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Bilboquê
VELHOS BRINQUEDOS
Pipa cai na chácara, toca a campainha, são meninos pedindo:
- Pega a pipa pra nós, tio!
Digo que vou pegar se a pipa estiver no chão.
- Se estiver enroscada em árvore, não pego, até porque pipa só cai porque vocês passam cerol na linha.
- Tá na árvore, tio... – um fala com cara tão lambida que dá dó, boto escada, pego a pipa, devolvo, ele pega e sai correndo sem agradecer. Mas vai pulando de felicidade, os outros atrás, e me sinto recompensado porque fazem lembrar os brinquedos de meu tempo moleque.
Fui bom de pião. Não consegui fazer o pião girar na unha, mas girava na palma da mão, zunia em piso encerado, riscava a terra feito bailarino de madeira.
Nunca fui bom com bolinhas de gude, também chamadas búricas, mas fui campeão de bugalho ou cinco-marias. Eram cinco saquinhos de brim ou de estopa, cheios de areia ou arroz, que a mãe costurava depois da gente infernizar de tanto pedir e suplicar. Lembro de jogar bugalho até na calçada diante dos cines Jóia e Londrina.
Lançava os cinco saquinhos no chão, aí pegava um, jogava para o alto, pegava outro e já também o que caía do alto. Depois de assim pegar todos, com uma só mão, lançava de novo os cinco no chão, pegava um e lançava um bem alto e, com a mesma mão, tinha dar petelecos nos outros, para passarem por baixo de um arco formado pela outra mão, daí pegar o que caía do alto. Não era fácil, mas a gente treinava apaixonadamente e ficava craque. Quando ficava fácil, passava a jogar com a mão esquerda...
Estilingue, tive um, comprado de outro guri, era muito artesanato para mim, que nunca soube também fazer pipa. No bilboquê, porém, fui campeão, enjoava de tanto embirocar.
Mas a glória foi brincar de carrinho de rolemã. Meus pais viviam separados, eu morava com a mãe em outra cidade e, nas férias com o pai em Londrina, via com inveja os meninos descendo a calçada velozes nos carrinhos (ainda não existia asfalto, só pavimentação de paralelepípedos, então as pistas eram as calçadas).
Tio Orlando tinha oficina em casa e, quando viu minha inveja, fez para mim o mais bonito, forte e veloz carrinho que a gurizada jamais viu.
Na Rua Pará, onde moravam os nonos, moí aquele carrinho, descendo a calçada a mil sonhos por hora, muitas vezes capotando na curva da esquina lá embaixo, às vezes atropelando alguém. Lembro da Nona Paulina catando tomates esparramados da sacola de volta da feira. Mas perdoou sorrindo, decerto por me ver tão feliz.
Nas férias seguintes, vi o carrinho pendurado na parede da garagem, esperando conserto, mas minha nova paixão eram os álbuns de figurinhas. (Meu Deus, onde foram parar meus álbuns de figurinhas?! Vou procurar, nem que tenha de revirar a cômoda das fotos e papeladas.)
Depois passou a paixão das figurinhas, e a nona se foi, tio Orlando foi, como se foram os carrinhos de rolemã, os bilboquês, os piões, as búricas, os bugalhos.
Da próxima vez que cair pipa aqui, vou falar:
- Pego, mas só se me prometerem que não vão deixar esse brinquedo morrer...
EXEMPLOS
Vou renovar a carteira de motorista no Detran, e sou atendido como cidadão que, com seus impostos embutidos em tudo que compra, paga todos os serviços públicos.
Já na recepção checam se eu trouxe todos os documentos necessários. Num guichê me dão o boleto da taxa para pagar, a data do exame e instruções para conseguir apostilas via internet.
No dia do exame, o funcionário pontualmente abre a sala, distribui as provas e dá instruções precisas.
Depois que entrego a prova feita, vou ao guichê onde rapidamente batem a foto que irá na carteira, avisando que, se for aprovado, ela será entregue pelo correio. Menos de uma semana depois, a carteira chega em casa.
Depois, vou à Polícia Federal renovar passaporte. Antes, telefono e atendente gentil pergunta se tenho internet, dá o endereço e lá acho todas as instruções e o boleto para pagar a devida taxa, além de agendar o atendimento.
No dia e hora marcados, sou atendido precisamente na hora. Quem atende me chama de senhor e não de você, sempre me olhando nos olhos e dedicando-se exclusivamente a me atender. Na parede, vejo aviso proibindo celular, pergunto se a proibição é também para os funcionários, a resposta é que a proibição é principalmente para os funcionários.
Ao contrário de tantas repartições onde abundam guichês vazios, porque alguns estão sempre folgando lá nos fundos, aqui todos os guichês estão com atendentes. Em minutos são tiradas minhas impressões digitais e checados todos os documentos, depois recebo aviso escrito do dia de entrega do passaporte, e depois mais um aviso via internet.
Tudo de forma simples, rápida, respeitosa, profissional, ao contrário de tantas repartições com guichês vazios, atendentes com visível tédio e preguiça, muitas vezes atendendo cada caso como se fosse a primeira vez. Alguns consultam outros aos berros. Esquecem “detalhes” que nos fazem ter de voltar e entrar em fila mais uma vez. Nâo há padronização de procedimentos, não há método. E muitos fazem cara de estar fazendo favor...
Amigo meu, sempre que precisa recorrer a serviço público, faz o teste da gravata. Vai primeiro com paletó e gravata, bem penteado. Tem de pegar senha e esperar como todos, mas é atendido com respeito e chamado de senhor.
Quando volta para pegar o documento requerido, vai de camiseta, suado e despenteado como tantos trabalhadores.
- Aí mal me olham. Certa vez, o atendente atendeu celular, ficou falando um tempão, rindo e gabolando, depois me perguntou onde é que a gente estava. Tive vontade de responder que estava num país onde os serviços públicos não valem o feijão que comem.
Mas o Detran e a PF, meu amigo, são exemplos de que os serviços públicos podem melhorar, e merecem elogio público.
EXEMPLOS
Vou renovar a carteira de motorista no Detran, e sou atendido como cidadão que, com seus impostos embutidos em tudo que compra, paga todos os serviços públicos.
Já na recepção checam se eu trouxe todos os documentos necessários. Num guichê me dão o boleto da taxa para pagar, a data do exame e instruções para conseguir apostilas via internet.
No dia do exame, o funcionário pontualmente abre a sala, distribui as provas e dá instruções precisas.
Depois que entrego a prova feita, vou ao guichê onde rapidamente batem a foto que irá na carteira, avisando que, se for aprovado, ela será entregue pelo correio. Menos de uma semana depois, a carteira chega em casa.
Depois, vou à Polícia Federal renovar passaporte. Antes, telefono e atendente gentil pergunta se tenho internet, dá o endereço e lá acho todas as instruções e o boleto para pagar a devida taxa, além de agendar o atendimento.
No dia e hora marcados, sou atendido precisamente na hora. Quem atende me chama de senhor e não de você, sempre me olhando nos olhos e dedicando-se exclusivamente a me atender. Na parede, vejo aviso proibindo celular, pergunto se a proibição é também para os funcionários, a resposta é que a proibição é principalmente para os funcionários.
Ao contrário de tantas repartições onde abundam guichês vazios, porque alguns estão sempre folgando lá nos fundos, aqui todos os guichês estão com atendentes. Em minutos são tiradas minhas impressões digitais e checados todos os documentos, depois recebo aviso escrito do dia de entrega do passaporte, e depois mais um aviso via internet.
Tudo de forma simples, rápida, respeitosa, profissional, ao contrário de tantas repartições com guichês vazios, atendentes com visível tédio e preguiça, muitas vezes atendendo cada caso como se fosse a primeira vez. Alguns consultam outros aos berros. Esquecem “detalhes” que nos fazem ter de voltar e entrar em fila mais uma vez. Nâo há padronização de procedimentos, não há método. E muitos fazem cara de estar fazendo favor...
Amigo meu, sempre que precisa recorrer a serviço público, faz o teste da gravata. Vai primeiro com paletó e gravata, bem penteado. Tem de pegar senha e esperar como todos, mas é atendido com respeito e chamado de senhor.
Quando volta para pegar o documento requerido, vai de camiseta, suado e despenteado como tantos trabalhadores.
- Aí mal me olham. Certa vez, o atendente atendeu celular, ficou falando um tempão, rindo e gabolando, depois me perguntou onde é que a gente estava. Tive vontade de responder que estava num país onde os serviços públicos não valem o feijão que comem.
Mas o Detran e a PF, meu amigo, são exemplos de que os serviços públicos podem melhorar, e merecem elogio público.
SOGRAS
Tenho sogra-1 e sogra-2, a do casamento atual e a do casamento anterior (minha contagem de sogra é assim, de trás para frente).
Como as duas são mães de filha única, sempre que lhes telefono assim me apresento:
- Alô, aqui é seu genro mais lindo!
As reações são diferentes, embora as duas concordem no essencial. Dona Lúcia sempre diz:
- Fala, genro lindo.
Dona Maria Teresa diz:
- Lindo e maravilhoso, fala!
“Feliz foi Adão porque não teve sogra”, diziam antigamente os parachoques de caminhões. Mas acredito que Adão seria feliz se tivesse sogra: decerto ela teria avisado para que não comesse a maçã, ou ela mesma comeria, assim seria só ela expulsa do paraíso. Com isso, seríamos todos descendentes dela, filhos da sogra em vez de filhos de Adão. Seríamos talvez menos guerreiros, Caim não teria matado Abel.
Aliás, a história bíblica é machista que só, né: não diz nem o nome da mulher com quem Caim se casa depois de matar o irmão. Mas, se a história for lida ao pé da letra, sendo Adão e Eva o primeiro casal, a mulher de Caim só podia ser irmã dele mesmo, o que nos condena a ser filhos de um assassino incestuoso.
Claro que a história bíblica não deve ser lida ao pé da letra, pois conta que Caim criou uma cidade e lhe deu o nome de seu primeiro filho, Enoque. Mas se era o primeiro filho do primevo casal, quem habitava a tal cidade?
Faço essa pergunta a minhas duas sogras, e novamente elas demonstram a diversidade humana, embora de novo concordando no essencial. Dona Lúcia:
- Só mesmo você pra ficar pensando essas coisas. A Bíblia é para ser lida com fé! Mas eu sei que você é bom, só pensa bobagem demais às vezes.
Dona Maria Teresa:
- Que me interessa saber quem habitava a primeira cidade do mundo? Quero é saber se vão consertar os buracos aqui das ruas! E como você é bom pra pensar bobagem, hem?
Assim, concordando no essencial, que sou bom, minhas sogras retribuem minha bondade com agrados incomparáveis. Dona Lúcia faz uma farofa com bacon e maçã (reminiscência bíblica?) que é uma delícia. Dona Maria Teresa curte pinga com folhas de figo, fica um néctar digno da corte de Salomão.
E as duas se gostam! Quando se encontram aqui em casa, conversam que só vendo! Mas param de conversar quando chego perto... Por que será?
RATO NO CARRO!
Quando Pingo começa a ganir na chácara, é porque acuou gato ou gambá encarapitado no alto de árvore ou enfiado em pilha de lenha. Então deixamos que ganisse mas, quando fomos ver, ele estava arranhando o chassi do carro, decerto farejou rato ali.
Eu estava plantando umas alamandas, então Dalva quem foi lidar com o problema, ou Pingo arranharia o chassi até tirar a tinta, ele é incansável na caça. Acabaram se juntando Dalva, sua secretária Meire, e nossa cuidadora doméstica, Dona Margarida, todas fuçando no motor, até que, de repente, ouvi aquela gritaria.
- Que nooooojo!
- Viu o tamanho?!
- Saaai daí, bicho danado!
Mas o rato não só não obedeceu, como voltou a se esconder no motor. Elas estavam histéricas, fui acalmar:
- Pra lidar com rato, é preciso ter a calma e a firmeza masculinas, é preciso um homem e pronto.
Expliquei que não podia ser eu, não porque tenha medo:
- Tenho nojo científico de ratos.
Recebi olhares bastante significativos, apesar dos quais dei minha sugestão:
- Não vão conseguir tirar esse rato daí. E, se fecharem o chassi, o Pingo vai continuar arranhando. Melhor é prender o cachorro e botar aí uma ratoeira.
Elas insistiram mais um tempo, depois acataram minha idéia. Soltaram uma bomba junina, jeito fácil de fazer a cachorrada assustada correr para dentro de casa. Fechadas as portas com os cachorros lá dentro, armei a ratoeira com irresistível toucinho defumado, tomando o cuidado de usar luvas para não pegar diretamente nem na ratoeira nem na isca: rato tem mais faro que cachorro e não aceita isca com cheiro de gente.
Quando fomos deitar, lá pela meia-noite, ouvimos o barulho da ratoeira. Fui lá, e estava desarmada e vazia, sem toucinho nem rato. Como esqueci aberta a porta da garagem, Pingo saiu, mas cheirou o chassi e se desinteressou, sinal de que o rato fugira.
De manhã, Dalva acariciou Pingo e agradeceu:
- Você arranhou o carro, mas avisou que tinha rato lá. Senão, ele podia ter feito ninho e... só de pensar no carro cheio de ratinhos, me arrepio de nojo! Você é um baita cachorro, Pingo!
Ele deve entender Português, porque ficou olhando para ela como que dizendo não tem de que, eu estava só caçando, agora me dê um pedaço de queijo e tudo bem. Ela deu queijo a ele, dei um beijo nela, e o rato me deu esta crônica: final feliz!
TREM
O que sei não me traz nenhum conforto
o que não sei em nada desconcerta
Não sei onde ir pela porta aberta
e a nada me levam fechadas portas
Há porém uma zona de conforto
em saber que na vida nada é certo:
pode o talvez transformar-se em decerto
ou reviver o que se achava morto
Pode a sina tornar-se surpreendente
apesar de seus trilhos previsíveis
e o trem chegar às estações da linha
porém em festa, em vez das deprimentes
paradas tão apenas comestíveis
e assim vale viver esta vidinha
CONVERSANDO
COM A GARÇA
Eu estava no pesqueiro deserto, sabendo que no frio pesca-se pouco, mas a esperança é uma boba que se alimenta de ilusão.
Aí me senti observado, o sexto sentido alertando. Me virei e uma garça, branca como chapéu de freira, me olhava imóvel.
Oi, garça, falei, e ela balançou a cabeça. Está me entendendo, pensei, e perguntei o que ela fazia ali.
Ficou me olhando, como se não tivesse entendido. Depois, com aquele seu passo delicado e cauteloso, foi para a beirada da lagoa e ficou olhando a água muito atentamente.
De repente, o pescoço curvou como e a cabeça baixou tão depressa que, quando vi, a cabeça já voltava para a posição altaneira, com um peixinho na ponta da longa tesoura do bico.
Daí ergueu o bico, para contar a ajuda do planeta, abrindo e fechando o bico para o peixe, graças à força da gravidade, ir descendo bico abaixo e, depois, goela abaixo. Dava para ver o bichinho se debatendo a descer pelo longo pescoço da garça.
Depois ela ficou me olhando, as vezes sobre um pé só, e me dei conta de que, na prática, tinha respondido minha pergunta: estava ali pescando, como eu, só que com mais sucesso.
Então minha bóia afundou, puxei a vara e era uma tilapinha, muito miudinha para mim, mas para a garça devia ser um grande petisco, pois esticou o pescoço, adiantando um passo, enquanto eu tirava o peixinho do anzol.
Você quer isto? – perguntei estendendo a mão com o peixinho entre os dedos.
Ela esticou o pescoço. Quer? – perguntei de novo, e ela esticou mais o pescoço. Abri os dedos, o peixinho se debatendo na palma da mão. Antes que ele caísse, a garça deu mais um passo ligeiro e pinçou o bichinho, senti o pique de seu bico na mão.
Ela comeu me olhando, não sei se agradecida ou vigilante. Depois foi para a beira da lagoa novamente, andando tão lenta que cada pé ficava parado no ar antes de pousar para um novo passo. Perguntei se estava querendo competir comigo na pescaria, ela respondeu pinçando mais um peixinho, e comeu me olhando. Daí olhou o horizonte, e voou.
Depois alguém do pesqueiro contou que ela vive ali, e conhece os pescadores que lhe dão peixes, fica em volta deles, ignorando os outros.
- Mas nunca comeu peixe da mão de alguém, só do senhor.
Senti orgulho. Chegando em casa, Dalva perguntou o que pesquei, falei que só fiz amizade com uma garça, tão bonita e delicada que não vejo a hora de voltar a pescar, agora não mais esperando pegar um peixe graúdo, mas muitos peixes miúdos. Acho que a garça quis me dizer que os melhores prazeres são miudinhos.
PODIA SER PIOR
Meu amigo Torresmundo tem um ditame que repete diante de qualquer problema: podia ser pior. O filho de um amigo começou a fumar? Torresmundo solta:
- Podia ser pior, podia ser charuto.
As pombas continuam sujando as praças?
- Podia ser pior se elefante voasse.
A moçada exagera nas comemorações da Copa?
- Podia ser pior se fosse de goleada.
Tem fila nos postos de saúde?
- Podia ser pior se houvesse bolsa-doença.
Querem acabar com a feira na rua do cemitério?
- Podia ser pior com a feira dentro do cemitério.
O prefeito falou que na política o caminhão anda e as abóboras vão se acomodando, não falou?
- Podia ser pior se fossem ovos.
No festival de teatro o povo fica na fila lá fora, depois espera no saguão lá dentro, idosos e gestantes em pé.
- Podia ser pior se as gestantes fossem idosas.
As ruas estão cheias de camelôs vendendo CDs e DVDs piratas?
- Podia ser pior se fizessem cartel dos preços como os postos de combustíveis.
O brasileiro trabalha 150 dias por ano só para pagar os impostos embutidos?
- Podia ser pior se também embutissem juros.
Vuvusela irrita?
- Podia ser pior se a Copa fosse aqui.
Os semáforos não são sincronizados?
- Podia ser pior se não tivesse conserto.
Os circulares estão lotados?
- Podia ser pior se não circulassem.
Os personagens fumam demais nos filmes?
- Podia ser pior se a tevê soltasse fumaça.
Quando perguntam a Torresmundo por que esse nome, ele diz que é devido à mãe, que adorava torresmo, e ao pai, que se chamava Raimundo.
- Mas podia ser pior. Ela podia adorar pão-de-ló e ele se chamar Orgonte, eu ia me chamar Pão-de-onte.
ÚLTIMA LIÇÃO
Minha mãe morreu sem sofrer nem temer, a julgar pelos seus olhos no dia em que não conseguiu mais falar – mas olhava tranqüila, com um leve sorriso.
Mais alguns dias e, quando eu chamava, olhava através de mim, olhando longe, como a dizer adeus, meu filho, eu já estou indo para outra estrada...
Jeito havia de prolongar sua vida, mas à custa de muito sofrimento. Teria de passar por hemodiálise, pois seus rins estavam pifando; teria de se alimentar por incisão na traquéia, e acabaria sendo entubada.
Decidimos não fazer nada disso, como permite o novo código de ética médica (e mesmo que não permitisse), obedecendo a seu último pedido quando ainda lúcida:
- Não quero ir para hospital, quero morrer no meu quarto, na minha cama.
Os cachorros, tão sensitivos, ficaram tristes pelos cantos. E eu, que evito ir a velórios, porque choro muito, perdendo o controle e até as lentes de contato, tive a graça de ficar sereno durante todo o tempo, talvez porque há tempo esperasse a partida dela, pois vinha enfraquecendo devagarinho.
Mas eu temia a rezação. Temia que alguém puxasse um terço e desfiasse a mastigação automática das rezas, prática tão comum quanto inconsciente.
Enquanto transcorria o velório, vários de seus amigos e amigas lembraram de como receberam preces dela, no tempo em que foi rezadeira, benzadeira e conselheira, atendendo gente às vezes o dia inteiro. E lembrei dela, falando sobre o poder da prece:
- Reza é uma coisa, prece é outra. Reza só faz bem pra quem reza, mas prece faz bem para os outros, e cura mais que qualquer remédio, cura até doença mental, que é a pior doença.
E eu, que sempre digo ser o preconceito a maior doença mental do mundo, vi que estava sendo preconceituoso contra a reza, afinal um costume que mal nenhum faz. Então, antes do caixão ser fechado, pedi a Dalva para puxar uma prece, e ela (sem saber de minhas especulações) puxou duas rezas, um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, e em seguida fez uma prece muito simples:
- Que ela vá iluminada, e que as boas lembranças dela iluminem a nós todos.
Me senti aliviado e feliz pois, sem combinarmos nada, foram atendidos os que crêem em rezas e os que crêem em preces. E o caixão dela ficou tão leve! E, seguindo idéia sua, sua lápide terá uma quadrinha: “Rezei muito para muitos / rezei tanto – e enfim / portanto não peço muito: / rezem um pouco por mim...”
Tiao, mãe; e, embora eu ainda não creia em outra vida, se algum dia te rever, quero agradecer pela última lição, com um beijo em tua testa, como você gostava, me olhando e dizendo:
- Ah, meu filho, carinho faz tão bem...
Também não creio em anjos, mãe, mas, se existirem, desejo que sejam muito, muito carinhosos com você.
Ontem morreu minha mãe, Maria, hoje foi enterrada, com a presença de amigas e amigos dela, amigas e amigos meus. Ela morreu tranquilamente, sem dor nem medo. No velório, vendo suas mãos cruzadas, coalhadas de sardas de velhice, me veio este sonetinho:
O chamado guardamento
na verdade nada guarda
é apenas cumprimento
a quem já vai noutra estrada
A cera esculpe lenta-
mente as horas veladas
e o cravo defuntamenta
seu perfume adocicado
No livro de condolências
os personagens se alistam
e o enredo não tem ação
pois até a protagonista
nada fala, nada pensa
somente cruzou as mãos