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Por Domingos Pellegrini (em 02/06/2010 @ 07:58:52, em Do Jornal de Londrina e Tribuna do Norte:, lido 74 vezes)

 

 

          LÓGICA E GRAÇA

 
 
 
         Se pescaria tivesse lógica, não tinha graça. Inventei esse ditado, e cada vez mais me convenço disso.
         Fui a um pesqueiro, levando acerolas, que disseram ser ótima isca para pacu. Peguei dez pacus.
         Dei pacus para a primeira sogra, para a segunda sogra, para a vizinha onde catei acerolas.         Tempo depois, fui confiante a outro pesqueiro, com acerolas, e... nem beliscão!
         Um pescador me falou que é assim mesmo, peixe tem dia, depende do vento, do clima, do sol e das nuvens, da lua, vá saber. Outro pescador disse que pode ser devido à origem:
         - A acerola funcionou noutro pesqueiro, com peixes criados com frutas. Aqui, criados com ração, só gostam de massa, salsicha, minhoca – e, para provar, ele pescou mais um pacu com minhoca. 
         Troquei de isca mas os pacus continuaram sem beliscar.
         Depois voltei ao primeiro pesqueiro, novamente com acerolas e... nada. Lá pelas tantas, botei massa no anzol e pesquei três pacus.
         Depois voltei ao segundo pesqueiro, o pesqueiro carnívoro, com salsicha, minhoca e bacon, e nem beliscaram, enquanto outro pescador pegou vários pacus com tomatinhos e acerolas. 
         Conversei com ele, que me falou olha, é seguinte:
-         Se pescaria tivesse lógica, não tinha graça.
Pensei em dizer que a frase é de minha autoria, mas deixei pra lá. Apenas me prometi pescar com qualquer isca, deixando a cargo dos peixes morder ou não.
Na próxima pescaria, porém, por via das dúvidas e já por gosto de pesquisa, levei acerola, salsicha, bacon, quiabo, tomatinho, laranjinha, queijo, bala de banana e pão de queijo. 
Peguei quatro pacus mas, como usei duas varas com três anzóis cada uma, variando as iscas, e como também tomei três latinhas por cada vara, não consegui saber que iscas funcionaram, até porque dois dos pacus vieram quase ao mesmo tempo, um em cada vara, e foi uma correria de inspirar Charlie Chaplin.
Depois um menino chegou-se curioso, olhou as tantas iscas e perguntou:
-         O senhor come tudo isso?
Respondi que eu não, apenas esperava que os peixes comessem, e ele fez cara de nojo olhando os quiabos:
-         Creco, tem de ser um peixe muito besta pra comer isso.
Ofereci bala de banana, ele pegou uma, depois pediu outra, mais outra, falei que podia pegar todas, e ele, responsável:
-         Todas, não! E se eles começam a gostar das balas?
No mesmo instante, uma vara puxou forte e, quando tirei o pacu, estava fisgado com bala de banana ainda na boca. 
- Não falei? – o menino sorriu, depois ficou sério: - Mas eu só deixei mais duas balas aí...
Falei tudo bem, viriam mais dois pacus e eu daria um a ele. Mas as duas balas passaram o resto da tarde tomando banho e só mais dois pacu fisgaram... um numa acerola, outro numa minhoca.
         Pescaria é assim, falei, se tivesse lógica.... não tinha graça, o menino emendou, dizendo que o pai dele sempre fala isso.