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TRÊS PEIXES
Elas pegaram três varas e começaram a pescar ansiosas, a todo minuto tirando os anzóis da água. Mas, com o sol castigando, acabaram com as varas pendidas já começando a bicar a água.
Então convidei para sentarem no meu banco, na sombra de árvore, e elas vieram agradecidas. Mostrei como colocar a isca cobrindo todo o anzol, e como puxar rápido e forte quando a bóia fosse puxada, não antes quando o peixe apenas beliscasse.
Elas voltaram a pescar com as varas empinadas de esperança.
A mãe foi a primeira a pegar seu peixe, as duas meninas pulando. ela tão alegre quanto aflita, sem saber como tirar o peixe da água. Recue, falei, recue e vá erguendo a vara, e ela foi recuando.
Mas não recue tanto, falei, que vá cair na outra lagoa, e ela riu feito menina. Tirei o peixe do anzol, botei no samburá, as meninas ficaram erguendo o samburá acima da água para ver o peixe.
Não façam amizade com ele, falei, senão depois vão ter dó de comer. Elas voltaram para as varas, olhos grudados nas bóias.
Com voz baixa, a mulher contou que o pai delas sempre prometia virem ao pesque-pague, mas antes acabou saindo de casa e agora atrasava a pensão, mas com a graça de Deus “e meu trabalho”, falou firme, não faltava nada para as meninas, só um pouco de diversão.
Contou também que, com o décimo-terceiro, primeiro pagou umas contas, o material escolar das meninas, o imposto do Fufu, o fusca que o marido deixou quando foi embora com o carro maior, e só então falou filhas, hoje vamos ao pesque-pague.
Então a menina maior fisgou um peixe, e as três pularam e gritaram, e tiraram o peixe da água numa alegria louca.
Quando voltaram a pescar, a mãe ficou consolando a caçula, dizendo que o importante é pescar, não pegar peixe, mas a menina continuou a olhar a bóia com tristeza.
A mãe contou também que agora está fazendo curso de informática, para ganhar mais, e, com a graça de Deus, tudo vai melhorar – e, quando falou, isso, a caçula fisgou seu peixe.
Se a alegria de uma criança pudesse ser medida por notas, a alegria da menina merecia nota doze. Ela tremia de satisfação, com as mãos juntas, enquanto a mãe fez questão de tirar o peixe ela mesma, “a gente tem de aprender”.
Depois foi pegar o cardápio no bar, contou o dinheiro da bolsa e pediu refris e sanduíches, comeram trocando olhares de ternura e confiança.
Pegando o samburá, a mãe perguntou como as meninas queriam os peixes, assados ou fritos, e depois de muita conversa resolveram que um seria assado, outro frito e outro cozido, mesmo que desse mais trabalho, “vamos comer peixe de todo jeito”, a mãe resolveu e as filhas olharam para ela orgulhosas.
Fui pegar uma cerveja no bar e, lá do carro, elas acenaram, a mãe buzinou e descobri porque o fusca chama Fufu.
Pensei como iam dividir um peixe pequeno a cada refeição, um assado, um frito, um cozido, mas isso não deve ser problema se comerem cada peixe com a alegria com que acenavam felizes. Felizes. Fe-li-zes.
PEQUENICES
Miniaturarte de Hélio Leites
A estas altura (ou baixura) da caminhada, não me interessam mais grandezas que antes me apaixonavam, como ideologia, política, poder, mudar o mundo.
Mas fico feliz quando consigo mudar alguma coisinha. Fiquei feliz ontem ao conseguir catar uma garrafa pet no bueiro, espetando com uma vara com prego na ponta.
Fico feliz de não pegar fila em banco.
Fico feliz de achar vaga fácil para estacionar, e ainda mais feliz se for na sombra.
Fico feliz de achar abacaxi sem marcas de pancadas, neste país de abacaxis batidos na colheita, batidos no transporte, batidos na descarga, pobres abacaxis. E fico ainda mais feliz se o abacaxi estiver maduro.
Fico feliz de parar num semáforo sem alguém fazendo malabarismo ou entregando papelzinho. Mas se o malabarista é bom, dou uma moeda, feliz por poder dar uma moeda em vez duma moedinha.
Fiquei feliz de encontrar um colega de Tiro de Guerra no ônibus-leito, feliz de lembrarmos de nossos queridos sargentos, os homens mais decentes que conheci naquela ditadura com hipócritas e crápulas e carreiristas de direita e de esquerda. Foi uma conversinha de poucos minutos, antes que se apagassem as luzes do ônibus, mas me deixou muito feliz. Melhor uma conversinha boa do que um longo discurso chato, né?
Fico feliz quando em cerimônias os discursos são curtos, e mais feliz se não há cerimônia.
Fico feliz que só vendo quando flore uma das orquídeas que plantei e esqueci.
Fico feliz quando levanto no meio da madrugada, urino e, antes de voltar a deitar, tomo um copo de água, sentindo a água descer pelo esôfago seco.
Fico feliz de lembrar que antes dormia sem acordar para urinar mas, também, não sentia tantos pequenos prazeres como hoje. As estações do ano passavam e eu só sentia duas, o verão e o inverno, e agora fico feliz de sentir os invernicos no outono, os veranicos na primavera, um desfile de dezenas de estações no ano.
Fico feliz de sentir a brisa na pele suada de trabalho ou molhada de banho.
Fico feliz de sentir o aroma do vinho antes de beber, apesar de nunca encontrar os tais aromas de frutas e especiarias de que falam os rótulos.
Fico feliz de melhorar uma palavrinha num texto, botar um legume colorido no prato.
Outro dia fiquei tão feliz vendo uma lagartixa, depois de longa e vagarosa caçada, conseguir abocanhar um mosquito.
A eternidade não é feita de momentos? Não é o momento o único pedacinho disponível da eternidade? Então: as pequenices são os tijolinhos da felicidade.
Agora, com licença, vou pegar aquele limãozinho ali, espremer naquela caneca de lata cheia de amassadinhos, e fazer uma limonada com gelo picadinho, para tomar em golinhos bem devagarinho, suspirando de prazer, como as reticências são suspiros das palavras...
A HERANÇA
Fui encomendar uma pizza aqui perto da chácara, e na Avenida Nova Londrina, diante da pizzaria, vi um senhor de seus setenta anos, magro, sem camisa, aparando a grama da ilha com um alfanje. Na sua imagem clássica, a Morte aparece de capa e capuz negros, com um alfanje nas mãos, a indicar que é ceifadora de vidas.
Mas o alfanje é uma espécie de foice criada para ceifar trigo, com cabo longo permitindo que a gente corte rente ao solo sem precisar se curvar.
E o homem manejava bem, rapando a grama com golpes precisos, mostrando traquejo. Como a espada árabe, a cimitarra, também é chamada de alfanje, e como muitos chamam o alfanje apenas de foice, não resisti perguntar:
- O senhor sabe o nome dessa ferramenta?
- Alfanje – ele falou passando a mão na testa suada e continuando a ceifar - É uma beleza pra cortar grama alta.
- E a prefeitura paga pro senhor capinar aí?
Ele riu:
- Pagam nada! Mas já fazem muito de não atrapalhar.
Lembrei então que o alfanje de cabo curto aparece no símbolo do comunismo, cruzado com martelo, e comunismo me lembrou comunidade:
- É a associação de moradores que paga o senhor?
Só então ele parou para me encarar.
- Moço, ninguém me paga nada, eu faço isto porque não sei ficar parado. Faz bem pro corpo e pra cabeça.
Um menino olhava o idoso a suar de pingar do nariz, e adivinhei:
- Seu neto? Também sabe usar o alfanje?
O homem riu.
- Esse aí é que nem essa moçada de hoje, só sabe usar celular e computador...
A dona da pizzaria veio para a rua e falou que o homem é seu pai, ficou olhando com orgulho. Reparei então que ele já ceifava além da parte da ilha diante da pizzaria.
- Então ele não ceifa só diante da pizzaria de vocês?
Ela riu:
- Ele vai ceifar a ilha toda! Ele diz que baixando a grama fica de alto astral!
O homem voltou a passar a mão na testa, depois nas calças, para o cabo do alfanje não ficar escorregadio de suor, e continuou a ceifar.
Fiquei mais um tempo olhando aquela imagem de vida, embora usando o alfanje da morte, e também imagem de dedicação comunitária, embora sozinho. E perguntei ao menino:
- Gosta do seu avô?
Ele balançou a cabeça várias vezes, sorrindo, e eu tive a certeza de que o avô está deixando para o neto uma herança inestimável. Meu nono José também falava que essa é a maior herança, que não pode ser comprada nem é vendida:
- É o exemplo.

OH, ÓCULOS
Usei óculos até os dezesseis anos, quando passei a usar lentes de contato. Mas, agora aos sessenta, se usar duas lentes, tenho de afastar o jornal para ler. Se não usar nenhuma, tenho de encostar o nariz na página para ler. Por isso, uso só uma, assim não preciso tirar para ler, ficando com um olho para longe, outro para perto. Sou um bifocal orgânico.
Em algumas fotos me vejo de óculos, adolescente, e só consigo lembrar que me davam um dilema: ou deslisavam pelo nariz, de modo que eu tinha de empurrar para cima a todo minuto, ou, se ajustava suas pernas, doíam atrás das orelhas. Era o caso de usar óculos leves, de armações finas, mas me pareciam coisa de velho. Quando John Lennon começou a usar óculos sem armação, já era tarde, eu já usava lentes.
Minha amiga Inês conta que os acidentes com seus óculos dariam uma novela, pois que dêem uma crônica.
- Já quebrei tantas pernas de óculos – conta ela – que, se juntasse todas, daria para formar uma centopéia ocular. E também já perdi a conta das vezes em que deitei de óculos e até dormi de óculos! Uma noite, sonhei que tinha perdido os óculos e procurava, procurava e não achava, então desesperada botei as mãos na cabeça, e acordei assim, com as mãos na cabeça, descobrindo que tinha dormido de óculos...
Na verdade, ela usa dois pares de óculos (pois são dois, o direito e o esquerdo, embora haja uma ótica chamada Casa do Óculos). Um dia, Inês começou a procurar os óculos escuros pela casa toda, até entrar no quarto, quanto tudo escureceu: ela estava com os óculos...
Noutra vez, entrou no carro e começou a procurar os óculos, pois tinha certeza de que tinha saído de casa com eles.
- Procurei no painel, no piso, em tudo, e nada. Aí liguei para minha filha, que tinha saído de casa em outro carro, eu queria confirmar que tinha saído de óculos. Ela falou que sim, e me mandou procurar nas costas, onde eu tinha colocado os óculos, pendurados pela correntinha, para dar um abraço nela...
Aliás, Inês conta que também já conseguiu perder a correntinha usada para não perder os óculos.
- Tirei a correntinha para arrumar um dos elos, fui atender o telefone e, depois, cadê? A correntinha só apareceu no dia seguinte, porque deixei sobre um jornal aberto, que depois fechei para procurar por ela. Ainda bem que alguém pegou o jornal para ver um classificado...
E, quando entra no chuveiro de óculos, Inês agradece:
- É sinal de que estou muito preocupada com alguma coisa, então procuro relaxar.
Por tudo isso, acredito que óculos não servem apenas para a vista, como diz o caboclo, mas também para a gente não perder de vista que somos falíveis, sempre andando entre distraídos e estressados.
E já viu como nenê no colo gosta de puxar óculos? Porque óculos são muito interessantes, conforme Inês:
- Tem dois olhos, duas pernas e nenhum corpo. Existe bicho mais esquisito?
PERGUNTAÇÃO
- Vô, por que a gente faz cocô?
O avô pergunta por que perguntar uma coisa tão boba.
- Porque você quem falou, vô, que não existe pergunta boba, e que a gente deve perguntar tudo que quiser.
O vô diz que é verdade, afinal fazer cocô é importante:
- Já pensou se o cocô ficasse dentro da gente? Você ia chegar na minha idade com cem metros de altura! Porque gente come três vezes por dia, né, e é por isso que faz cocô!
- E por que a gente come, vô?
- Sabia que ia perguntar isso. A gente come pra ter energia pra funcionar, que nem carro precisa de gasolina ou álcool.
- Mas a vó diz que você não devia beber tanto álcool, vô.
O avô diz não bebe pra ter energia, mas porque é gostoso.
- E eu gosto de fazer cocô, vô, é pecado?
- Que bobagem! Claro que não!
- É que a vó falou que quase tudo que é gostoso, é pecado.
- É que tua vó só vê sujeira no mundo...
- Então o que ela viu nocê, vô?
O avô fica pensando. O neto aponta uma nuvem:
- Por que nuvem não pára quieta, vô?
O avô pensa em falar de vapor e ventos etecétera, mas prefere dizer que é porque nuvem é igual guri:
- Nuvem tem vento na bunda, guri tem fogo no rabo.
- Eu não tenho rabo, vô.
- É modo de falar. Mas gente já teve rabo, quando ainda vivia em árvores como macacos.
- Você e a vó moraram em árvore, vô?!
- Nós não, os nossos antepassados, o bisavô do trisavô do tetravô do nosso quaquavô, muito tempo atrás!
O neto fica olhando o avô, até perguntar:
- Como você sabe que eles tinham rabo? Tem fotografia?
O avô fica pensando, o neto diz que não precisa responder:
- Quando você suspira, vô, é porque não sabe. Mas que pena que a gente não tem mais rabo.
- É? Por que?!
- Porque você reclama que os netos nenês puxam sua barba ou seus óculos, vô, e então eles podiam puxar só seu rabo, né?
O avô diz que não sabe qual é pior, se a idade da puxação ou a da perguntação.
- Que que é perguntação, vô?
O avô suspira, diz que perguntação é pergunta demais.
- Eu pergunto demais, vô?
- Mais ou menos.
- Mais mais ou mais menos?
O avô fica olhando as nuvens.
- Onde é a bunda da nuvem, vô?
- Depende; se a nuvem está de ponta-cabeça, a bunda é em cima. Senão, é embaixo.
O neto faz cara de quem agora realmente entendeu.
- E por que nuvem escurece, vô?
- Porque as nuvenzinhas fazem muitas perguntas pra elas, então vão ficando escuras, entende?
- Entendo, vô: gente suspira, nuvem escurece. E gente urina, nuvem chove, né, vô? Mas por que mulher só urina sentada?
O avô suspira.
PAIXÃO
Eu tinha dez anos e fui com o pai visitar sua terra natal, Capivari. Dali ele tinha saído moço, mas já zagueiro famoso, como contava Tio Orlando:
- Naquele tempo se jogava em campo sem grama e, às vezes, a confusão era tanta na entrada da área, com tanto chute pra todo lado, que levantava um poeirão, aí seu pai saía daquele poeirão com a bola dominada e lançava lá para o volante, armando o contra-ataque, a torcida aplaudia como se fosse gol.
Capivari era uma cidadezinha tão bem cuidada, com uma vida tão certinha, que um buraco na rua até seria bem vindo, para dar assunto às conversas. Indo de casa em casa com o pai, tomando tubaína com bolo até enjoar, eu ouvia as mesmas conversas, primeiro falando dos velhos: fulano morreu, beltrano morreu e ciclano, coitado, ainda não morreu mas tá morrendo. Depois falando dos novos: fulano casou e tem um monte de filhos, beltrano casou e também tem um monte de filhos, e o ciclano casou mas só teve três filhos, coitado...
Eu me enfastiava, bocejava, folheava velhas revistas, passava em revista porta-retratos e fotos de família emolduradas nas paredes. Até que, numa casa, mostraram uma coleção de moedas e, imediatamente, me apaixonei. Ali mesmo me deram algumas moedas repetidas e, nas visitas seguintes, eu perguntaria se não tinham moedas velhas para eu ver, confiando que me dariam algumas.
Quando voltamos de Capivari, eu tinha uma caixa de sapatos tão cheia de moedas que rompeu no caminho. Catei uma por uma no piso do carro, e durante vários anos continuaria a conseguir moedas, procurar moedas, comprar moedas.
Descobri que, numa Londrina colonizada por tantas nacionalidades, não era difícil achar famílias com velhas moedas esquecidas em gavetas. Consegui moedas japonesas furadas, moedas alemãs gastas de tão usadas, grandes moedas coloniais, catacões portugueses, moedas de cobre, de prata, de níquel, uma multidão de caras e coroas numa caixa de madeira que eu guardava com zelo e carinho.
Uma vez por semana, pegava a caixa, espalhava as moedas pelo piso do quarto, formando fileiras conforme os tamanhos ou a idade ou nacionalidade, ou fazendo desenhos geométricos, árvores de moedas, nuvens de moedas. Depois recolhia todas, guardava na caixa, até a próxima moedação, como mãe dizia.
Levei amigos para conhecer minhas moedas, e troquei moedas com outros moedeiros (alguém me explicou que eu não era ainda um colecionador organizado, com as moedas classificadas e arrumadas em tabuleiros). Gastei mesadas para comprar moedas, já guardadas em três caixas.
Um dia, comecei a trabalhar ganhando salário, podendo então comprar muitas moedas e me tornar colecionador de verdade. Mas chegava ao fim de semana cansado do trabalho, não tinha ânimo de procurar, visitar, fuçar, negociar. Não cheguei a gastar mais um tostão com moedas, e fui revendo minha moedagem só de vez em quando.
Um dia, dei algumas de presente a um priminho, feliz de ver sua felicidade com tão pouco. Dei de dar moedas a crianças e jovens apaixonáveis por moedas, enquanto eu passava a me apaixonar por ideologias, artes e pessoas.
E todas as paixões passaram, menos as paixões por artes. Quando um dia me dei conta de que nem sabia mais onde andava minha moedagem, me dei conta também de que superar paixões é a maior arte.
RESOLUÇÕES
Respiro fundo, olhando o amanhecer, e vou anotando minhas resoluções de ano novo.
Primeiro, vou buscar aquela jaqueta que esqueci na casa do Poca ano retrasado. Incrível como é a cabeça da gente, tanta coisa por resolver e começo lembrando da jaqueta - que até já fui buscar duas vezes, cheguei a pegar a danada, mas, conversando e tomando umas com o Poca, fui embora deixando de novo a jaqueta lá, deve estar mofando.
Mas não vai mofar minha vontade de mudar a alimentação. Não vou mais comer doces. A não ser, claro, em festas, pois não tem sentido ir a um casamento ou aniversário e recusar um pedaço de bolo ou uma trufa. Ou os dois. E um sorvetinho de vez em quando, depois do almoço da família no sábado. E também não vou poder recusar o bolo de cenoura com goiabada da sogra no domingo, seria desfeita a Dona Lúcia. Ela fica tão feliz que me sinto na obrigação de comer três fatias.
Aliás, li que chá de canela tira a vontade de comer doce, então resolvo tomar chá de canela todo dia. E vamos trocar o arroz branco por arroz integral. Também vamos continuar a cozinhar arroz e feijão sem óleo. E a carne de porco vamos fritar na própria gordura. Há tempo tiramos da dieta carne vermelha, mas Dalva diz que a de porco é parte de nossa identidade rural:
- Porco não é só carne branca, é carne abençoada! Cresci comendo porco e vendo a banha conservar peixe e fritar frango, e assim meus avós viveram mais de oitenta anos!
Resolvo, porém, dispensar o torresmo. A não ser, claro, que, por acaso, esteja num bar que só tenha salgados gordurosos, e gordura por gordura, será melhor ficar com o torresmo para acompanhar a cerveja gelada. Só não resolvo cortar a cerveja porque ninguém é de ferro e, com esse aquecimento global...
Por falar nisso, ecologicamente resolvo também não comprar mais cerveja em lata. Vou comprar uma dúzia de garrafas retornáveis, para o caso de retornar a vontade de tomar umas em casa, assim evitando o torresmo dos bares.
Também resolvo atender gentilmente as ligações de telemarketing:
- Bom dia, querida. Antes de você continuar com suas perguntinhas, deixe-me lhe dizer que me cadastrei na lista do Procon para não receber mais ligações de telemarketing. Então, por favor, diga-me seu nome completo e também o nome da empresa para eu registrar a queixa para a devida multa, tá? Alô, cadê você?
Resolvo, ainda, mudar de canal diante de notícias de desabamento de casas construídas em encostas, enchentes e engarrafamentos em São Paulo e Bacalhau do Batata no carnaval.
Também resolvo que, diante do pastor pregando dia e noite num dos canais de tevê, não vou mais me perguntar admirado: ele não dorme?
Resolução das resoluções, resolvo que é injusto me irritar com notícias sobre a lentidão de Justiça.
Quanto à corrupção, resolvo que continuarei honesto. O resto é o resto.
Além disso, Ano Novo, resolvo que só comerei ovos em forma de omelete, com queijo ralado e muita salsinha e cebolinha. Se morrer disso, morrerei feliz.
NOTÍCIAS DA CHÁCARA
FLAMBOIÃ que tombou na tempestade nos deixou muito tristes, mas depois, olhando bem, vimos vantagens na desgraça. Sua copa alcançava o telhado, por isso era preciso limpar todo mês a calha, entupida com suas folhas. E nosso plano de cortar os galhos mas deixar o tronco caído no jardim, como morada para orquídeas e trepadeiras, está funcionando muito bem. Morto, continua a serviço da vida.
Sua queda, na tempestade, foi tão brutal, que sementes voaram e brotaram numa grande área em redor. Já arrancamos centenas de mudinhas. Mas vamos deixar umas duas ou três, para plantar em alguma praça ou beira de estrada. Nosso velho amigo vai reviver, e florir, e sementear novamente, aleluia.
PICAPAU aparece subindo num galho do flamboiã do fundo, que continua firme, mas sempre com alguns galhos pequenos secando e apodrecendo, faz parte da vida dos flamboiãs descartar galhos todo ano. Para o picapau, o galho podre é um banquete. Com seu penacho branco, o bichinho ficou quase hora bicando, arrancando lascas do galho e comendo as larvas. Ficamos olhando da cama, através do janelão, e os outros passarinhos silenciaram a cantoria enquanto ele bateu o seu toc-toc. Quando se foi, voltaram a cantar. Tem dia que é tanta cantoria que parecem dizer vamos, vamos, levantem, olhem o sol, o céu azul, levantem desse ninho esquisito de vocês! Então levantamos, gratos por ouvir e entender passarinhos.
FOSSA velha, bem ao lado de meu escritório, estava desbocando e fazendo trincar as paredes. Até o piso chegou a trincar, resolvemos fazer fossa nova. Quando o poceiro Ivanildo falou que fazia em dois dias uma fossa de dez metros de fundo, com tubulação e tijolamento da boca, não acreditei. Ele garantiu. Combinamos preço e passei a ver um homem determinado trabalhar com gosto e garra, o ajudante manejando o sarrilho para puxar os baldes de terra, ele lá embaixo cavoucando feito uma toupeira mecânica, de tão regular era seu ritmo. No segundo dia, choveu forte, perguntei se ia parar, falou que não, ia esperar parar a chuva. Daí continuou a cavar, jogando a terra da fossa nova na fossa velha, e, no final do segundo dia, me encarou orgulhoso para dizer que estava tudo pronto. Coberto de terra da cabeça aos pés, seu sorriso resplandecia.
Nunca paguei com tanto gosto um serviço. Depois, de banho tomado, perguntou onde podia comprar um livro meu. Dei-lhe uns livros, ele falou que eu podia ter certeza de que ele ia ler. Falei olha, Ivanildo, depois do que você fez aqui, tudo que você disser eu acredito. Apertamos as mãos, e ele se foi, me deixando a pensar: ah, como seria bom se houvesse mais Ivanildos nas empresas e nos governos, cumprindo tudo que prometem...
UM CACHORRO toma sol de costas na rampa da garagem, a barriga para cima, as patas meio encolhidas. Outro cachorro ressona na varanda do escritório. A cachorra também dormita debaixo da jaboticabeira. Mas alguém toca no portão lá na frente, os três levantam como se fossem um só, correm e, em segundos, estão lá latindo. Era o carteiro colocando cartas na caixa de correio, coisa diária, mas mesmo assim eles latem até que o homem se vai. Depois voltam a cochilar nos seus locais preferidos.
Que incrível a audição dos cachorros! E o faro então? Passa cachorro lá na rua, eles não deixam de latir, como a dizer estamos aqui, este é nosso território, afaste-se! Depois voltam a cochilar. Cachorro acho que fez um pacto com Deus no Gênesis:
- Cuidaremos dos humanos, mas queremos férias diárias...

BÊBAH-DO?
Chego ao bar querendo silêncio, um canto quieto onde rascunhar, aí chega ele cantando alto: “morena bonita do dente aberto / vai no pagode o barulho é certo!”
Pede uma cerveja, senta arrastando cadeira, e grita, pragueja, intima quem passa pela rua, levanta, vai ao balcão, pede amendoim, “mas torradinho de quebrar no dente!”, volta, arrasta cadeira, senta, canta tão alto quanto desafinado: lalarilala o barulho é certo!...
Não fica dois segundos sem falar besteira ou cantar cada vez mais desafinado. Daí me vê quieto, percebo pelo canto de olho.
Ele levanta – arrastando a cadeira – e vem, rodeia, não olho, fica passando na frente, inventando falas e modos, mas continuo com o olhar mais longe que existe, que é olhar para dentro.
Ele não se conforma, monologa balanceando, continuo ignorando. Ele volta para sua mesa, senta-arrastando, levanta-arrastando, retorna e me toca.
- Que é cocê tanto escreve aí?
- Uma crônica, senhor.
Pergunta o que é uma cronca, digo que é um caso acontecido.
- É memo? Mas esse caso aí é contando o que?
- É o caso de um bêbado que perturba alguém num bar.
Ele cala, engole, embatuca, pisca que pisca, balança, volta para sua mesa, senta-levanta arrastando a cadeira, vem de novo:
- Mas... – balançando – o bêbah-do do caso aí, acaso sou eu?
- Não por acaso.
Ele vai, senta-rastando, pensa, levanta-rastando, volta:
- Mas então sou eu!
- Pode ser, todo bêbado é igual.
Ele vai, nem senta, volta:
- Então eu sou igual todo bêbado?!
- Se o senhor estiver bêbado, né. Está bêbado?
Ele pensa piscando-coçando, vai perguntar a outros, ao do-bar, até ao cidadão que espera ônibus na calçada:
- To beh-bado?
Todos desconversam, mal sorriem, viram a cara, e ele roda até voltar ao balcão, pede mais uma “pra tirar a duda”. Depois vai para a rua, quase atropela o ônibus, fica aparvalhado, olha para o céu se benzendo, aí um menino grita:
- Vai pra casa, mané!
Ele baixa a cabeça e vai, cambaleando. O do-bar:
- Ainda bem que foi, senão eu tinha de levar.
- Como?
- Digo que vamos tomar mais na casa dele, pego pelo braço e levo.
- E ele vai?
- Vai, cai no sofá, jogo um cobertor por cima e volto.
- Pra que o cobertor?
- Pra suar e não ter tanta ressaca. Mas outro dia ele voltou logo cedinho, dizendo que tinha sonhado que foi pro inferno. Aí tomou uma pra esquecer o sonho.
Volto a escrever, o do-bar suspira:
- Tem hora que chego a pensar que ele devia mesmo ir pro inferno, mas depois... Acho que, no dia em que ele for, vou sentir saudade.
Não sinta, falei apontando: cambaleando mais ainda, o bêbado ia voltando.

R A I V A
Durante vários carnavais na década de 80, o Bloco do Pirulito saiu às ruas de Londrina, chegando a quarenta marmanjos vestidos de mulher, alguns vestidos de menina, barbados mas mamando, de suas mamadeiras, tudo menos leite.
Na foto, a saudosa amiga Clair Pavan checa minha fantasia antes de mais uma noite de farra (algumas de nossas mulheres ou amigas iam juntas, vestidas de homem).
Os blocos podiam entrar nos bailes de todos os clubes, e entrávamos cantando nossas músicas, que não eram nada feminis.
No desfile das escolas de samba, na Avenida Paraná, ficávamos atrás do palanque das autoridades e, entre uma escola e outra, desfilávamos uma, duas, três vezes, durante dois ou três quarteirões, depois voltávamos ao Restaurante Rodeio para abastecer.
Na terceira vez em que fomos desfilar, com nossos suados sutiãs e maquiagens borradas, uma dupla de PMs interpelou:
- Que cara de pau é essa? Vocês já desfilaram!
- Não, seo guarda – explicou nosso presidente Apolo Mário, graciosamente vestido de bailarina - A Prefeitura é quem pede para a gente desfilar entre as escolas, mantendo o público animado. Olha só!
Apolo acenou para o prefeito Wilson Moreira, no palanque, que educadamente acenou de volta.
- Viu, seo guarda?
O PM bateu uma leve continência, invadimos a avenida. Quando voltávamos ao Rodeio, sempre havia casos assim para contar, a gente ria que só.
Numa noite, depois de visitar o baile popular no Moringão, fomos comer sandubas numa lanchonete. Pedi o meu sem bacon, e esperei, esperei, varadão de fome, veio com bacon.
Reclamei, não deram atenção, dei uma palmada bem macha na registradora, tecnovidade computadorizada que travou.
O dono da lanchonete não aceitou conversa, chamou a PM. Bailarinas de pernas peludas, perucosas madames e até uma noiva barbuda tentaram argumentar, mas os guardas não quiseram nem saber, eu iria me juntar às dezenas de bêbados e arruaceiros detidos numa sala no Moringão.
Então Maurício Saraiva viu o vice-prefeito Délio César passando de carro, contou a situação e Délio foi falar com os guardas.
- É boa gente, cabo, pode soltar, fico responsável.
O cabo me olhava torto, talvez porque eu estava com saia de minha irmã e sutiã de minha mãe, que não combinavam.
- Mas ele quebrou a máquina da lanchonete.
Me comprometi a pagar o conserto, mas o dono da lanchonete falou de dedo esticado:
- O senhor se veste de mulher mas a cabeça é de machão!
Uma odalisca de cavanhaque quis avançar para ele, Apolo pediu calma e garantiu:
- Meu senhor, se essa moça não vier aqui amanhã pagar o conserto, eu venho, é só me ligar.
- E quem é o senhor?
- Sou a presidente (repetiu: “a” presidente) do Bloco do Pirulito, cidadão! – com cara tão séria que o homem concordou.
Fomos comemorar sambando em direção ao sol amanhecendo. Aí Apolo intimou:
- Companheira, raiva nunca mais, hem?
Nunca mais, prometi.
Depois daquilo, já enfrentei policiais abusados, dei voz de prisão várias vezes, separei brigas públicas, bradei contra injustiças e desmandos, com voz alta, sim, mas sem perder a calma.
Basta pensar na presidente bailarina a me intimar: raiva, companheira, nunca mais!...