As únicas pessoas normais são aquelas que você não conhece bem.

Alfred Adler
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 Minha fazenda... de Domingos Pellegrini

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Por Domingos Pellegrini (em 26/07/2010 @ 09:27:49, em jornal, lido 4 vezes)

 

RATO NO CARRO!
 
         Quando Pingo começa a ganir na chácara, é porque acuou gato ou gambá encarapitado no alto de árvore ou enfiado em pilha de lenha. Então deixamos que ganisse mas, quando fomos ver, ele estava arranhando o chassi do carro, decerto farejou rato ali.
         Eu estava plantando umas alamandas, então Dalva quem foi lidar com o problema, ou Pingo arranharia o chassi até tirar a tinta, ele é incansável na caça. Acabaram se juntando Dalva, sua secretária Meire, e nossa cuidadora doméstica, Dona Margarida, todas fuçando no motor, até que, de repente, ouvi aquela gritaria.
         - Que nooooojo!
         - Viu o tamanho?!
         - Saaai daí, bicho danado!
         Mas o rato não só não obedeceu, como voltou a se esconder no motor. Elas estavam histéricas, fui acalmar:
         - Pra lidar com rato, é preciso ter a calma e a firmeza masculinas, é preciso um homem e pronto.
         Expliquei que não podia ser eu, não porque tenha medo:
         - Tenho nojo científico de ratos.
         Recebi olhares bastante significativos, apesar dos quais dei minha sugestão:
         - Não vão conseguir tirar esse rato daí. E, se fecharem o chassi, o Pingo vai continuar arranhando. Melhor é prender o cachorro e botar aí uma ratoeira.
         Elas insistiram mais um tempo, depois acataram minha idéia. Soltaram uma bomba junina, jeito fácil de fazer a cachorrada assustada correr para dentro de casa. Fechadas as portas com os cachorros lá dentro, armei a ratoeira com irresistível toucinho defumado, tomando o cuidado de usar luvas para não pegar diretamente nem na ratoeira nem na isca: rato tem mais faro que cachorro e não aceita isca com cheiro de gente.
         Quando fomos deitar, lá pela meia-noite, ouvimos o barulho da ratoeira. Fui lá, e estava desarmada e vazia, sem toucinho nem rato. Como esqueci aberta a porta da garagem, Pingo saiu, mas cheirou o chassi e se desinteressou, sinal de que o rato fugira.  
         De manhã, Dalva acariciou Pingo e agradeceu:
         - Você arranhou o carro, mas avisou que tinha rato lá. Senão, ele podia ter feito ninho e... só de pensar no carro cheio de ratinhos, me arrepio de nojo! Você é um baita cachorro, Pingo!
         Ele deve entender Português, porque ficou olhando para ela como que dizendo não tem de que, eu estava só caçando, agora me dê um pedaço de queijo e tudo bem. Ela deu queijo a ele, dei um beijo nela, e o rato me deu esta crônica: final feliz! 
      
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Por Domingos Pellegrini (em 22/07/2010 @ 10:23:52, em jornal, lido 11 vezes)

 

TREM
 
O que sei não me traz nenhum conforto
o que não sei em nada desconcerta
Não sei onde ir pela porta aberta
e a nada me levam fechadas portas
 
Há porém uma zona de conforto
em saber que na vida nada é certo:
pode o talvez transformar-se em decerto
ou reviver o que se achava morto
 
Pode a sina tornar-se surpreendente
apesar de seus trilhos previsíveis  
e o trem chegar às estações da linha
 
porém em festa, em vez das  deprimentes
paradas tão apenas comestíveis
e assim vale viver esta vidinha
 
 
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Por Domingos Pellegrini (em 20/07/2010 @ 16:27:30, em jornal, lido 7 vezes)

 

 
CONVERSANDO
COM A GARÇA
 
         Eu estava no pesqueiro deserto, sabendo que no frio pesca-se pouco, mas a esperança é uma boba que se alimenta de ilusão.  
         Aí me senti observado, o sexto sentido alertando. Me virei e uma garça, branca como chapéu de freira, me olhava imóvel.
         Oi, garça, falei, e ela balançou a cabeça. Está me entendendo, pensei, e perguntei o que ela fazia ali.
         Ficou me olhando, como se não tivesse entendido. Depois, com aquele seu passo delicado e cauteloso, foi para a beirada da lagoa e ficou olhando a água muito atentamente.  
         De repente, o pescoço curvou como e a cabeça baixou tão depressa que, quando vi, a cabeça já voltava para a posição altaneira, com um peixinho na ponta da longa tesoura do bico.
         Daí ergueu o bico, para contar a ajuda do planeta, abrindo e fechando o bico para o peixe, graças à força da gravidade, ir descendo bico abaixo e, depois, goela abaixo. Dava para ver o bichinho se debatendo a descer pelo longo pescoço da garça.
         Depois ela ficou me olhando, as vezes sobre um pé só, e me dei conta de que, na prática, tinha respondido minha pergunta: estava ali pescando, como eu, só que com mais sucesso.
         Então minha bóia afundou, puxei a vara e era uma tilapinha, muito miudinha para mim, mas para a garça devia ser um grande petisco, pois esticou o pescoço, adiantando um passo, enquanto eu tirava o peixinho do anzol.
         Você quer isto? – perguntei estendendo a mão com o peixinho entre os dedos.
         Ela esticou o pescoço. Quer? – perguntei de novo, e ela esticou mais o pescoço. Abri os dedos, o peixinho se debatendo na palma da mão. Antes que ele caísse, a garça deu mais um passo ligeiro e pinçou o bichinho, senti o pique de seu bico na mão.
         Ela comeu me olhando, não sei se agradecida ou vigilante. Depois foi para a beira da lagoa novamente, andando tão lenta que cada pé ficava parado no ar antes de pousar para um novo passo. Perguntei se estava querendo competir comigo na pescaria, ela respondeu pinçando mais um peixinho, e comeu me olhando. Daí olhou o horizonte, e voou.
         Depois alguém do pesqueiro contou que ela vive ali, e conhece os pescadores que lhe dão peixes, fica em volta deles, ignorando os outros.
         - Mas nunca comeu peixe da mão de alguém, só do senhor.
         Senti orgulho. Chegando em casa, Dalva perguntou o que pesquei, falei que só fiz amizade com uma garça, tão bonita e delicada que não vejo a hora de voltar a pescar, agora não mais esperando pegar um peixe graúdo, mas muitos peixes miúdos. Acho que a garça quis me dizer que os melhores prazeres são miudinhos.
  
 
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Por Domingos Pellegrini (em 13/07/2010 @ 11:46:29, em jornal, lido 13 vezes)

 

PODIA SER PIOR
 
         Meu amigo Torresmundo tem um ditame que repete diante de qualquer problema: podia ser pior.    O filho de um amigo começou a fumar? Torresmundo solta:
         - Podia ser pior, podia ser charuto. 
         As pombas continuam sujando as praças?
         - Podia ser pior se elefante voasse.
         A moçada exagera nas comemorações da Copa?
         - Podia ser pior se fosse de goleada.
         Tem fila nos postos de saúde?
         - Podia ser pior se houvesse bolsa-doença.
         Querem acabar com a feira na rua do cemitério?
         - Podia ser pior com a feira dentro do cemitério.
         O prefeito falou que na política o caminhão anda e as abóboras vão se acomodando, não falou?
         - Podia ser pior se fossem ovos.
         No festival de teatro o povo fica na fila lá fora, depois espera no saguão lá dentro, idosos e gestantes em pé. 
         - Podia ser pior se as gestantes fossem idosas.
         As ruas estão cheias de camelôs vendendo CDs e DVDs piratas?
         - Podia ser pior se fizessem cartel dos preços como os postos de combustíveis.
         O brasileiro trabalha 150 dias por ano só para pagar os impostos embutidos?
         - Podia ser pior se também embutissem juros.
         Vuvusela irrita?
         - Podia ser pior se a Copa fosse aqui.
         Os semáforos não são sincronizados?
         - Podia ser pior se não tivesse conserto.
         Os circulares estão lotados?
         - Podia ser pior se não circulassem.
         Os personagens fumam demais nos filmes?
         - Podia ser pior se a tevê soltasse fumaça.
         Quando perguntam a Torresmundo por que esse nome, ele diz que é devido à mãe, que adorava torresmo, e ao pai, que se chamava Raimundo.
         - Mas podia ser pior. Ela podia adorar pão-de-ló e ele se chamar Orgonte, eu ia me chamar Pão-de-onte.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
        
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
          
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Por Domingos Pellegrini (em 08/07/2010 @ 08:16:05, em jornal, lido 37 vezes)

 

 
 
 
 
 
 
 
         ÚLTIMA LIÇÃO
 
 
         Minha mãe morreu sem sofrer nem temer, a julgar pelos seus olhos no dia em que não conseguiu mais falar – mas olhava tranqüila, com um leve sorriso.
         Mais alguns dias e, quando eu chamava, olhava através de mim, olhando longe, como a dizer adeus, meu filho, eu já estou indo para outra estrada...
         Jeito havia de prolongar sua vida, mas à custa de muito sofrimento. Teria de passar por hemodiálise, pois seus rins estavam pifando; teria de se alimentar por incisão na traquéia, e acabaria sendo entubada.  
         Decidimos não fazer nada disso, como permite o novo código de ética médica (e mesmo que não permitisse), obedecendo a seu último pedido quando ainda lúcida:
         - Não quero ir para hospital, quero morrer no meu quarto, na minha cama.
         Os cachorros, tão sensitivos, ficaram tristes pelos cantos. E eu, que evito ir a velórios, porque choro muito, perdendo o controle e até as lentes de contato, tive a graça de ficar sereno durante todo o tempo, talvez porque há tempo esperasse a partida dela, pois vinha enfraquecendo devagarinho.
         Mas eu temia a rezação. Temia que alguém puxasse um terço e desfiasse a mastigação automática das rezas, prática tão comum quanto inconsciente.
Enquanto transcorria o velório, vários de seus amigos e amigas lembraram de como receberam preces dela, no tempo em que foi rezadeira, benzadeira e conselheira, atendendo gente às vezes o dia inteiro. E lembrei dela, falando sobre o poder da prece:
- Reza é uma coisa, prece é outra. Reza só faz bem pra quem reza, mas prece faz bem para os outros, e cura mais que qualquer remédio, cura até doença mental, que é a pior doença.
E eu, que sempre digo ser o preconceito a maior doença mental do mundo, vi que estava sendo preconceituoso contra a reza, afinal um costume que mal nenhum faz. Então, antes do caixão ser fechado, pedi a Dalva para puxar uma prece, e ela (sem saber de minhas especulações) puxou duas rezas, um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, e em seguida fez uma prece muito simples:
- Que ela vá iluminada, e que as boas lembranças dela iluminem a nós todos.
Me senti aliviado e feliz pois, sem combinarmos nada, foram atendidos os que crêem em rezas e os que crêem em preces. E o caixão dela ficou tão leve! E, seguindo idéia sua, sua lápide terá uma quadrinha: “Rezei muito para muitos / rezei tanto – e enfim / portanto não peço muito: / rezem um pouco por mim...”
Tiao, mãe; e, embora eu ainda não creia em outra vida, se algum dia te rever, quero agradecer pela última lição, com um beijo em tua testa, como você gostava, me olhando e dizendo:
- Ah, meu filho, carinho faz tão bem...
Também não creio em anjos, mãe, mas, se existirem, desejo que sejam muito, muito carinhosos com você.
 
 
 
 
 
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Por Domingos Pellegrini (em 17/06/2010 @ 16:27:13, em artigos, lido 157 vezes)

Ontem morreu minha mãe, Maria, hoje foi enterrada, com a presença de amigas e amigos dela, amigas e amigos meus. Ela morreu tranquilamente, sem dor nem medo. No velório, vendo suas mãos cruzadas, coalhadas de sardas de velhice, me veio este sonetinho:

 

O chamado guardamento

na verdade nada guarda

é apenas cumprimento

a quem já vai noutra estrada

 

A cera esculpe lenta-

mente as horas veladas

e o cravo defuntamenta

seu perfume adocicado

 

No livro de condolências

os personagens se alistam

e o enredo não tem ação

 

pois até a protagonista

nada fala, nada pensa

somente cruzou as mãos

 

 

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Por Domingos Pellegrini (em 15/06/2010 @ 08:44:15, em Do Jornal de Londrina e Tribuna do Norte:, lido 28 vezes)

 

 
 
      MANGOCULTURA
 
      
 
         Cresci amando mangueiras, depois aprendi a admirar e agora, todo ano, observo bem essas companheiras de chácara, primeiras a florir no inverno para frutificar quase no verão.
 Aprendi a amar mangueiras nos quintais das avós, subindo nos galhos com a agilidade macaca de menino, para lá de cima olhar o bairro, os horizontes, as nuvens, trepado no galho mais alto, a balançar com o vento. Ali fui marujo em tempestades e piloto em batalhas, para sempre voltar a ser guri com a boca e as mãos lambuzadas de manga.
Depois de dias chuvosos, enganando a vigilância das avós e da mãe, era perigoso – e por isso mais atraente – trepar em mangueiras, com os galhos limosos e escorregadios. E era difícil mentir depois que não tinha trepado na mangueira, com as pernas e os braços esverdeados de limo...
Todo ano marco o começo do inverno pela florada das mangueiras. As nativas florem antes, as importadas depois. Mas todas florem como se fosse a última coisa que farão na vida, cobrindo-se de flores, até parecerem imensos couves-flores. Talvez porque saibam que os ventos levarão parte das flores, as chuvas melarão outras, e uma raivosa tempestade poderá derrubar toda a florada, como no ano passado, quando quase não tivemos mangas.
Quando se formam as manguinhas, pequenas como bolinhas verdes na ponta dos galhos, olho apreensivo como quem olha filhos indo para a escola: voltarão? Virarão frutos maduros?
O melhoramento genético acabou com as mangas rosa, aquelas miúdas e redondas que deixavam os dentes cheios de fiapos. E não é que agora tenho saudade delas justamente por isso? Mas temos de agradecer pelas mangas macias, cheirosas e polpudas que a pesquisa agronômica nos legou. Melhoradas assim, as mangas conseguiram se colocar nas saladas, em perfeito casamento com as verduras, principalmente a rúcula. Manga com rúcula, mais pão crocante e queijo, pra mim já são refeição.
E geléia de manga, sorvete de manga, suco de manga então? Melhor, só quando o guri pegava manga espada, mordia o biquinho e ia apertando e chupando, feito um seio amarelo, cheiroso como só e gostoso como que.
Por isso, sempre que vejo dia disto, dia daquilo, penso: por que ainda não criaram o Dia da Manga? Talvez porque, com a bi-colheita anual, temos mangas todo dia no mercado. Deviam criar, isto sim, uma medalha para os agrônomos e os mangocultores que nos propiciam manga todo dia.
Agora, com licença, vou descascar uma. E comer cortada em cubinhos, com queijo branco, torradas e vinho branco. Com vinho tinto, a manga vai bem acompanhada de bom presunto ou defumado de peru. Com champanhe, manga gelada e chantilly, moderadamente, senão engorda. Mas se manga não engordasse, não seria criação divina. Limão puro não engorda nada, mas quem chupa limão puro?
Deus sabia o que fazia quando fez a manga, e caprichou. Com licença, com licença, aquela ali está me esperando.
 
 
 
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Por Domingos Pellegrini (em 02/06/2010 @ 07:58:52, em Do Jornal de Londrina e Tribuna do Norte:, lido 52 vezes)

 

 

          LÓGICA E GRAÇA

 
 
 
         Se pescaria tivesse lógica, não tinha graça. Inventei esse ditado, e cada vez mais me convenço disso.
         Fui a um pesqueiro, levando acerolas, que disseram ser ótima isca para pacu. Peguei dez pacus.
         Dei pacus para a primeira sogra, para a segunda sogra, para a vizinha onde catei acerolas.         Tempo depois, fui confiante a outro pesqueiro, com acerolas, e... nem beliscão!
         Um pescador me falou que é assim mesmo, peixe tem dia, depende do vento, do clima, do sol e das nuvens, da lua, vá saber. Outro pescador disse que pode ser devido à origem:
         - A acerola funcionou noutro pesqueiro, com peixes criados com frutas. Aqui, criados com ração, só gostam de massa, salsicha, minhoca – e, para provar, ele pescou mais um pacu com minhoca. 
         Troquei de isca mas os pacus continuaram sem beliscar.
         Depois voltei ao primeiro pesqueiro, novamente com acerolas e... nada. Lá pelas tantas, botei massa no anzol e pesquei três pacus.
         Depois voltei ao segundo pesqueiro, o pesqueiro carnívoro, com salsicha, minhoca e bacon, e nem beliscaram, enquanto outro pescador pegou vários pacus com tomatinhos e acerolas. 
         Conversei com ele, que me falou olha, é seguinte:
-         Se pescaria tivesse lógica, não tinha graça.
Pensei em dizer que a frase é de minha autoria, mas deixei pra lá. Apenas me prometi pescar com qualquer isca, deixando a cargo dos peixes morder ou não.
Na próxima pescaria, porém, por via das dúvidas e já por gosto de pesquisa, levei acerola, salsicha, bacon, quiabo, tomatinho, laranjinha, queijo, bala de banana e pão de queijo. 
Peguei quatro pacus mas, como usei duas varas com três anzóis cada uma, variando as iscas, e como também tomei três latinhas por cada vara, não consegui saber que iscas funcionaram, até porque dois dos pacus vieram quase ao mesmo tempo, um em cada vara, e foi uma correria de inspirar Charlie Chaplin.
Depois um menino chegou-se curioso, olhou as tantas iscas e perguntou:
-         O senhor come tudo isso?
Respondi que eu não, apenas esperava que os peixes comessem, e ele fez cara de nojo olhando os quiabos:
-         Creco, tem de ser um peixe muito besta pra comer isso.
Ofereci bala de banana, ele pegou uma, depois pediu outra, mais outra, falei que podia pegar todas, e ele, responsável:
-         Todas, não! E se eles começam a gostar das balas?
No mesmo instante, uma vara puxou forte e, quando tirei o pacu, estava fisgado com bala de banana ainda na boca. 
- Não falei? – o menino sorriu, depois ficou sério: - Mas eu só deixei mais duas balas aí...
Falei tudo bem, viriam mais dois pacus e eu daria um a ele. Mas as duas balas passaram o resto da tarde tomando banho e só mais dois pacu fisgaram... um numa acerola, outro numa minhoca.
         Pescaria é assim, falei, se tivesse lógica.... não tinha graça, o menino emendou, dizendo que o pai dele sempre fala isso.
 
 
 
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Por Domingos Pellegrini (em 26/05/2010 @ 07:15:25, em jornal, lido 46 vezes)

 

Não se engane, filho, com
tantos ladrões e prisões:
são apenas exceções
do povo ordeiro e bom
 
Se a maldade é tão vista
nos jornais, não desista
da bondade jamais:
o mal é só minoria
 
Somos maioria quieta
confiante a trabalhar
nos prêmios do dia a dia
 
e eles, não fosse a gente
a viver honestamente
nem tinham de quem roubar
 
....
 
Navego em Deus
chego ao Tao
nada mal pra quem
era apenas ego
 
Sigo adiante
nada consigo ver
tanta é a poeira
da física quântica
 
Volto a minha mãe
(Com Deus me deito
com Deus me levanto)
e durmo satisfeito
pra renascer amanhã
 
 
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Por Domingos Pellegrini (em 24/05/2010 @ 11:47:12, em jornal, lido 53 vezes)

 

 
 
 
 
        O FIM DO MUNDO
 
 
        
         Pois é, tantas vezes anunciaram que o mundo ia se acabar e o que acabou mesmo foram as brincadeiras dançantes, que saudade. 
         Agora, corre na internet uma notícia-alarme de que uma imensa onda, de cem metros de altura, equivalente, claro, a um prédio de tantos andares, varrerá o Oceano Atlàntico, arrasando as cidades costeiras da América.
         Por via das dúvidas, recolhi minhas cuecas do varal. Não quero acabar no meio de uma inundação sem cuecas.
         Outro email vergasta que os fanáticos religiosos, que vivem pregando o fim do mundo com catástrofes, deviam se matar para irem logo ver o Deus catastrófico em que acreditam, em vez de ficarem enchendo a paciência da gente com tantos alarmes falsos.
         Recentemente, achei engraçado alguém dizer de um preguiçoso:
         - Aquele quer que o mundo acabe em barranco para morrer encostado.
         Mas eu tenho algumas idéias melhores para o fim do mundo.
          O super-adensamento das ondas de telecomunicações na atmosfera, principalmente de celulares, causará uma tal tensão na hipófise que perderemos o controle sobre os hormônios. Idosos passarão a brincar de casinha. Crianças só quererão brincar de sexo. Regredindo aos primatas, adultos se matarão por causa de qualquer palha. E perderemos o controle das comunicações, das administrações públicas e privadas, e enfim do convívio social, desandando para a barbárie e o caos. Só se salvarão as pessoas que, como eu, não usam celular, e começarão um mundo novo só com pombos-correio.
         Outro quase fim do mundo virá quando, depois de retirado todo o petróleo do pré-sal, o fundo do oceano desabará, criando um tal maremoto que chegará a Brasília. Como, porém, será numa sexta-feira e todos os deputados estarão “visitando as bases”, muita gente lamentará não ter sido numa terça-feira.
         Mais um fim de mundo acontecerá quando Lula, secretário geral da ONU, empregar lá tantos petistas que criarão o Bolsa Família Mundial, que na Europa, por exemplo, será de mil euros, desestabilizando a economia mundial e provocando recessão e miséria, até porque bilhões de pessoas desaprenderão de trabalhar.
         Fim do mundo interessante também será quando, cansado dessa espécie que lhe causa tantas coceiras e arranhões na crosta terreste, o planeta se irritar e despejar quatrilhões de toneladas de lava pelos vulcões, junto com terremotos e maremotos. Só sobreviverão um casal de cientistas africanos acampados na Antártica e um casal de esquimós do Ártico, que depois de uma década de penosas viagens se encontrarão onde foi o México, iniciando uma nova Humanidade, que assim será de gente baixinha, gorda e negra.
         Outro fim do mundo virá não se sabe ainda como, tendo os mediuns recebido apenas o aviso de que acontecerá logo depois da propaganda das Casas Bahia deixar de ser gritada e irritante.
         Por via das dúvidas, vou andar sempre com fio dental. Não quero ficar isolado numa ilha sem fio dental. 
 
 
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