As únicas pessoas normais são aquelas que você não conhece bem.

Alfred Adler
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 Minha fazenda... de Domingos Pellegrini

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Por Domingos Pellegrini (em 15/06/2010 @ 08:44:15, em Do Jornal de Londrina e Tribuna do Norte:, lido 46 vezes)

 

 
 
      MANGOCULTURA
 
      
 
         Cresci amando mangueiras, depois aprendi a admirar e agora, todo ano, observo bem essas companheiras de chácara, primeiras a florir no inverno para frutificar quase no verão.
 Aprendi a amar mangueiras nos quintais das avós, subindo nos galhos com a agilidade macaca de menino, para lá de cima olhar o bairro, os horizontes, as nuvens, trepado no galho mais alto, a balançar com o vento. Ali fui marujo em tempestades e piloto em batalhas, para sempre voltar a ser guri com a boca e as mãos lambuzadas de manga.
Depois de dias chuvosos, enganando a vigilância das avós e da mãe, era perigoso – e por isso mais atraente – trepar em mangueiras, com os galhos limosos e escorregadios. E era difícil mentir depois que não tinha trepado na mangueira, com as pernas e os braços esverdeados de limo...
Todo ano marco o começo do inverno pela florada das mangueiras. As nativas florem antes, as importadas depois. Mas todas florem como se fosse a última coisa que farão na vida, cobrindo-se de flores, até parecerem imensos couves-flores. Talvez porque saibam que os ventos levarão parte das flores, as chuvas melarão outras, e uma raivosa tempestade poderá derrubar toda a florada, como no ano passado, quando quase não tivemos mangas.
Quando se formam as manguinhas, pequenas como bolinhas verdes na ponta dos galhos, olho apreensivo como quem olha filhos indo para a escola: voltarão? Virarão frutos maduros?
O melhoramento genético acabou com as mangas rosa, aquelas miúdas e redondas que deixavam os dentes cheios de fiapos. E não é que agora tenho saudade delas justamente por isso? Mas temos de agradecer pelas mangas macias, cheirosas e polpudas que a pesquisa agronômica nos legou. Melhoradas assim, as mangas conseguiram se colocar nas saladas, em perfeito casamento com as verduras, principalmente a rúcula. Manga com rúcula, mais pão crocante e queijo, pra mim já são refeição.
E geléia de manga, sorvete de manga, suco de manga então? Melhor, só quando o guri pegava manga espada, mordia o biquinho e ia apertando e chupando, feito um seio amarelo, cheiroso como só e gostoso como que.
Por isso, sempre que vejo dia disto, dia daquilo, penso: por que ainda não criaram o Dia da Manga? Talvez porque, com a bi-colheita anual, temos mangas todo dia no mercado. Deviam criar, isto sim, uma medalha para os agrônomos e os mangocultores que nos propiciam manga todo dia.
Agora, com licença, vou descascar uma. E comer cortada em cubinhos, com queijo branco, torradas e vinho branco. Com vinho tinto, a manga vai bem acompanhada de bom presunto ou defumado de peru. Com champanhe, manga gelada e chantilly, moderadamente, senão engorda. Mas se manga não engordasse, não seria criação divina. Limão puro não engorda nada, mas quem chupa limão puro?
Deus sabia o que fazia quando fez a manga, e caprichou. Com licença, com licença, aquela ali está me esperando.
 
 
 
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