





R E F O R M A S
Estamos reformando a casa aqui na chácara, e é como parto: dói mas depois traz alegrias.
Aquelas velhas lajotas no terraço, que literalmente nos apoiaram em tantos almoços e jantares, tantos cafés da manhã com passarinhos cantando, foram cobertas por novas lajotas muito mais bonitas.
Lembrei então de velhas e sérias crenças, trocadas por crenças (ou por práticas) mais alegres e mais bonitas. Por exemplo a crença de que é preciso tomar o poder político para mudar alguma coisa neste mundo, que ilusão. O que mais vi foi que, tentando chegar ao poder, as pessoas mudam para pior... Troquei essa crença pela confiança de que podemos mudar o mundo, sim, mudando a nós mesmos antes de tudo, melhorando até para servir de exemplo. A crença é teórica, a confiança é prática.
Aquela mancha de umidade na parede era causada por encanamento vazando. Há anos a parede foi raspada até os tijolos e recoberta novamente, mas a umidade voltou, claro. Foi preciso arrebentar a parede e trocar o encanamento. Como quando a gente toma remédios para curar doenças mas continua a comer muita carne, muito sal, muito óleo e açúcar. Ao ver o encanamento aberto feito víscera da casa, resolvi melhorar minha alimentação.
A cada almoço-grande, com dúzia de pessoas na sala, também ficava evidente que precisávamos de um aparador para a comida: a mesa ficava muito atulhada. Até que Dalva teve idéia de quebrar a parede entre sala e cozinha, abrindo um balcão com aparador. Além de facilitar a passagem, arejar e clarear os dois ambientes, ganhamos um pequeno bar. Foi preciso quebrar para ganhar. Mas sempre evitamos quebrar crenças, estruturas, esquemas, até porque muitas vezes estão tão recobertos pelo musgo da rotina.
Também sintecamos o piso, que era vermelho-escuro, recoberto por camadas de cera. Lixados os tacos, mostraram a lindeza da canafístula, madeira de muitos veios e tons. Aí fiquei pensando nas nossas máscaras. A máscara social, para os eventos e relações. A profissional, para o trabalho. A religiosa, para usar na igreja. E a máscara amorosa, para mentir e trair a pessoa que dizemos amar, mascarando para nós mesmos nosso egoísmo. Por baixo das máscaras, como a madeira por baixo da cera, está nossa cara sincera.
Mas como faz bem uma boa maquiagem! Afinal, casa é feminina, e ficará de cara nova com uma boa pintura. No entanto, para pintar é preciso tirar da parede os quadros, os cabides, os tantos enfeites e penduricalhos. Depois, com as paredes nuas mas renovadas, com novas cores e nova luz, a gente olha os quadros e parecem velhos, os velhos enfeites mostram-se sem graça, os penduricalhos inúteis: renovando a paisagem também renovamos o olhar.
Dizem que recordar é viver, mas renovar também é. Então jogamos fora muitas coisas, dando lugar para coisas novas. Mas fiquei em dúvida: jogava fora a foice enferrujada que simbolizava minha antiga crença comunista? Ao mesmo tempo que parece tão extinta quanto inútil no tempo das colheitadeiras conectadas com satélites, parece tão singela, tão eloquente na sua mudez enferrujada, a dizer que o mundo mudou e mudei tanto!
Tirei a velha foice da parede da cozinha, trouxe para a parede do escritório. Só tem significado para mim. Reformar-se também é reconhecer novos limites.
Leo Pires Ferreira se aposentou e me conta que, como paraplégico, vai piorando, mas, como cidadão, vai melhorando, indo a escolas para dar palestras, irradiando a paixão por Monteiro Lobato. Com novos limites, mas também com novas ações.
Enfim... a velha-nova casa melhorou. Que o novo-velho eu melhore também!
ATENCIOSAMENTE
O chefe dita a carta e termina dizendo “atenciosamente, etcétera e tal”, mas a secretária, depois de muito vacilar durantes anos, resolve que chegou o dia de sugerir:
- Doutor, por que terminar sempre as cartas da mesma forma? O senhor sempre fala em inovação, mas...
- O que a senhora sugere, dona Dilma?
Ela esperava argumentar para convencer o chefe, e eis que ele nem precisa ser convencido!
- Hem, dona Dilma, que é que colocamos em vez do velho “atenciosamente”?
Ela arrisca:
- “Com nosso apreço?”
- Ora, dona Dilma! – ele ri – É uma carta anunciando novos preços de nossos produtos para os revendedores, vai parecer um trocadilho infame, enviar apreço junto com novos preços...
Ela começa a passar as unhas no mouse, piscando-pensando até soltar:
- “Com nossa consideração?”
- Dona Dilma, a senhora considera “consideração” uma palavra melhor que a velha “atenciosamente”?
Ela abre a boca para responder, ele fala antes:
- Mas a senhora tem razão, vamos inovar! Que tal “confiante em nossa parceria”?
Ela já vai digitando, ele passa a andar pela sala resmungando:
- Não, esse “confiante” vai soar presunçoso, e, além disso, essa “parceria” parece muito hipócrita, porque nós ditamos os preços sem consultar os revendedores.
Ela suspira fundo, fecha os olhos e solta:
- Que tal “sempre com esperança em nosso sucesso”...?
Ele abre os braços:
- Esperança, dona Dilma?! Sucesso não depende de esperança, mas de criatividade, planejamento e trabalho!
Ela lacrimeja, sussurra desculpas, enquanto ele volta a andar furioso pela sala, resmungando:
- “Com certeza de sucesso”? Não, é jactante! “Com fé em nosso sucesso”? Não, parece coisa de religião.
Ela fica estátua diante do monitor, enquanto ele se empolga:
- Temos que fazer como na criação industrial, sair dos moldes tradicionais! Nada de “com isso” ou “com aquilo”! Vamos simplesmente escrever “Sucesso!” e pronto! Que tal?
- Ótimo, doutor! – ela concorda aliviada, já digitando, mas ele se inclina olhando a palavra no monitor, ela vê as veias do pescoço dele ali palpitando, até que ele abre os braços bradando ao céu:
- Sucesso! Como se fosse uma invocação mágica, querendo que o desejo se transforme em realidade! Soa infantil, a senhora não acha?
- Se o senhor acha - ela balbucia, ele explode:
- Dona Dilma! Foi a senhora quem começou com essa história de inovar o que estava funcionando perfeitamente, e agora...
Ela chora, lambuzando nos olhos as unhas pintadas de rosa. Ele espera ela secar os olhos com o lenço de papel, aí fala como a uma criança:
- Dona Dilma, a senhora sempre pinta as unhas de rosa. Por que não de preto? De vermelho? De lilás? Sabe por que, Dona Dilma? Porque não ia ser coisa da Dona Dilma, sempre tão discreta e eficiente na sua simplicidade!
Ela funga levantando o nariz, ele aponta a tela:
- Apague esse “sucesso”, dona Dilma, e escreva “atenciosamente”. E, sempre que escrever isso de novo, lembre que é uma palavra como a senhora é, simples e eficiente!
Com careta de choro, com atenção em cada letra, ela escreve “atenciosamente”, e então trocam um atencioso olhar; ele diz obrigado, ela diz de nada, e manda a impressora imprimir automaticamente, mas até parece que a impressora imprime carinhosamente.

EVOLUÇÃO
Um menino me perguntou o que é evolução.
Contei que, quando eu era menino, maçã era só importada, da Argentina. Vermelhonas, lindas, mas, quando a gente mordia, metia os dentes numa polpa seca e com muito menos gosto que as maçãs brasileiras de hoje, filhas da nossa pesquisa agronômica.
Quando entrei pela primeira vez numa piscina, no Londrina Esporte Clube, fazia pouco tempo que não era mais a “Piscina do Japonês”, mas ainda tinha no fundo pedras de cal, maiores que bolas de futebol, para “clarear” a água, que porém sempre acabava meio garaposa, esverdeada, e nunca se via o fundo claramente, como hoje vemos em qualquer piscina bem tratada.
Quando entrei num primeiro veículo de passeio, era um jipe Wyllis, e os bancos traseiros, onde ficavam as crianças, eram de lata dura, moendo a bunda de tanta chacoalhação nas ruas de terra.
Quando queria sorvete, tinha os sabores de creme, pistache, côco e chocolate, só.
Refrigerante, tinha guaraná, soda limonada e tubaína.
Revista, tinha Manchete, O Cruzeiro, Seleções e os gibis, que também não era muitos.
Quando ia ao dentista, a broca era de pedal, fazendo trepidar os ossos do crânio e ressoando na cabeça como um terremoto.
Quando queria ouvir música, ligava o rádio, com todos seus chiados de então, ou botava na vitrola um disco de cera de carnaúba, grosso e pesado, com doze músicas e com o peso de meia dúzia de MP3 com milhares de músicas.
Quando queria reproduzir um texto, datilografava na máquina de escrever com várias folhas e carbonos, ou então datilografava um stêncil e tirava cópias no mimeógrafo, lambuzando as mãos de tinta.
Para gelar cervejas numa festa, cavava-se uma valeta, empilhando as garrafas entre camadas de pó-de-serra, gelo e sal grosso.
Para fazer churrasco, também cavava-se valeta, onde se queimava lenha até formar braseiro, para assar os espetos de bambu estirados sobre as beiradas da valeta.
Roupa era lavada em tanque, batendo, torcendo, deixando de molho, tornando a bater e torcer, porque máquina de lavar roupa nem em ficção científica existia.
Gente especial era chamada de excepcional, e vivia escondida no fundo das casas, ninguém sequer imaginando que poderiam trabalhar e se divertir e até casar, como fazem hoje.
Mulher que se separava do marido era tão mal vista que muitas se conformavam com passar a vida humilhadas, espancadas e exploradas, sem ter a quem recorrer, molhando travesseiro com as lágrimas e morrendo antes dos sessenta de tanto desgosto.
Em tempo de eleição, as ruas ficavam forradas de santinhos, os muros todos pixados, como também os postes, que até engrossavam de tantos cartazes colados, e, no caminho para votar, os eleitores eram assediados por dezenas de cabos eleitorais.
Políticos se reelegiam proclamando que roubavam mas faziam.
Nas praias, mulheres não usavam biquinis, mostrar a barriga era coisa só pra vedete, e mulher grávida nem ia à praia.
Nos restaurantes, serviam risotos feitos com sobras de comida e ninguém reclamava.
Nas escolas, castigavam alunos batendo na palma da mão com uma prancha de madeira, era a palmatória, e os pais achavam normal.
Empregados não tinham direito a férias, nem a décimo-terceiro salário ou horas-extras, e muitas empregadas domésticas trabalhavam em troca de cama e comida.
A esta altura, o menino, de olhos arregalados, perguntou:
- E evolução não volta pra trás, né?
Garanti que não, evolução vem pra ficar e melhorar. E pedimos sorvetes, ele de morango com torta alemã, eu de nata com framboeza e, para lembrar os velhos tempos, pistache.

LEOPOLDINA
Num dia 7 de setembro, o príncipe Dom Pedro viajava a São Paulo com comitiva, depois de comer muita carne de porco em Santos, decerto com muito vinho como ele gostava, e começou a ter diarréia. Parou várias vezes para se aliviar nos matos, naquele tempo em que ainda não existia papel higiênico, de modo que, quando foi alcançado pelo mensageiro da Corte, devia estar bem irritado, principalmente com os mosquitinhos que, ignorando o que seja politicamente correto, costumam assediar gente nessa situação.
O mensageiro trazia uma carta da mulher do príncipe, Maria Leopoldina, a quem ele tinha deixado como Princesa Regente no Rio de Janeiro. Agora ela comunicava que, diante de ameaças de Portugal, tinha decretado a independência do Brasil, em reunião com os ministros, coisa que o ministro José Bonifácio confirmava em outra carta.
Conta a História oficial que então o príncipe decretou a independência erguendo a espada às margens do Riacho Ipiranga, mas, na verdade, ele estava ainda longe do riacho, onde sua comitiva já esperava pelo seu aliviamento. Então o príncipe ergueu... a espada? Não, as calças, e foi até a comitiva. Arrancou, sim, os laços portugueses da farda, imitado por todos, e então pode ter erguido a espada e dado o brado de independência, montado no seu... alazão, como na famosa pintura? Não, montado num burro, que ele preferia para viagens longas, pois tem trote mais miúdo.
Com seu gesto heróico e seu brado retumbante, apenas confirmou o que já tinha sido decretado pela mulher, com quem teve nove filhos e em quem regularmente batia.
Linhás (é um aliás na linha seguinte), hoje as comemorações pela Independência deveriam homenagear tanto a princesa quanto o príncipe. Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda Beatriz de Habsburgo-Lorena foi arquiduquesa da Áustria e escolhida para casar com Dom Pedro por interesses estratégicos de Portugal. Como toda princesa da época, desde pequena estudou ciências, política, História e idiomas. Casou-se por procuração em 1817, só depois vindo a conhecer o marido no Brasil, com quem teria sete filhos em nove anos de casamento.
Mais que filhos, ela deu ao príncipe visão de mundo, informando-o das idéias européias e estimulando a romper com Portugal. Quando se viu Princesa Regente na viagem paulista do príncipe, ao receber cartas ameaçadoras de Portugal não vacilou, convocou o Conselho de Estado e decretou a independência.
Mulher politicamente tão influente e decidida, na vida conjugal foi muito desrespeitada e infeliz. Dom Pedro era mulherengo, deixando a mulher saber das amantes. Chegaria a nomeá-la dama de companhia da mais constante das amantes, Domitila de Castro, a quem ele agraciou com o título de Marquesa de Santos, e com quem Leopoldina teve de conviver no Palácio de São Cristóvão. Para dissolver boatos, Dom Pedro a quis obrigar a participar do cerimonial de beija-mão ao lado da amante, ela recusou e foi espancada. Ele viajou para o Rio Grande do Sul, ela entrou em depressão, abortou e morreu sem revê-lo.
Se Dom Pedro I vivesse hoje, seu tratamento à Princesa Maria Leopoldina poderia lhe causar problemas legais e políticos. Conforme a Lei Maria da Penha, poderia ser acusado de maus tratos e agressão à esposa, e detido. Conforme o Artigo 1572 do Código Civil, ela poderia pedir separação judicial por infidelidade. Por sofrer humilhação, ela também poderia requerer indenização por danos morais.
“Resgatar” tornou-se verbo da moda: resgatam tanta coisa! Que tal resgatar a importância histórica dessa mulher corajosa e humilhada? Neste 7 de setembro, que tal dar vivas a Leopoldina?!
MEU TESOURO
Meu tesouro não tem preço, até porque nunca estará à venda, e está espalhado pela casa.
Uma colher gasta, de tão lambida pelo tempo, tão ancestralmente digna e, no entanto, de origem incerta, não sei se veio da vó paterna ou materna. Mas decerto serviu sopa a gerações, mexeu gemada, cortou pudim, abocanhou muito feijão com arroz. Há algum tempo dei-lhe o nome de Velha, para simplificar quando procuro por ela:
- Cadê a Velha?
Mas a faca de cabo de osso sei onde está sempre, aqui na escrivaninha, primeira leitora de tudo que escrevo. Era da vó Sebastiana, única coisa que peguei de sua casa quando morreu aos 62 anos, desgastada por oito partos e tanta trabalheira, naquele tempo em que as mulheres “do lar” lavavam roupa no tanque, passavam, limpavam a casa, amamentavam até mais de ano, cuidavam de horta, cozinhavam duas refeições por dia mais pães e bolos e biscoitos, além de criar e matar galinhas, escamar peixes, esfolar porcos e fazer milagres com as moedas domésticas.
Em setenta anos, a faca cortou tanto que a lâmina estreitou, por isso não afio mais, goza a aposentadoria de apenas cortar papel e sentir-se querida.
No quarto dos netos está o Jimmie, palhacinho acrobata que gira numa barra movida a engrenagem, é só apertar e Jimmie gira, sempre com seu sorrisão. Já passou pelo Hospital de Bonecos, foi reformado e completa meio século encantando crianças, pois ganhei Jimmie de meu pai quando tinha nove anos. Tomara, Jimmie, que você resista a meus netos, mas sei que, mesmo que eles acabem te liquidando, até em cacos você continuará com seu sorriso de quem sabe que o melhor jeito de ser é servir.
Minhas pedras dormem seu sono milenar nos vasos das plantas ou nos tachos de cobre, junto com caramujos e conchas. Foram recolhidas em praias e riachos, como lembranças de dias de sol e alegria, mas o tempo embaralhou as lembranças e, agora, todas significam apenas vida feliz.
Minhas ferramentas têm, como medalhas gravadas no próprio corpo, riscões, arranhões, amassaduras, companheiras íntimas de minhas mãos e meus dedos, multiplicadoras de minha força, com seus dentes de ferro e seus cabos de plástico ou de madeira, tão diferentes e entretanto tão irmãs. Estão arrumadas na parede da garagem, com suas silhuetas riscadas para cada uma voltar a seu lugar após o uso, como senhoras que merecem respeito e lugar no pequeno mundo de nossa casa, de quem tanto ajudam a cuidar.
Meus vasos conversam comigo o ano inteiro, refolhando, florindo, com sua linguagem muda e colorida, tão lenta que só vê quem olha com amor.
Minha cadeirona de tevê, dessas de armação de ferro recoberta com fitas de plástico, quem diria, foi recolhida na rua, jogada fora por alguém porque suas fitas estavam soltando. Troquei as fitas, e sempre que alguma se rompe, troco com carinho, para retribuir a minha mestra de calma serventia e doce sabedoria. Me ensinou que tudo e todos podem ser muito mais recebendo atenção e cuidados.
A taça que ganhei no concurso de twist, aos 14 anos, escureceu com o tempo, mas ainda me diz que, como a vida é curta, é melhor curtir a vida, dançando, cantando e rindo.
Sempre me dói pensar que já fui tão amargo ou cego, outrora, que um dia joguei fora, ou dei, ou doei, sei lá, a biografia de Cronin, Pelos Caminhos da Minha Vida, que ganhei no concurso de redação escolar também aos 14 anos.
Fora isso, meu tesouro está completo – por enquanto, pois decerto ainda vai crescer, enquanto seu gerente, o coração, continuar capaz de afeto.
(p)Link
Comentários
Arquivo
Imprimir


Feed RSS 0.91
Feed Atom 0.3