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Por Domingos Pellegrini (em 26/05/2010 @ 07:15:25, em jornal, lido 72 vezes)
Não se engane, filho, com
tantos ladrões e prisões:
são apenas exceções
do povo ordeiro e bom
Se a maldade é tão vista
nos jornais, não desista
da bondade jamais:
o mal é só minoria
Somos maioria quieta
confiante a trabalhar
nos prêmios do dia a dia
e eles, não fosse a gente
a viver honestamente
nem tinham de quem roubar
....
Navego em Deus
chego ao Tao
nada mal pra quem
era apenas ego
Sigo adiante
nada consigo ver
tanta é a poeira
da física quântica
Volto a minha mãe
(Com Deus me deito
com Deus me levanto)
e durmo satisfeito
pra renascer amanhã
Por Domingos Pellegrini (em 24/05/2010 @ 11:47:12, em jornal, lido 70 vezes)

O FIM DO MUNDO
Pois é, tantas vezes anunciaram que o mundo ia se acabar e o que acabou mesmo foram as brincadeiras dançantes, que saudade.
Agora, corre na internet uma notícia-alarme de que uma imensa onda, de cem metros de altura, equivalente, claro, a um prédio de tantos andares, varrerá o Oceano Atlàntico, arrasando as cidades costeiras da América.
Por via das dúvidas, recolhi minhas cuecas do varal. Não quero acabar no meio de uma inundação sem cuecas.
Outro email vergasta que os fanáticos religiosos, que vivem pregando o fim do mundo com catástrofes, deviam se matar para irem logo ver o Deus catastrófico em que acreditam, em vez de ficarem enchendo a paciência da gente com tantos alarmes falsos.
Recentemente, achei engraçado alguém dizer de um preguiçoso:
- Aquele quer que o mundo acabe em barranco para morrer encostado.
Mas eu tenho algumas idéias melhores para o fim do mundo.
O super-adensamento das ondas de telecomunicações na atmosfera, principalmente de celulares, causará uma tal tensão na hipófise que perderemos o controle sobre os hormônios. Idosos passarão a brincar de casinha. Crianças só quererão brincar de sexo. Regredindo aos primatas, adultos se matarão por causa de qualquer palha. E perderemos o controle das comunicações, das administrações públicas e privadas, e enfim do convívio social, desandando para a barbárie e o caos. Só se salvarão as pessoas que, como eu, não usam celular, e começarão um mundo novo só com pombos-correio.
Outro quase fim do mundo virá quando, depois de retirado todo o petróleo do pré-sal, o fundo do oceano desabará, criando um tal maremoto que chegará a Brasília. Como, porém, será numa sexta-feira e todos os deputados estarão “visitando as bases”, muita gente lamentará não ter sido numa terça-feira.
Mais um fim de mundo acontecerá quando Lula, secretário geral da ONU, empregar lá tantos petistas que criarão o Bolsa Família Mundial, que na Europa, por exemplo, será de mil euros, desestabilizando a economia mundial e provocando recessão e miséria, até porque bilhões de pessoas desaprenderão de trabalhar.
Fim do mundo interessante também será quando, cansado dessa espécie que lhe causa tantas coceiras e arranhões na crosta terreste, o planeta se irritar e despejar quatrilhões de toneladas de lava pelos vulcões, junto com terremotos e maremotos. Só sobreviverão um casal de cientistas africanos acampados na Antártica e um casal de esquimós do Ártico, que depois de uma década de penosas viagens se encontrarão onde foi o México, iniciando uma nova Humanidade, que assim será de gente baixinha, gorda e negra.
Outro fim do mundo virá não se sabe ainda como, tendo os mediuns recebido apenas o aviso de que acontecerá logo depois da propaganda das Casas Bahia deixar de ser gritada e irritante.
Por via das dúvidas, vou andar sempre com fio dental. Não quero ficar isolado numa ilha sem fio dental.
Por Domingos Pellegrini (em 16/05/2010 @ 09:36:51, em jornal, lido 65 vezes)

O FUTEBOL DE JESUS
No tempo de Jesus, futebol se jogava com bola de bexiga de carneiro cheio de lã de ovelha – mas os soldados romanos gostaram do jogo e compraram tantas bolas que o preço subiu demais.
Então Jesus conseguiu do açougueiro um carneiro para rifar e comprar bolas.
A pessoa que ganhou a rifa gostou tanto de Jesus que doou de novo o carneiro. Jesus rifou de novo, para comprar sandálias para o time, senão feriam muito os pés na terra cascalhenta.
O ganhador da segunda rifa também doou de novo o carneiro, Jesus rifou pela terceira vez, agora para comprar roupas da mesma cor para o time.
O primeiro jogo foi contra um time de meninos filhos de soldados romanos, mais fortes e mais altos, e que pareciam jogar outro tipo de jogo.
O time de Jesus jogava chutando a bola. O outro time, chutando as canelas deles.
O time de Jesus jogava só com os pés (a bola era tão pesada que não existiam cabeçadas). O outro time jogava com os pés, os cotovelos e a cabeça, não para cabecear a bola, mas outras cabeças.
O tempo de jogo era marcado por uma ampulheta, emprestada do rabino. Quando esgotava a areia, viravam a ampulheta para o segundo tempo. Mas, antes mesmo de terminar a areia do primeiro tempo, dois do time de Jesus estavam mancando, outro sangrava na cabeça e todo o time já jogava com tanto medo que os meninos romanos faziam gols seguidos.
O gol eram duas pedras no chão, e o goleiro podia rebater as bolas apenas com os pés, mas o goleiro romano pegou a bola com as mãos. Jesus disse que isso não podia, os romanos porém recomeçaram o jogo.
Jesus sentou no chão, acenando para os companheiros sentarem também. O outro time parou. O menino romano mais alto, que já nem parecia mais menino, foi até Jesus.
- Desistiram?
- Não – Jesus sorriu – Paramos porque não estamos jogando o mesmo jogo.
- Ora! – o romano grunhiu – Seu goleiro também pode usar as mãos se quiser.
- Além disso – Jesus continuou sorrindo – Vocês parece que estão guerreando e não jogando.
O romano riu.
- Ah, vocês tem é medo! São como ovelhas...
Jesus estendeu a mão, o romano se espantou:
- Quer brigar comigo?
- Quero que me ajude a levantar.
Os meninos romanos riram, e se foram levando a bola, os companheiros de Jesus perguntaram o que fazer.
- Vamos pegar a outra bola – Jesus sorria – e vamos jogar brincando.
Mas agora até seus companheiros jogavam bruto como os romanos, e Jesus parou de jogar. Um menino perguntou por que, ele sorriu:
- Enjoei. Mas, se um dia formar um time de novo, vai ser um time de doze.
Por Domingos Pellegrini (em 11/05/2010 @ 07:54:41, em Da Gazeta do Povo:, lido 64 vezes)

RATOS
O rato novato vai correndo até o velho rato.
- Ouviu, velho? Vão acabar com os ratos aqui!
O velho rato sabiamente sorri.
- Calma, aqui sempre houve e sempre haverá ratos. Quem disse isso?
O rato novato sussurra:
- Aqueles sujeitos que mexem na papelada.
- Ah, os repórteres, estão procurando outro tipo de ratos.
O rato novato fica de boca aberta, até perguntar:
- Mas existe outro tipo de ratos?
O velho rato boceja antes de explicar:
- É como eles chamam gente que diz que trabalha aqui mas nem vem aqui.
O novato fica pensando.
- Mas se essa gente rata nem vem aqui, por que eles procuram na papelada?
- Gente faz tudo com papel. Trabalham pra ganhar aqueles papéis que chamam de dinheiro. E em papéis também anotam quem recebe dinheiro, trabalhando ou não trabalhando.
O novato fica pensando.
- Mas por que uns ganham o tal dinheiro sem trabalhar?
- Porque são peixinhos de algum tubarão.
O novato fica pensando, o veterano ri e explica:
- Acontece que aqui é o que eles chamam de casa de leis. Eles precisam das tais leis pra saber o que devem ou não devem fazer. Tem até lei dizendo que todos eles são iguais. Outra lei diz que só deve receber dinheiro aqui quem trabalha aqui.
- Mas...
- Mas eles fazem as leis e eles mesmos desfazem das leis. Os tubarões empregam seus peixinhos, que os jornais chamam de ratos e...
- Não é justo! – esbraveja o novato – Nós, ratos, trabalhamos como que! Meu pai passava as noites procurando comida, minha mãe amamentando meus irmãos! Vida de rato é sacrificada e arriscada!
- Mas gente é assim – o veterano boceja – Gostam de se comparar com os bichos. Não vê aqueles que discursam bonito e fazem feio? São crocodilos. Os que só discursam bonito são pavões. Os que vivem escapulindo dos problemas, são bagres. Quando ficam velhos, viram raposas. Os que fingem bravura são chamados leões da Metro, só rugem pra fazer fita.
O novato fica de boca aberta tanto tempo que o veterano avisa:
- Boca aberta não clareia cabeça.
O rato novato resmunga que não é justo.
- Não é justo ganhar sem trabalhar?
- Não é justo chamarem esses vagabundos de ratos.
Esquece, diz o veterano:
- Vamos ver se no meio da papelada remexida tem alguma coisa pra comer. Mas com cuidado, hem, que eles não toleram ratos, quer dizer, ratos como nós.
- Não é o que eu disse? Vida de rato é arriscada! Não é justo!
E, assim que os repórteres apagam a luz, os ratos vão mexer na papelada, o rato novato ainda resmungando que não é justo, não é justo...
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