As únicas pessoas normais são aquelas que você não conhece bem.

Alfred Adler
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 Minha fazenda... de Domingos Pellegrini

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Existe uma lista de todas as publicações neste site, em ordem cronológica.

Por Domingos Pellegrini (em 27/10/2008 @ 09:15:55, em jornal, lido 488 vezes)

 

 
 
TIPOLOGIAS
 
 
         Entre todos os tipos de pessoas, muito me admiro das que não acreditam em tipologias, o conhecimento dos tipos, que nos ajuda a entender gente, para melhor conviver, servir, vender ou mesmo vencer, como fez Churchill com Hitler.
         Vendo que Hitler era do tipo que só avança com certeza de vencer, quando as tropas alemãs chegaram à beira do Canal da Mancha, Churchill deixou Hitler esperando por uma rendição britânica enquanto iam sendo fabricados os aviões que derrotariam a aviação alemã. Quando tudo indicava que Hitler, furioso, invadiria a Inglaterra, Churchill fez aquele famoso discurso: “combateremos no ar e no mar, combateremos nas praias, combateremos nas cidades, nas aldeias”... e Hitler, acreditando numa tenaz resistência britânica, deixou para invadir a filha no ano seguinte, quando não teve mais a cobertura aérea da pesada Luftwaffe, aniquilada pela ligeira aviação britânica. 
         Conhecendo o tipo do homem, Chuchill vendeu a Hitler uma idéia, que se tornou mais forte que os fatos. O bom vencedor sabe que há basicamente dois tipos de compradores: o que logo pergunta o preço e o que fica perguntando tudo do produto. Para o que quer saber preço, o vendedor fica falando das qualidades do produto. Para o outro, o vendedor responde tudo sobre o produto, sabendo que o tipo perguntador usará suas próprias respostas para desqualificar o produto   e pechinchar no preço... enquanto o primeiro tipo, que de inicío só queria saber preço, depois de bem informado sobre o produto será capaz de pagar à vista sem nem lembrar de pechinchar.
         Não sei quando nem onde (não sou do tipo que nada esquece) apredi que psicologicamente há o tipo sanguíneo, o melancólico, o fleumático e o colérico. Mas hoje acredito que esse é o tipo de tipificação que só funciona se a gente lembrar que às vezes somos sanguíneos, às vezes fleumáticos, às vezes melancólicos e às vezes coléricos, como Jesus quando expulsou os vendilhões do Templo a relhadas e pontapés.
         Depois aprendi que, no amor, há o tipo romântico, que só vê enlevo, êxtase, ternura e carinho, e o tipo prático, que vê só o carinho como preliminar sexual, e, antes e além do amor, vê a divisão das contas, o rateio das despesas, a separação de bens. O romântico se apaixona, o prático se arranja. Mas amor duradouro precisa tanto de coração como de pés no chão, não? 
         Todos sabem que há também o tipo aéreo, sempre com a visão longe e os sonhos adiante, e o tipo terreno, com os pés no chão e as mãos na obra. Essa tipologia também erra ao não ver que os grandes líderes e empreendedores são, ao mesmo tempo, aéreos na visão e terrenos nas ações. Henry Ford teve o sonho de transformar em produtos de massa os automóveis, então artigos de luxo para milionários. Para realizar o sonho, terrenamente vendeu automóveis a prazo para os próprios operários, assim criando a linha de produção, que barateava e divulgava os produtos.
         Há ainda o tipo 3-C (consciente, criterioso e com escrúpulos) e o tipo abusado, como aquele que pede pó de café emprestado ao vizinho, e, por isso, também duas colheres de açúcar, levando tudo em duas xícaras que jamais devolverá.
         Mas hoje, a esta altura dessa marcha tropeçante chamada História, acho que os seres humanos se dividem mesmo em dois tipos: na maioria, os que usam celular mesmo não precisando, e a minoria dos que mesmo precisando não usam.
         Felizmente, faço parte de uma minoria menor ainda, que não precisa nem usa (como há outra minoria, embora maior, que não precisa e usa até demais).
         Nos concertos e cinemas, as pessoas desligam o celular como telefone, mas continuam a usar como relógios ou como lanternas, para ler o programa, caminhar no escuro, enxergar as pipocas ou, simplesmente, acender uma luz na escuridão como fazem os tipos exibicionistas e também os tipos acluofóbicos, que vêem a escuridão como caverna opressiva, enquanto o tipo ioga fecha os olhos para, na escuridão, ver a luz interior.
         Olhando bem, porém, não há tipos, se cada um é único. Então por que esta crônica? Porque crônicas são como fogueiras em redor das quais se reúnem, pela leitura, todo tipo de pessoas...   
          
 
               
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Por Domingos Pellegrini (em 27/10/2008 @ 09:11:19, em jornal, lido 264 vezes)

 

 
 
LEMINSKI
 
Tinha de ser assim
tanto viver feito estrela
tanto matar-se e por fim
morrer sem mais aquela
 
Manter a pose da pose
como se nem pose fora
viver distraidamente
apavorado embora
Paulo, você era dose
 
Professor de Deus mas
aprendiz de zen
você sabe muito bem
se algo ainda nos devia
ninguém jamais cobraria
você jamais pagará
fique na mais santa paz
 
Mas não entre nós, meu caro
a vida não deixa barato
sempre fecha o guichê antes
de acertar todas as contas
 
Morrer não é difícil
nem é fácil ir vivendo
o que a mão de Deus escreve
entre o leite e o último drink
a vida fica nos devendo
um outro Paulo Leminski
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Por Domingos Pellegrini (em 21/10/2008 @ 11:48:36, em poemas, lido 323 vezes)

 

 
 
COCADA
 
Me dou bem
com os côcos:
amadurecem tão
pouco a pouco
que posso colher
quando quiser
e beber sua água
comer sua polpa
macia
 
ou então
deixar no coqueiro
até um dia
cada um cair
no seu tempo
e beber
sua água já
doce e pouca
e mascar
sua dura polpa
 
O côco assim
me ensina
tempo e jeitos
modos de ser
o já sem gosto
ou doce enfim
num só sujeito
 
Possa eu ser
como os côcos
apenas que
no mesmo instante
maduro e doce
verde e refrescante
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Por Domingos Pellegrini (em 21/10/2008 @ 11:28:13, em jornal, lido 498 vezes)

 

 
 
 
 
UM CAFEZINHO
 
 
         Um jovem, desses que (como fui) acham que podem mudar o mundo com ira e luta, me disse irritado:
         - Todo mundo me fala “aparece pra tomar um cafezinho”, como fosse coisa muito importante...
         Na hora nada falei, até porque ele estava com pressa (precisava mudar o mundo rapidinho), mas agora, meu amigo, fico pensando...
         ...o que aconteceria se o coronel Moreira César, em vez de marchar sobre Canudos com infantaria, cavalaria e artilharia, acampasse perto e mandasse um recado bem escrito: “Prezado Sr. Antonio Conselheiro. Tenho ordens de liquidar Canudos e Vossa Senhoria, mas não será melhor tomarmos um café e conversar?”
         Certamente perderíamos Os Sertões, o maravilhoso livro que Euclides da Cunha escreveu sobre Canudos, mas que lição de política e tolerância dariam o coronel e o beato!
         Um fazendeiro me contou que um posseiro arranchou numa ponta de cerca, já lavrando roça e pastando bode. O capataz falou que, para ajeitar aquilo, só botando fogo no rancho, matando o bode a tiro e passando herbicida na roça. O fazendeiro, porém, preferiu encher um garrafa térmica com café e ir lá falar com o posseiro. Voltou com um peão que lhe serviria durante décadas, tornando-se amigo e chegando a capataz. O rancho virou uma boa casa, onde a garrafa fica em lugar de honra, como “lembrança do compadre”, pois tornaram-se também compadres, e um dos filhos do ex-posseiro casou com filha do fazendeiro e lhes deu belos netos...
         Não que um café adoçe tudo em como infusão mágica e acabe com todas as diferenças, até porque sem elas o mundo seria chato. Um bom café, no entanto, sempre adoça as palavras justas, mesmo que no momento doloridas.
         Lembro do então prefeito Hosken de Novaes chegando em nossa casa, depois de conversar com o diretor Galdino Moreira Filho, que acabara de me expulsar do Instituto Filadélfia.
         Hosken chegou de tardezinha e apertou a mão de meus pais e a minha, dizendo “então o senhor é neto do Seo José”, meu avô, de quem Hosken era amigo de café e prosa. Seu aperto de mão era mole e micho, e, diante daquele engravatado barrigudo, pensei que era um “burguês” típico e tapado.
         Ele sentou, tomou café e então me encarou, de novo me chamando de senhor:
         - Senhor Domingos Júnior, apesar do meu grande respeito pelos seus pais e seu avô, tenho de dizer que o senhor foi expulso do colégio com justiça. Fez exames de madureza no lugar de outro no colégio estadual, e isso é mais que brincadeira de estudantes, é fraude e crime de falsidade ideológica.
         Eu, que, começando a ler Marx e Lênin, achava que a ideologia era a chave para tudo, nunca mais esqueci da expressão “crime de falsidade ideológica”; como não esqueci daquele homem tranquilo a me encarar com uma serenidade que, só muito depois, descobri que vem de firme convicção democrática e legal:
         - Não intercedi pelo senhor, como me pediram seus pais, porque aprovo sua expulsão. Punição não é para castigar quem erra, é para dar exemplo de correção. Mas no colégio dizem que o senhor é inteligente, então saberá transformar este transtorno em evolução.
         Pediu mais um café, que tomou já em pé, dizendo que ia trabalhar à noite na prefeitura, e novamente nos deu seu mole aperto de mão. Só décadas depois, ao ver tantos políticos apertando fortemente tantas mãos para demonstrar firmeza, me dei conta de que aquilo em Hosken era um modo de dizer “não sou como todos, minha firmeza está dentro”.
         Então ergo minha xícara para brindar a todos que, em roda de um bom café, fizeram bons negócios, teceram boas conversas, somaram bondades e humanidade. Com ou sem açúcar, isso não importa, o que importa não é o que entra na boca, como disse o filho de José, mas o que dela sai. 
        
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Por Domingos Pellegrini (em 13/10/2008 @ 09:27:52, em Jornal, lido 672 vezes)

 

 
 
 
          O MILAGRE DO BILUCA
 
 
         Biluca se esticava pra rua se via o portão aberto. Corria atrás de carro ou disparava pela calçada até o fim da quadra, voltava ofegante com a língua de fora e os olhos acesos, como a dizer: viram como corri bonito?
         O avô ralhava, não via que podia ser atropelado? Mas o menino abraçava Biluca, que lhe molhava os braços com lambidas. O avô resmungava: um dia ainda atropelam esse tonto... Mas logo também se rendia ao Biluca e afagava.
         Até que um dia o entregador de gás deixou o portão aberto e zapt, Biluca zuniu pra fora, aí se ouviram os pneus guinchando – e depois uma batida surda, seguida do guincho curto do Biluca, depois silêncio.
         Quando o menino saiu correndo da casa, o avô já estava ajoelhado diante de Biluca no asfalto, a mulher do carro em pé, apertando as mãos, explicando que não tinha culpa, o cachorro tinha se jogado na frente, correndo feito doido. É doido mesmo, disse o avô, abraçando o menino para não ver Biluca todo esfolado, tinha sido ralado por baixo do carro. Agora olhava longe, com os olhos estreitando, fechando, abrindo mais estreitinhos ainda.
-         Ele vai morrer, vô?
Cobrindo a cabeça do menino com as mãos sobre o peito, o avô murmurou não sei, não sei, e, como se respondendo à pergunta, Biluca fechou os olhos e não abriu mais. O avô soluçou, o menino desvencilhou a cabeça e olhou, aí se jogou sobre o cachorro, repetindo com voz gemida: não morre não, Biluca, não morre não. A mulher fez uma careta e começou a chorar, passando as mãos no rosto e lambuzando a maquiagem.
O avô levantou e quis pegar o menino pelos ombros, mas o menino gritou não, vô, eu quero ficar com o Biluca! Os vizinhos já formavam uma roda, olhando o menino de gatinhas com a bunda para cima, abraçando Biluca e soluçando tanto que sacudia o cachorro.
O avô passou a mão na cabeça do menino, dizendo não fica assim, rapaz, eu te dou outro cachorro... Uma vizinha falou baixinho: por isso que eu só tenho gato.
Um vizinho falou botando a mão no ombro do avô:
-         Se o senhor quiser, enterro no meu quintal.
Obrigado, disse o avô, aí começou também a chorar e, diante do homem chorando, as mulheres também passaram a chorar. A mulher do carro enxugava com lenço a cara lambuzada, voltou a chorar também.
O certo, falou o vô fungando, o certo é que a morte chega pra todos um dia, rapaz, é Deus te mostrando que é preciso aceitar, crescer com isso, ser homem.
Eu prefiro continuar criança com o Biluca vivo, falou o menino.
As mulheres choravam enxugando os olhos nas mangas das blusas, e suas filhas meninas, vendo as mães chorando, também deram de chorar, agarradas nas pernas delas. Mas o menino não chorava mais, ainda ajoelhado no asfalto mas erguendo a cara lambuzada para o céu:
-         Salva o Biluca, Deus! 
As mulheres soluçaram se sacudindo tanto que se abraçaram, a mulher do carro cobrindo o rosto com as mãos lambuzadas de batom, e assim nem viu quando Biluca abriu os olhos, levantou a cabeça e lambeu a coxa do menino.
O danado do cachorro tá vivo, falou um vizinho. O menino botou a mão por baixo do peito do cachorro, mas nem foi preciso, Biluca levantou dolorido e cambaleante, andou tonto cheirando tantos pés. O menino nem quis pegar para não machucar, só falou vem, Biluca, vem, e mancando o cachorro foi para casa.
Cachorro cretino, falou o avô. É um milagre, falou uma vizinha. A mulher do carro foi ver se amassou a lataria. Uma menina perguntou à mãe por que Deus não tinha salvado também o cachorro dela quando ficou doença. Não sei, filha, são coisas de Deus, disse a mulher levantando os olhos para o céu.
Outra menina perguntou se, como o Japão é do outro lado da Terra, lá Deus está em outro céu?
Não sei, filha, respondeu a outra vizinha, só sei que Deus sabe o que faz, mata uns, salva outros, a vida é assim.
Ficaram olhando o asfalto onde estava o cachorro, até que um vizinho levantou as mãos para o céu e aplaudiu, todos aplaudiram.
Passando pelo portão de casa, Biluca ouviu as palmas e lembrou de latir, como sempre que alguém bate palmas diante da casa, mas o primeiro latido doeu, engasgou, entrou para o jardim. O menino lhe passou a mão na cabeça, Biluca foi para a varanda, meio arrastando uma perna mas já balançando o rabo. Bebeu dois goles na vasilha, deitou olhando o menino ainda com lágrimas nos olhos e fechou os próprios olhos para cochilar, como quem pensa: ah, gente é um bicho muito esquisito...
 
  
 
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Por Domingos Pellegrini (em 30/09/2008 @ 10:09:02, em Jornal , lido 425 vezes)

 

 

 

R E F O R M A S

 

 

         Estamos reformando a casa aqui na chácara, e é como parto:  dói mas depois traz alegrias.

         Aquelas velhas lajotas no terraço, que literalmente nos apoiaram em tantos almoços e jantares, tantos cafés da manhã com passarinhos cantando, foram cobertas por novas lajotas muito mais bonitas.

         Lembrei então de velhas e sérias crenças, trocadas por crenças (ou por práticas) mais alegres e mais bonitas. Por exemplo a crença de que é preciso tomar o poder político para mudar alguma coisa neste mundo, que ilusão. O que mais vi foi que, tentando chegar ao poder, as pessoas mudam para pior... Troquei essa crença pela confiança de que podemos mudar o mundo, sim, mudando a nós mesmos antes de tudo, melhorando até para servir de exemplo. A crença é teórica, a confiança é prática.

Aquela mancha de umidade na parede era causada por encanamento vazando. Há anos a parede foi raspada até os tijolos e recoberta novamente, mas a umidade voltou, claro. Foi preciso arrebentar a parede e trocar o encanamento. Como quando a gente toma remédios para curar doenças mas continua a comer muita carne, muito sal, muito óleo e açúcar. Ao ver o encanamento aberto feito víscera da casa, resolvi melhorar minha alimentação.

A cada almoço-grande, com dúzia de pessoas na sala, também ficava evidente que precisávamos de um aparador para a comida: a mesa ficava muito atulhada. Até que Dalva teve idéia de quebrar a parede entre sala e cozinha, abrindo um balcão com aparador. Além de facilitar a passagem, arejar e clarear os dois ambientes, ganhamos um pequeno bar. Foi preciso quebrar para ganhar. Mas sempre evitamos quebrar crenças, estruturas, esquemas, até porque muitas vezes estão tão recobertos pelo musgo da rotina. 

Também sintecamos o piso, que era vermelho-escuro,  recoberto por camadas de cera. Lixados os tacos, mostraram a lindeza da canafístula, madeira de muitos veios e tons. Aí fiquei pensando nas nossas máscaras. A máscara social, para os eventos e  relações. A profissional, para o trabalho. A religiosa, para usar na igreja. E a máscara amorosa, para mentir e trair a pessoa que dizemos amar, mascarando para nós mesmos nosso egoísmo. Por baixo das máscaras, como a madeira por baixo da cera, está nossa cara sincera.

Mas como faz bem uma boa maquiagem! Afinal, casa é feminina, e ficará de cara nova com uma boa pintura. No entanto, para pintar é preciso tirar da parede os quadros, os cabides, os tantos enfeites e penduricalhos. Depois, com as paredes nuas mas renovadas, com novas cores e nova luz, a gente olha os quadros e parecem velhos, os velhos enfeites mostram-se sem graça, os penduricalhos inúteis: renovando a paisagem também renovamos o olhar.

Dizem que recordar é viver, mas renovar também é. Então jogamos fora muitas coisas, dando lugar para coisas novas. Mas fiquei em dúvida: jogava fora a foice enferrujada que simbolizava minha antiga crença comunista? Ao mesmo tempo que parece tão extinta quanto inútil no tempo das colheitadeiras conectadas com satélites, parece tão singela, tão eloquente na sua mudez enferrujada, a dizer que o mundo mudou e mudei tanto!

Tirei a velha foice da parede da cozinha, trouxe para a parede do escritório. Só tem significado para mim. Reformar-se também é reconhecer novos limites.

Leo Pires Ferreira se aposentou e me conta que, como paraplégico, vai piorando, mas, como cidadão, vai melhorando, indo a escolas para dar palestras, irradiando a paixão por Monteiro Lobato. Com novos limites, mas também com novas ações. 

Enfim... a velha-nova casa melhorou. Que o novo-velho eu melhore também!  

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Por Domingos Pellegrini (em 22/09/2008 @ 09:45:09, em Jornal, lido 777 vezes)

 

ATENCIOSAMENTE


O chefe dita a carta e termina dizendo “atenciosamente, etcétera e tal”, mas a secretária, depois de muito vacilar durantes anos, resolve que chegou o dia de sugerir:
- Doutor, por que terminar sempre as cartas da mesma forma? O senhor sempre fala em inovação, mas...
- O que a senhora sugere, dona Dilma?
Ela esperava argumentar para convencer o chefe, e eis que ele nem precisa ser convencido!
- Hem, dona Dilma, que é que colocamos em vez do velho “atenciosamente”?
Ela arrisca:
- “Com nosso apreço?”
- Ora, dona Dilma! – ele ri – É uma carta anunciando novos preços de nossos produtos para os revendedores, vai parecer um trocadilho infame, enviar apreço junto com novos preços...
Ela começa a passar as unhas no mouse, piscando-pensando até soltar:
- “Com nossa consideração?”
- Dona Dilma, a senhora considera “consideração” uma palavra melhor que a velha “atenciosamente”?
Ela abre a boca para responder, ele fala antes:
- Mas a senhora tem razão, vamos inovar! Que tal “confiante em nossa parceria”?
Ela já vai digitando, ele passa a andar pela sala resmungando:
- Não, esse “confiante” vai soar presunçoso, e, além disso, essa “parceria” parece muito hipócrita, porque nós ditamos os preços sem consultar os revendedores.
Ela suspira fundo, fecha os olhos e solta:
- Que tal “sempre com esperança em nosso sucesso”...?
Ele abre os braços:
- Esperança, dona Dilma?! Sucesso não depende de esperança, mas de criatividade, planejamento e trabalho!
Ela lacrimeja, sussurra desculpas, enquanto ele volta a andar furioso pela sala, resmungando:
- “Com certeza de sucesso”? Não, é jactante! “Com fé em nosso sucesso”? Não, parece coisa de religião.
Ela fica estátua diante do monitor, enquanto ele se empolga:
- Temos que fazer como na criação industrial, sair dos moldes tradicionais! Nada de “com isso” ou “com aquilo”! Vamos simplesmente escrever “Sucesso!” e pronto! Que tal?
- Ótimo, doutor! – ela concorda aliviada, já digitando, mas ele se inclina olhando a palavra no monitor, ela vê as veias do pescoço dele ali palpitando, até que ele abre os braços bradando ao céu:
- Sucesso! Como se fosse uma invocação mágica, querendo que o desejo se transforme em realidade! Soa infantil, a senhora não acha?
- Se o senhor acha - ela balbucia, ele explode:
- Dona Dilma! Foi a senhora quem começou com essa história de inovar o que estava funcionando perfeitamente, e agora...
Ela chora, lambuzando nos olhos as unhas pintadas de rosa. Ele espera ela secar os olhos com o lenço de papel, aí fala como a uma criança:
- Dona Dilma, a senhora sempre pinta as unhas de rosa. Por que não de preto? De vermelho? De lilás? Sabe por que, Dona Dilma? Porque não ia ser coisa da Dona Dilma, sempre tão discreta e eficiente na sua simplicidade!
Ela funga levantando o nariz, ele aponta a tela:
- Apague esse “sucesso”, dona Dilma, e escreva “atenciosamente”. E, sempre que escrever isso de novo, lembre que é uma palavra como a senhora é, simples e eficiente!
Com careta de choro, com atenção em cada letra, ela escreve “atenciosamente”, e então trocam um atencioso olhar; ele diz obrigado, ela diz de nada, e manda a impressora imprimir automaticamente, mas até parece que a impressora imprime carinhosamente.

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Por Domingos Pellegrini (em 16/09/2008 @ 16:35:00, em Jornal, lido 825 vezes)

EVOLUÇÃO

Um menino me perguntou o que é evolução.
Contei que, quando eu era menino, maçã era só importada, da Argentina. Vermelhonas, lindas, mas, quando a gente mordia, metia os dentes numa polpa seca e com muito menos gosto que as maçãs brasileiras de hoje, filhas da nossa pesquisa agronômica.
Quando entrei pela primeira vez numa piscina, no Londrina Esporte Clube, fazia pouco tempo que não era mais a “Piscina do Japonês”, mas ainda tinha no fundo pedras de cal, maiores que bolas de futebol, para “clarear” a água, que porém sempre acabava meio garaposa, esverdeada, e nunca se via o fundo claramente, como hoje vemos em qualquer piscina bem tratada.
Quando entrei num primeiro veículo de passeio, era um jipe Wyllis, e os bancos traseiros, onde ficavam as crianças, eram de lata dura, moendo a bunda de tanta chacoalhação nas ruas de terra.
Quando queria sorvete, tinha os sabores de creme, pistache, côco e chocolate, só.
Refrigerante, tinha guaraná, soda limonada e tubaína.
Revista, tinha Manchete, O Cruzeiro, Seleções e os gibis, que também não era muitos.
Quando ia ao dentista, a broca era de pedal, fazendo trepidar os ossos do crânio e ressoando na cabeça como um terremoto.
Quando queria ouvir música, ligava o rádio, com todos seus chiados de então, ou botava na vitrola um disco de cera de carnaúba, grosso e pesado, com doze músicas e com o peso de meia dúzia de MP3 com milhares de músicas.
Quando queria reproduzir um texto, datilografava na máquina de escrever com várias folhas e carbonos, ou então datilografava um stêncil e tirava cópias no mimeógrafo, lambuzando as mãos de tinta.
Para gelar cervejas numa festa, cavava-se uma valeta, empilhando as garrafas entre camadas de pó-de-serra, gelo e sal grosso.
Para fazer churrasco, também cavava-se valeta, onde se queimava lenha até formar braseiro, para assar os espetos de bambu estirados sobre as beiradas da valeta.
Roupa era lavada em tanque, batendo, torcendo, deixando de molho, tornando a bater e torcer, porque máquina de lavar roupa nem em ficção científica existia.
Gente especial era chamada de excepcional, e vivia escondida no fundo das casas, ninguém sequer imaginando que poderiam trabalhar e se divertir e até casar, como fazem hoje.
Mulher que se separava do marido era tão mal vista que muitas se conformavam com passar a vida humilhadas, espancadas e exploradas, sem ter a quem recorrer, molhando travesseiro com as lágrimas e morrendo antes dos sessenta de tanto desgosto.
Em tempo de eleição, as ruas ficavam forradas de santinhos, os muros todos pixados, como também os postes, que até engrossavam de tantos cartazes colados, e, no caminho para votar, os eleitores eram assediados por dezenas de cabos eleitorais.
Políticos se reelegiam proclamando que roubavam mas faziam.
Nas praias, mulheres não usavam biquinis, mostrar a barriga era coisa só pra vedete, e mulher grávida nem ia à praia.
Nos restaurantes, serviam risotos feitos com sobras de comida e ninguém reclamava.
Nas escolas, castigavam alunos batendo na palma da mão com uma prancha de madeira, era a palmatória, e os pais achavam normal.
Empregados não tinham direito a férias, nem a décimo-terceiro salário ou horas-extras, e muitas empregadas domésticas trabalhavam em troca de cama e comida.
A esta altura, o menino, de olhos arregalados, perguntou:
- E evolução não volta pra trás, né?
Garanti que não, evolução vem pra ficar e melhorar. E pedimos sorvetes, ele de morango com torta alemã, eu de nata com framboeza e, para lembrar os velhos tempos, pistache.

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Por Domingos Pellegrini (em 09/09/2008 @ 07:54:00, em Jornal, lido 811 vezes)

LEOPOLDINA

Num dia 7 de setembro, o príncipe Dom Pedro viajava a São Paulo com comitiva, depois de comer muita carne de porco em Santos, decerto com muito vinho como ele gostava, e começou a ter diarréia. Parou várias vezes para se aliviar nos matos, naquele tempo em que ainda não existia papel higiênico, de modo que, quando foi alcançado pelo mensageiro da Corte, devia estar bem irritado, principalmente com os mosquitinhos que, ignorando o que seja politicamente correto, costumam assediar gente nessa situação.
O mensageiro trazia uma carta da mulher do príncipe, Maria Leopoldina, a quem ele tinha deixado como Princesa Regente no Rio de Janeiro. Agora ela comunicava que, diante de ameaças de Portugal, tinha decretado a independência do Brasil, em reunião com os ministros, coisa que o ministro José Bonifácio confirmava em outra carta.
Conta a História oficial que então o príncipe decretou a independência erguendo a espada às margens do Riacho Ipiranga, mas, na verdade, ele estava ainda longe do riacho, onde sua comitiva já esperava pelo seu aliviamento. Então o príncipe ergueu... a espada? Não, as calças, e foi até a comitiva. Arrancou, sim, os laços portugueses da farda, imitado por todos, e então pode ter erguido a espada e dado o brado de independência, montado no seu... alazão, como na famosa pintura? Não, montado num burro, que ele preferia para viagens longas, pois tem trote mais miúdo.
Com seu gesto heróico e seu brado retumbante, apenas confirmou o que já tinha sido decretado pela mulher, com quem teve nove filhos e em quem regularmente batia.
Linhás (é um aliás na linha seguinte), hoje as comemorações pela Independência deveriam homenagear tanto a princesa quanto o príncipe. Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda Beatriz de Habsburgo-Lorena foi arquiduquesa da Áustria e escolhida para casar com Dom Pedro por interesses estratégicos de Portugal. Como toda princesa da época, desde pequena estudou ciências, política, História e idiomas. Casou-se por procuração em 1817, só depois vindo a conhecer o marido no Brasil, com quem teria sete filhos em nove anos de casamento.
Mais que filhos, ela deu ao príncipe visão de mundo, informando-o das idéias européias e estimulando a romper com Portugal. Quando se viu Princesa Regente na viagem paulista do príncipe, ao receber cartas ameaçadoras de Portugal não vacilou, convocou o Conselho de Estado e decretou a independência.
Mulher politicamente tão influente e decidida, na vida conjugal foi muito desrespeitada e infeliz. Dom Pedro era mulherengo, deixando a mulher saber das amantes. Chegaria a nomeá-la dama de companhia da mais constante das amantes, Domitila de Castro, a quem ele agraciou com o título de Marquesa de Santos, e com quem Leopoldina teve de conviver no Palácio de São Cristóvão. Para dissolver boatos, Dom Pedro a quis obrigar a participar do cerimonial de beija-mão ao lado da amante, ela recusou e foi espancada. Ele viajou para o Rio Grande do Sul, ela entrou em depressão, abortou e morreu sem revê-lo.
Se Dom Pedro I vivesse hoje, seu tratamento à Princesa Maria Leopoldina poderia lhe causar problemas legais e políticos. Conforme a Lei Maria da Penha, poderia ser acusado de maus tratos e agressão à esposa, e detido. Conforme o Artigo 1572 do Código Civil, ela poderia pedir separação judicial por infidelidade. Por sofrer humilhação, ela também poderia requerer indenização por danos morais.
“Resgatar” tornou-se verbo da moda: resgatam tanta coisa! Que tal resgatar a importância histórica dessa mulher corajosa e humilhada? Neste 7 de setembro, que tal dar vivas a Leopoldina?!

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Por Domingos Pellegrini (em 01/09/2008 @ 09:41:00, em Jornal, lido 438 vezes)

MEU TESOURO

Meu tesouro não tem preço, até porque nunca estará à venda, e está espalhado pela casa.
Uma colher gasta, de tão lambida pelo tempo, tão ancestralmente digna e, no entanto, de origem incerta, não sei se veio da vó paterna ou materna. Mas decerto serviu sopa a gerações, mexeu gemada, cortou pudim, abocanhou muito feijão com arroz. Há algum tempo dei-lhe o nome de Velha, para simplificar quando procuro por ela:
- Cadê a Velha?
Mas a faca de cabo de osso sei onde está sempre, aqui na escrivaninha, primeira leitora de tudo que escrevo. Era da vó Sebastiana, única coisa que peguei de sua casa quando morreu aos 62 anos, desgastada por oito partos e tanta trabalheira, naquele tempo em que as mulheres “do lar” lavavam roupa no tanque, passavam, limpavam a casa, amamentavam até mais de ano, cuidavam de horta, cozinhavam duas refeições por dia mais pães e bolos e biscoitos, além de criar e matar galinhas, escamar peixes, esfolar porcos e fazer milagres com as moedas domésticas.
Em setenta anos, a faca cortou tanto que a lâmina estreitou, por isso não afio mais, goza a aposentadoria de apenas cortar papel e sentir-se querida.
No quarto dos netos está o Jimmie, palhacinho acrobata que gira numa barra movida a engrenagem, é só apertar e Jimmie gira, sempre com seu sorrisão. Já passou pelo Hospital de Bonecos, foi reformado e completa meio século encantando crianças, pois ganhei Jimmie de meu pai quando tinha nove anos. Tomara, Jimmie, que você resista a meus netos, mas sei que, mesmo que eles acabem te liquidando, até em cacos você continuará com seu sorriso de quem sabe que o melhor jeito de ser é servir.
Minhas pedras dormem seu sono milenar nos vasos das plantas ou nos tachos de cobre, junto com caramujos e conchas. Foram recolhidas em praias e riachos, como lembranças de dias de sol e alegria, mas o tempo embaralhou as lembranças e, agora, todas significam apenas vida feliz.
Minhas ferramentas têm, como medalhas gravadas no próprio corpo, riscões, arranhões, amassaduras, companheiras íntimas de minhas mãos e meus dedos, multiplicadoras de minha força, com seus dentes de ferro e seus cabos de plástico ou de madeira, tão diferentes e entretanto tão irmãs. Estão arrumadas na parede da garagem, com suas silhuetas riscadas para cada uma voltar a seu lugar após o uso, como senhoras que merecem respeito e lugar no pequeno mundo de nossa casa, de quem tanto ajudam a cuidar.
Meus vasos conversam comigo o ano inteiro, refolhando, florindo, com sua linguagem muda e colorida, tão lenta que só vê quem olha com amor.
Minha cadeirona de tevê, dessas de armação de ferro recoberta com fitas de plástico, quem diria, foi recolhida na rua, jogada fora por alguém porque suas fitas estavam soltando. Troquei as fitas, e sempre que alguma se rompe, troco com carinho, para retribuir a minha mestra de calma serventia e doce sabedoria. Me ensinou que tudo e todos podem ser muito mais recebendo atenção e cuidados.
A taça que ganhei no concurso de twist, aos 14 anos, escureceu com o tempo, mas ainda me diz que, como a vida é curta, é melhor curtir a vida, dançando, cantando e rindo.
Sempre me dói pensar que já fui tão amargo ou cego, outrora, que um dia joguei fora, ou dei, ou doei, sei lá, a biografia de Cronin, Pelos Caminhos da Minha Vida, que ganhei no concurso de redação escolar também aos 14 anos.
Fora isso, meu tesouro está completo – por enquanto, pois decerto ainda vai crescer, enquanto seu gerente, o coração, continuar capaz de afeto.

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