A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Barbara Johnson

Imagem

\\ Home Page : Arquivo por mês (Ordem inversa)
Existe uma lista de todas as publicações neste site, em ordem cronológica.

Por Domingos Pellegrini (em 29/04/2010 @ 14:22:29, em jornal, lido 101 vezes)

 

 
 
 
 
 
       TATUAGEM
 
 
         No pesque-pague, eu pescava tranquilo até que os dois vieram se botar bem do meu lado, falando alto depois que botaram as linhadas na água.
         - Cara, não podemos pescar mais que cinco quilos, hem, senão o dinheiro não vai dar.
         - Quatro quilos, porque a gente vai tomar umas cocas, né.
Assim combinados, ficaram botando e tirando os anzóis da água tão depressa que os pobres peixes, se quiseram beliscar, ficaram só na vontade. Até que esqueceram das varas, apoiadas em forquilhas, e um deles falou olhando o braço:
-         Tô a fim de tatuar aqui, cara, mas não sei o que.
-         Uma cobra.
-         Por que uma cobra?
- Porque toda gata vai perguntar por que a cobra. Aí você joga aquele lero e ganha a gata.
O outro ficou pensando, sem ver que a ponta da vara curvava.
- Cobra, cara, já infernizou Adão e Eva, né, e mulher tem medo de cobra, qualé?
- Então tatua um sol, mulher gosta de tomar sol que nem peixe gosta de água.
Aí viram as pontas das varas bicando a água, de tão curvadas, e puxaram com tanta força que conseguiram, os dois, arrebentar as linhas ao mesmo tempo. Ficaram se lamentando, depois foram trocar as varas, voltaram falando da tatuagem.
-         Sol é dez, cara, mas lua não será mais romântico?
- Aí vai agradar as gatas mas a moçada vai pensar que você é gay...          
Lançaram os anzóis.
- E uma flor, hem, com forma de sol mas cara de flor! Aí explico: é que eu sou quente como o sol, gata, mas carinhoso como uma flor.
- E flor é carinhosa, cara? Flor é bonita, é cheirosa e só. 
- Uma gata me falou que dar flor é mostrar carinho.
- Dar flor, né, não tatuar flor! Os caras vão te chamar de florzinha.
As varas de novo começaram a pinotear, eles nem viram.
- Precisa ser coisa que a gata olhe e arregale os olhos, cara, dizendo que lindo, por que você tatuou isso?
- Já sei! Que tal uma lua chorando umas lágrimas que viram estrelas?
- Cê tá brincando? Parece coisa de corno ou de bichinha louca! Tem de ser uma coisa que... não sei.
-         Pois é.
Enquanto isso, as varas pararam de beliscar, decerto as iscas já comidas. Mas eles continuaram discutindo a tatuagem, até que recolheram as linhas. 
-         Vamos tomar aquelas cocas, cara, não dá peixe não.
E foram, discutindo a tatuagem porque, como disse um e o outro concordou, “se vai fazer, tem de fazer bem feito”...
 
  
Texto (p)Link Comentário Comentários (1)  Arquivo Arquivo  Print Imprimir
 
Por Domingos Pellegrini (em 19/04/2010 @ 14:59:19, em jornal, lido 97 vezes)

 

 
 
 
         OUTONIDADE
 
 
 
         Depois de sete meses dormindo com o janelão aberto, fechei, obedecendo ao comando do velho Outono, que todo ano me visita,   a apalpar com seus dedos frios meus tendões e ossos. Fiz um haicaipira para ele:
Chegou o outono
o gato enrolou
ronronando no edredon
         Note a sutileza, Outono: todas as palavras tem “o”, imitando o gato enrolado e sugerindo a maciez dos gomos do edredon.
         Quando era moço, Outono, eu não sentia frio, mas também não era sutil.
         Foi numa fila de banco que senti dor nos pés pela primeira vez, fiquei pensando o que seria aquilo.  
         - A idade – minha mãe falou certeiramente quando lhe contei, e, pela primeira vez na vida, me vi diante de um sinal de envelhecimento, como um cachorro caído de caminhão olha em torno para tomar rumo.
         Depois a barba começou a branquear, até que cortei, como quem corta um pedaço pendente do passado ultrapassado, as crenças superadas, a indiferença ao tempo. Pois o tempo passava e eu não tinha tempo para perceber, sempre ocupado com tantas coisas!
         Hoje, consciente de que tenho menos tempo de vida, acho tempo para perder tempo pensando no tempo, olhando o gato a se enrolar no cobertor, a janela embaçada pela neblina, a beleza de minha mulher bafejando nas mãos antes de pegar o pão. 
         Ela me vê sorrindo, pergunta que foi, digo que não foi, é:
-         É o tempo passando e você sempre mais bonita.
Ela sorri linda, me beija e, depois que se vai, fico pensando quanto tempo terei ainda para desfrutar desse amor. Um por um cato com as pontas dos dedos os farelos que ela deixou, pensando nos minutos que vão esfarelando o grande pão do tempo.
Fico ouvindo, como fina música, o som de lixa das mãos esfregando o friozinho, fazendo o gato levantar a orelha e abrir um dos olhos, numa preguiça outonal, para ver que estou em paz e voltar a ronronar enrolado no edredon.
 Ele não pensa no tempo, não tem consciência do outono, apenas vive o outono, pobre gato. Você não sabe como é bom se saber no outono e, com outonidade, pegar a maçã como quem pega um prêmio, morder como quem morde a própria vida, sentir o gosto como na primeira vez em que comi maçã, menininho. Naquele tempo maçãs eram raras, vinham só da Argentina, e numa viagem de férias, a caminho da praia, mãe pediu e pai comprou, cortou em metades com o canivete, a irmã ficou olhando sua metade antes de comer, eu mordi logo e ela falou nossa, como você é esganado.
         Agora, ela já se foi naquela viagem de que ninguém volta, e o esganado continua aqui, a saborear a vida. Quantos outonos mais? Pergunto ao gato, ele abre o olho, vê que nada tenho nas mãos para lhe dar, fecha o olho voltando para seu mundo sem palavras.
         Então um passarinho canta lá fora, outro responde, abro a janela, entra sol, o céu de outono é azul como só, e as roseiras continuam a florir desafiadoras.
         Vocês tem razão, passarinhos, era outono até há um minuto, agora já parece primavera. O sol está no coração, a bombear seus rios vermelhos de paixão. Pego o edredon, o gato cai assustado, rio.
-         Vai viver, vagabundo! – digo a ele, e vou fazer o que digo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Texto (p)Link Comentário Comentários (3)  Arquivo Arquivo  Print Imprimir
 
Por Domingos Pellegrini (em 12/04/2010 @ 07:59:59, em jornal, lido 208 vezes)

 

 
 
 
 
CHAPA QUENTE
 
 
         O fogão de Vó Sebastiana tinha três partes: boca, barriga e lombo.
         Na boca ela enfiava a lenha, e ali também botava espiga de milho-verde, para assar espetada num garfo e equilibrada sobre dois paus de lenha. Quando o milho ficava sapecadinho, ela pegava o garfo quente com pano de prato, lambuzava de manteiga com pincel de palha de milho, daí salpicava sal. Botava a espiga num prato no alto da prateleira, para amornar, e eu ficava feito cachorro que vai receber osso, salivando e pulando até que ela me dava a espiga, aí me lambuzava até a testa.
         A barriga do fogão era o forno, onde cedo ela enfiava batata-doce, e, como o fogão ia ter fogo ou braseiro o dia inteiro, de tardinha as batatas estavam molinhas por dentro, com casca queimada por fora. Ela pegava com o pano de prato e abria nas mãos, saía um vaporzinho, e eu comia com colher aquela delícia.
         Nalgum dia em que eu não ia à casa dela, as batatas ficavam me esperando num prato coberto com pano de prato, sempre com o S de Sebastiana bordado num canto. Então ela abria as batatas, raspava o miolo com colher e despejava mel ou melado. Se me torturarem para dizer qual era mais gostosa, a batata-doce quente ou a batata-doce fria da vó, morro mas não consigo escolher.
         O lombo do fogão era a chapa, onde nos buracos ficavam as panelas e, nas beiradas, ela assava bananas com casca. Quando a banana inchava e rachava soltando caldo, ela tirava com a escumadeira, abria com faca, botava canela, mais nada, e era o doce mais gostoso da minha infância.
         Lombo defumado em fatias, linguiças, bifes, tudo podia ser assado na chapa, que ia ficando com uma crosta onde na segunda-feira de manhã ela assava fatias da polenta sobrada do domingo, as fatias ficavam moles por dentro e crostadas por fora. Por isso eu queria porque queria dormir na casa da vó no domingo, mesmo tendo de andar mais para ir à escola de manhã. A polenta valia a pena, ainda mais com a gemada que ela batia com garfo numa caneca de louça até espumar, depois a espuma me deixava um bigodinho que eu lambia.
         Mesmo lambendo bem, sempre ficava um restinho de bigode que ela limpava com o pano de prato, que então ia para o tanque. Depois, eu sabia que, quando estivesse na escola, ela varreria a boca do fogão com a vassourinha de guanxuma, lavaria o lombo do fogão com água fervente, raspando com espátula de pedreiro, e também varreria o forno com outra vassourinha de piaçaba de cabo curtinho. E o fogão estaria pronto para mais uma semana.
         Daquele fogão saíam pipocas crocantes, lambaris fritos, pedaços de porco conservados em banha, que chiavam na frigideira. Daquele fogão saíam sopas de mandioca ou de fubá com costelinha defumada e cambuquira, e doces de mamão ou abóboba com côco ou goiabada ou bananada, mexidos no tacho com colherona de pau.
         A casa parecia feita em redor daquele fogão, como em redor dele orbitava a família. Até o dia em que Vó Sebastiana deitou e não acordou mais. Ainda acenderam o fogão algumas vezes, mas dava um trabalhão, e, sem saber como ela fazia, dava fumaceira, e então o fogão esfriou de vez, a boca escura parecendo querer dizer alguma coisa. Talvez esta crônica, vó, esta crônica.
 
 
 
Texto (p)Link Comentário Comentários (7)  Arquivo Arquivo  Print Imprimir
 
Por Domingos Pellegrini (em 05/04/2010 @ 08:22:37, em jornal, lido 152 vezes)

 

 
Jeca Tatu
 
 
         BICHO-DO-PÉ
 
 
            Pois então, sô, comecei a sentir aquela dorzinha no dedinho do pé, dorziquinha assim embutida, por fora nada se via, até porque era difícil olhar ali do lado da unha do mindinho. Por isso mesmo, deixei pra lá, o tempo ia resolver.
         Mas com o tempo a dorzinha só aumentou, a ponto de eu só conseguir calçar direito o tênis velho de pescar. E, torcendo o corpo para olhar direitinho, vi no dedo inchado um ponto amarelo, pensei ih, que será isso?
         É bicho-do-pé, Dalva falou com a autoridade de quem passou a infância com os pés na terra.
-         E já está mais do que maduro, logo ia entrar na corrente sanguínea.
Nossa, pensei, que bichinho poderoso! Lembrei do Jeca Tatu, que vivia com os pés bichados. Lembrei do filme Alien, aquele bicho crescendo dentro dos astronautas e... Não consegui lembrar de mais nada, porque Dalva já estava futucando meu dedo com agulha. Gritei de dor, ela riu:
- Não seja patife! É preciso tirar o bicho e limpar bem o buraco, pra não deixar ovos.
Ovos! Então era uma fêmea! Eu estava sendo usado como parceiro reprodutor, ou melhor, como depósito para reprodução ou ...
-         Aaaaai!
-         Calma, é preciso limpar bem. Relaxe.
Tentei relaxar, gemendo o mínimo possível, ela resmungando com o bicho enquanto futucava, molhando com álcool, e não é que acabei relaxando, sentindo aquelas fisgadinhas dolorosas, mas a gente se acostuma com tudo, né?
Até lamentei quando ela falou pronto, um bicho-do-pé a menos no mundo. Estava tão gostoso, falei já com voz sonolenta. Ela falou que não fosse por isso, mostrando o chumaço de algodão:
-         Tem aqui os ovinhos, posso botar de volta.
Puxei o pé, bateu no joelho dela, doeu, gemi, ela me deu um beijo, acabamos comemorando a morte do bicho-do-pé.
         Que coisa gostosa é ter bicho-do-pé! Recomendo. Mas antes você precisa arranjar uma mulher carinhosa, que foi moleca de sítio e goste de cuidar de você.
Ah, você também precisa, claro, arranjar o bicho-do-pé. Não sei como arranjei o meu. Se soubesse, arranjava outro.
Aliás, depois encontrei minha filha Analu, ela me viu com o olhar distante, perguntou o que eu tinha.
Falei que não era nada, pois ela ia acreditar se eu dissesse que estava com saudade do bicho-do-pé?
 
 
Texto (p)Link Comentário Comentários (1)  Arquivo Arquivo  Print Imprimir
 
Páginas: 1