, baús passando com rodinhas. No hotel, perguntam se quero configurar a banda larga, o dino responde que nem a estreita nem a larga, me olham com piedosa compreensão ou complacente desprezo, nunca sei. No quarto, ligo para dizer a hora em que devem me chamar de manhã, dizem para usar o timer na cabeceira da cama. O dino tenta entender o timer, o timer fica piscando suas luzinhas ironicamente. Chamo alguém, que vem e em sete segundos ajusta o timer, agradeço. - Não há de que – diz ele sorrindo finamente sincero para o grosseirossauro. Mas o controle remoto da tevê eu sei operar, ah-ah! O primeiro canal tem mesa-redonda sobre as novas tecnologias, o mp3, o ipod, o wirer, e o dinossauro fica tentando entender, até que o velho sono traz novos sonhos. O dinossauro sonha que está num mundo onde as pessoas viajam a pé, levando sacos de couro nas costas, tomando banhos em cascatas e dormindo em cavernas. O dinossauro acorda feliz, vai ao café da manhã e pede ovos crus. Abre um buraco no ovo, salga e chupa, para espanto do garçom, que, no entanto, sorri com a gorjeta. É a vingança do dinossauro.
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