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Benvindo! Sítio Terra Vermelha
Domingos Pellegrini
Por Domingos Pellegrini (em 06/09/2010 @ 11:33:47, em jornal, lido 8 vezes)

Bilboquê
VELHOS BRINQUEDOS
Pipa cai na chácara, toca a campainha, são meninos pedindo:
- Pega a pipa pra nós, tio!
Digo que vou pegar se a pipa estiver no chão.
- Se estiver enroscada em árvore, não pego, até porque pipa só cai porque vocês passam cerol na linha.
- Tá na árvore, tio... – um fala com cara tão lambida que dá dó, boto escada, pego a pipa, devolvo, ele pega e sai correndo sem agradecer. Mas vai pulando de felicidade, os outros atrás, e me sinto recompensado porque fazem lembrar os brinquedos de meu tempo moleque.
Fui bom de pião. Não consegui fazer o pião girar na unha, mas girava na palma da mão, zunia em piso encerado, riscava a terra feito bailarino de madeira.
Nunca fui bom com bolinhas de gude, também chamadas búricas, mas fui campeão de bugalho ou cinco-marias. Eram cinco saquinhos de brim ou de estopa, cheios de areia ou arroz, que a mãe costurava depois da gente infernizar de tanto pedir e suplicar. Lembro de jogar bugalho até na calçada diante dos cines Jóia e Londrina.
Lançava os cinco saquinhos no chão, aí pegava um, jogava para o alto, pegava outro e já também o que caía do alto. Depois de assim pegar todos, com uma só mão, lançava de novo os cinco no chão, pegava um e lançava um bem alto e, com a mesma mão, tinha dar petelecos nos outros, para passarem por baixo de um arco formado pela outra mão, daí pegar o que caía do alto. Não era fácil, mas a gente treinava apaixonadamente e ficava craque. Quando ficava fácil, passava a jogar com a mão esquerda...
Estilingue, tive um, comprado de outro guri, era muito artesanato para mim, que nunca soube também fazer pipa. No bilboquê, porém, fui campeão, enjoava de tanto embirocar.
Mas a glória foi brincar de carrinho de rolemã. Meus pais viviam separados, eu morava com a mãe em outra cidade e, nas férias com o pai em Londrina, via com inveja os meninos descendo a calçada velozes nos carrinhos (ainda não existia asfalto, só pavimentação de paralelepípedos, então as pistas eram as calçadas).
Tio Orlando tinha oficina em casa e, quando viu minha inveja, fez para mim o mais bonito, forte e veloz carrinho que a gurizada jamais viu.
Na Rua Pará, onde moravam os nonos, moí aquele carrinho, descendo a calçada a mil sonhos por hora, muitas vezes capotando na curva da esquina lá embaixo, às vezes atropelando alguém. Lembro da Nona Paulina catando tomates esparramados da sacola de volta da feira. Mas perdoou sorrindo, decerto por me ver tão feliz.
Nas férias seguintes, vi o carrinho pendurado na parede da garagem, esperando conserto, mas minha nova paixão eram os álbuns de figurinhas. (Meu Deus, onde foram parar meus álbuns de figurinhas?! Vou procurar, nem que tenha de revirar a cômoda das fotos e papeladas.)
Depois passou a paixão das figurinhas, e a nona se foi, tio Orlando foi, como se foram os carrinhos de rolemã, os bilboquês, os piões, as búricas, os bugalhos.
Da próxima vez que cair pipa aqui, vou falar:
- Pego, mas só se me prometerem que não vão deixar esse brinquedo morrer...
Por Domingos Pellegrini (em 24/08/2010 @ 11:44:07, em jornal, lido 8 vezes)
EXEMPLOS
Vou renovar a carteira de motorista no Detran, e sou atendido como cidadão que, com seus impostos embutidos em tudo que compra, paga todos os serviços públicos.
Já na recepção checam se eu trouxe todos os documentos necessários. Num guichê me dão o boleto da taxa para pagar, a data do exame e instruções para conseguir apostilas via internet.
No dia do exame, o funcionário pontualmente abre a sala, distribui as provas e dá instruções precisas.
Depois que entrego a prova feita, vou ao guichê onde rapidamente batem a foto que irá na carteira, avisando que, se for aprovado, ela será entregue pelo correio. Menos de uma semana depois, a carteira chega em casa.
Depois, vou à Polícia Federal renovar passaporte. Antes, telefono e atendente gentil pergunta se tenho internet, dá o endereço e lá acho todas as instruções e o boleto para pagar a devida taxa, além de agendar o atendimento.
No dia e hora marcados, sou atendido precisamente na hora. Quem atende me chama de senhor e não de você, sempre me olhando nos olhos e dedicando-se exclusivamente a me atender. Na parede, vejo aviso proibindo celular, pergunto se a proibição é também para os funcionários, a resposta é que a proibição é principalmente para os funcionários.
Ao contrário de tantas repartições onde abundam guichês vazios, porque alguns estão sempre folgando lá nos fundos, aqui todos os guichês estão com atendentes. Em minutos são tiradas minhas impressões digitais e checados todos os documentos, depois recebo aviso escrito do dia de entrega do passaporte, e depois mais um aviso via internet.
Tudo de forma simples, rápida, respeitosa, profissional, ao contrário de tantas repartições com guichês vazios, atendentes com visível tédio e preguiça, muitas vezes atendendo cada caso como se fosse a primeira vez. Alguns consultam outros aos berros. Esquecem “detalhes” que nos fazem ter de voltar e entrar em fila mais uma vez. Nâo há padronização de procedimentos, não há método. E muitos fazem cara de estar fazendo favor...
Amigo meu, sempre que precisa recorrer a serviço público, faz o teste da gravata. Vai primeiro com paletó e gravata, bem penteado. Tem de pegar senha e esperar como todos, mas é atendido com respeito e chamado de senhor.
Quando volta para pegar o documento requerido, vai de camiseta, suado e despenteado como tantos trabalhadores.
- Aí mal me olham. Certa vez, o atendente atendeu celular, ficou falando um tempão, rindo e gabolando, depois me perguntou onde é que a gente estava. Tive vontade de responder que estava num país onde os serviços públicos não valem o feijão que comem.
Mas o Detran e a PF, meu amigo, são exemplos de que os serviços públicos podem melhorar, e merecem elogio público.
Por Domingos Pellegrini (em 24/08/2010 @ 11:44:07, em jornal, lido 3 vezes)
EXEMPLOS
Vou renovar a carteira de motorista no Detran, e sou atendido como cidadão que, com seus impostos embutidos em tudo que compra, paga todos os serviços públicos.
Já na recepção checam se eu trouxe todos os documentos necessários. Num guichê me dão o boleto da taxa para pagar, a data do exame e instruções para conseguir apostilas via internet.
No dia do exame, o funcionário pontualmente abre a sala, distribui as provas e dá instruções precisas.
Depois que entrego a prova feita, vou ao guichê onde rapidamente batem a foto que irá na carteira, avisando que, se for aprovado, ela será entregue pelo correio. Menos de uma semana depois, a carteira chega em casa.
Depois, vou à Polícia Federal renovar passaporte. Antes, telefono e atendente gentil pergunta se tenho internet, dá o endereço e lá acho todas as instruções e o boleto para pagar a devida taxa, além de agendar o atendimento.
No dia e hora marcados, sou atendido precisamente na hora. Quem atende me chama de senhor e não de você, sempre me olhando nos olhos e dedicando-se exclusivamente a me atender. Na parede, vejo aviso proibindo celular, pergunto se a proibição é também para os funcionários, a resposta é que a proibição é principalmente para os funcionários.
Ao contrário de tantas repartições onde abundam guichês vazios, porque alguns estão sempre folgando lá nos fundos, aqui todos os guichês estão com atendentes. Em minutos são tiradas minhas impressões digitais e checados todos os documentos, depois recebo aviso escrito do dia de entrega do passaporte, e depois mais um aviso via internet.
Tudo de forma simples, rápida, respeitosa, profissional, ao contrário de tantas repartições com guichês vazios, atendentes com visível tédio e preguiça, muitas vezes atendendo cada caso como se fosse a primeira vez. Alguns consultam outros aos berros. Esquecem “detalhes” que nos fazem ter de voltar e entrar em fila mais uma vez. Nâo há padronização de procedimentos, não há método. E muitos fazem cara de estar fazendo favor...
Amigo meu, sempre que precisa recorrer a serviço público, faz o teste da gravata. Vai primeiro com paletó e gravata, bem penteado. Tem de pegar senha e esperar como todos, mas é atendido com respeito e chamado de senhor.
Quando volta para pegar o documento requerido, vai de camiseta, suado e despenteado como tantos trabalhadores.
- Aí mal me olham. Certa vez, o atendente atendeu celular, ficou falando um tempão, rindo e gabolando, depois me perguntou onde é que a gente estava. Tive vontade de responder que estava num país onde os serviços públicos não valem o feijão que comem.
Mas o Detran e a PF, meu amigo, são exemplos de que os serviços públicos podem melhorar, e merecem elogio público.
Por Domingos Pellegrini (em 09/08/2010 @ 09:54:30, em jornal:, lido 29 vezes)
SOGRAS
Tenho sogra-1 e sogra-2, a do casamento atual e a do casamento anterior (minha contagem de sogra é assim, de trás para frente).
Como as duas são mães de filha única, sempre que lhes telefono assim me apresento:
- Alô, aqui é seu genro mais lindo!
As reações são diferentes, embora as duas concordem no essencial. Dona Lúcia sempre diz:
- Fala, genro lindo.
Dona Maria Teresa diz:
- Lindo e maravilhoso, fala!
“Feliz foi Adão porque não teve sogra”, diziam antigamente os parachoques de caminhões. Mas acredito que Adão seria feliz se tivesse sogra: decerto ela teria avisado para que não comesse a maçã, ou ela mesma comeria, assim seria só ela expulsa do paraíso. Com isso, seríamos todos descendentes dela, filhos da sogra em vez de filhos de Adão. Seríamos talvez menos guerreiros, Caim não teria matado Abel.
Aliás, a história bíblica é machista que só, né: não diz nem o nome da mulher com quem Caim se casa depois de matar o irmão. Mas, se a história for lida ao pé da letra, sendo Adão e Eva o primeiro casal, a mulher de Caim só podia ser irmã dele mesmo, o que nos condena a ser filhos de um assassino incestuoso.
Claro que a história bíblica não deve ser lida ao pé da letra, pois conta que Caim criou uma cidade e lhe deu o nome de seu primeiro filho, Enoque. Mas se era o primeiro filho do primevo casal, quem habitava a tal cidade?
Faço essa pergunta a minhas duas sogras, e novamente elas demonstram a diversidade humana, embora de novo concordando no essencial. Dona Lúcia:
- Só mesmo você pra ficar pensando essas coisas. A Bíblia é para ser lida com fé! Mas eu sei que você é bom, só pensa bobagem demais às vezes.
Dona Maria Teresa:
- Que me interessa saber quem habitava a primeira cidade do mundo? Quero é saber se vão consertar os buracos aqui das ruas! E como você é bom pra pensar bobagem, hem?
Assim, concordando no essencial, que sou bom, minhas sogras retribuem minha bondade com agrados incomparáveis. Dona Lúcia faz uma farofa com bacon e maçã (reminiscência bíblica?) que é uma delícia. Dona Maria Teresa curte pinga com folhas de figo, fica um néctar digno da corte de Salomão.
E as duas se gostam! Quando se encontram aqui em casa, conversam que só vendo! Mas param de conversar quando chego perto... Por que será?
Por Domingos Pellegrini (em 26/07/2010 @ 09:27:49, em jornal, lido 30 vezes)
RATO NO CARRO!
Quando Pingo começa a ganir na chácara, é porque acuou gato ou gambá encarapitado no alto de árvore ou enfiado em pilha de lenha. Então deixamos que ganisse mas, quando fomos ver, ele estava arranhando o chassi do carro, decerto farejou rato ali.
Eu estava plantando umas alamandas, então Dalva quem foi lidar com o problema, ou Pingo arranharia o chassi até tirar a tinta, ele é incansável na caça. Acabaram se juntando Dalva, sua secretária Meire, e nossa cuidadora doméstica, Dona Margarida, todas fuçando no motor, até que, de repente, ouvi aquela gritaria.
- Que nooooojo!
- Viu o tamanho?!
- Saaai daí, bicho danado!
Mas o rato não só não obedeceu, como voltou a se esconder no motor. Elas estavam histéricas, fui acalmar:
- Pra lidar com rato, é preciso ter a calma e a firmeza masculinas, é preciso um homem e pronto.
Expliquei que não podia ser eu, não porque tenha medo:
- Tenho nojo científico de ratos.
Recebi olhares bastante significativos, apesar dos quais dei minha sugestão:
- Não vão conseguir tirar esse rato daí. E, se fecharem o chassi, o Pingo vai continuar arranhando. Melhor é prender o cachorro e botar aí uma ratoeira.
Elas insistiram mais um tempo, depois acataram minha idéia. Soltaram uma bomba junina, jeito fácil de fazer a cachorrada assustada correr para dentro de casa. Fechadas as portas com os cachorros lá dentro, armei a ratoeira com irresistível toucinho defumado, tomando o cuidado de usar luvas para não pegar diretamente nem na ratoeira nem na isca: rato tem mais faro que cachorro e não aceita isca com cheiro de gente.
Quando fomos deitar, lá pela meia-noite, ouvimos o barulho da ratoeira. Fui lá, e estava desarmada e vazia, sem toucinho nem rato. Como esqueci aberta a porta da garagem, Pingo saiu, mas cheirou o chassi e se desinteressou, sinal de que o rato fugira.
De manhã, Dalva acariciou Pingo e agradeceu:
- Você arranhou o carro, mas avisou que tinha rato lá. Senão, ele podia ter feito ninho e... só de pensar no carro cheio de ratinhos, me arrepio de nojo! Você é um baita cachorro, Pingo!
Ele deve entender Português, porque ficou olhando para ela como que dizendo não tem de que, eu estava só caçando, agora me dê um pedaço de queijo e tudo bem. Ela deu queijo a ele, dei um beijo nela, e o rato me deu esta crônica: final feliz!
(p)Link
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