As únicas pessoas normais são aquelas que você não conhece bem.

Alfred Adler
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 Minha fazenda... de Domingos Pellegrini

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Poema para velha colher de minha avô:
Por Domingos Pellegrini (em 27/01/2009 @ 09:37:26, em jornal, lido 803 vezes)

 

 

 

 
 
A VELHA COLHER
 
Velha colher de velha avó bem mostra
tudo se gasta mesmo suavemente
à custa de mexer prato de sopa
depois os netos a lamber sorvete
 
Finalmente cumprida sua sina
de servir e gastar-se, a colher
avó de todas outras da cozinha
se vê sozinha igual tantas mulheres
 
Suas amigas foram-se no tempo
e onde andarão os garfos do faqueiro?
A concha lhe parece velho espelho
onde se vê qual gorda escumadeira
 
Como as avós quando ficam caducas
a colher velha vai ser encostada
no fundo de gaveta, e lá fica
Fazer o que? senão empoeirava
 
E na gaveta fica anos e anos
até a avó passar para outra esfera
depois as filhas abrirão janelas
e as netas gavetas, batendo panos
 
e desdobrando as ancestrais toalhas
perguntarão o que fazer com tantas
coisas, tantos trastes, tanta tralha
que tanto encanta quanto tanto espanta
 
Algumas coisas irão para o lixo
outras serão doadas para amigas
umas poupadas por puro capricho
de tão singelas ou de tão antigas
 
A colher velha ao lado duma faca
que nos bons tempos até matou porco
empoeirada brilhará tão pouco
que será esquecida por opaca
 
no cinzento da mesa confundida
até que descoberta por um neto
vira brinquedo, numa nova vida
entre gibis, heróis e canivetes
 
A colher lança bolinhas de gude
a colher cava túneis de piratas
a colher faz carinhos numa gata
e estágios delirantes em Hollywood
 
Saboreira os venenos mais secretos
prova das iguarias refinadas
no último jantar do condenado
sorve a última gota do deserto
 
Então a colher salta de avião
come parca ração de infantaria
torna-se o amuleto do espião
enjoa com balanço de navio
 
Mas o menino cresce e enjoa dela
-         que é que via numa colher velha?
Joga no lixo e ela vai pro Lixão
entre papéis, tomates, panos, pão
 
sucos e gosmas, cheiros e fedores
num trepidante e quente inferno escuro
revirado e socado por tratores
onde a colher se vê sem mais futuro
 
À noite esfria mas de dia escalda
sentindo já a ameaça dos ácidos
a venenosa babação dos plásticos
ferruginosa corrosão das latas
 
A colher se abandona na cristã
entrega ao tempo, ao enfim, ao nada
nada além das lembranças recicladas
a memória em consolo do amanhã
 
Mas de repente luz, e sol, e céu azul!
Mão suja pega a colher, pega e esfrega
num pano sujo, esfrega mais, esfrega
e a colher solta um brilhareco sujo
 
No entanto vai pra escuridão de um saco
passa depois pra mornidão de um bolso
depois revê o brilho duma faca
lavada até volta a servir almoço
 
Conhece os amassados das marmitas
se afunda em sopa e cavoca goiaba
vira chave de fenda com seu cabo
e até espelho onde mulher se fita
 
Ganha um lugar só seu sobre um caixote
dá de comer ao homem que tem fome
dá de beber ao bebê que tem sede
e dá remédio ao doente na rede
 
Sente-se tantas, sempre procurada
por tantas bocas sempre preferida
mesmo com pouca água tão lavada
quanto mais velha colher mais querida
 
Não pensa no passado ou amanhã
sente-se ar para ser respirada
sente-se água para ser bebida
sente-se viva e nova igual manhã
prontíssima pra ser inaugurada
 
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# 1
Velha colher... inda passa - das vezes - pela boca desdentada. Entre as outras, procura... e não encontra nada. Velha, torta e mal lavada. Porém, pelo Pellegrini, foi ressucitada. Viva!!!
Por  J. A. Rezzardi  (Inserido em  31/01/2009 @ 00:39:37)
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