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Benvindo! Sítio Terra Vermelha
Domingos Pellegrini
Por Domingos Pellegrini (em 08/02/2010 @ 09:02:54, em jornal, lido 2 vezes)

A HERANÇA
Fui encomendar uma pizza aqui perto da chácara, e na Avenida Nova Londrina, diante da pizzaria, vi um senhor de seus setenta anos, magro, sem camisa, aparando a grama da ilha com um alfanje. Na sua imagem clássica, a Morte aparece de capa e capuz negros, com um alfanje nas mãos, a indicar que é ceifadora de vidas.
Mas o alfanje é uma espécie de foice criada para ceifar trigo, com cabo longo permitindo que a gente corte rente ao solo sem precisar se curvar.
E o homem manejava bem, rapando a grama com golpes precisos, mostrando traquejo. Como a espada árabe, a cimitarra, também é chamada de alfanje, e como muitos chamam o alfanje apenas de foice, não resisti perguntar:
- O senhor sabe o nome dessa ferramenta?
- Alfanje – ele falou passando a mão na testa suada e continuando a ceifar - É uma beleza pra cortar grama alta.
- E a prefeitura paga pro senhor capinar aí?
Ele riu:
- Pagam nada! Mas já fazem muito de não atrapalhar.
Lembrei então que o alfanje de cabo curto aparece no símbolo do comunismo, cruzado com martelo, e comunismo me lembrou comunidade:
- É a associação de moradores que paga o senhor?
Só então ele parou para me encarar.
- Moço, ninguém me paga nada, eu faço isto porque não sei ficar parado. Faz bem pro corpo e pra cabeça.
Um menino olhava o idoso a suar de pingar do nariz, e adivinhei:
- Seu neto? Também sabe usar o alfanje?
O homem riu.
- Esse aí é que nem essa moçada de hoje, só sabe usar celular e computador...
A dona da pizzaria veio para a rua e falou que o homem é seu pai, ficou olhando com orgulho. Reparei então que ele já ceifava além da parte da ilha diante da pizzaria.
- Então ele não ceifa só diante da pizzaria de vocês?
Ela riu:
- Ele vai ceifar a ilha toda! Ele diz que baixando a grama fica de alto astral!
O homem voltou a passar a mão na testa, depois nas calças, para o cabo do alfanje não ficar escorregadio de suor, e continuou a ceifar.
Fiquei mais um tempo olhando aquela imagem de vida, embora usando o alfanje da morte, e também imagem de dedicação comunitária, embora sozinho. E perguntei ao menino:
- Gosta do seu avô?
Ele balançou a cabeça várias vezes, sorrindo, e eu tive a certeza de que o avô está deixando para o neto uma herança inestimável. Meu nono José também falava que essa é a maior herança, que não pode ser comprada nem é vendida:
- É o exemplo.
Por Domingos Pellegrini (em 01/02/2010 @ 15:50:56, em jornal, lido 2 vezes)

OH, ÓCULOS
Usei óculos até os dezesseis anos, quando passei a usar lentes de contato. Mas, agora aos sessenta, se usar duas lentes, tenho de afastar o jornal para ler. Se não usar nenhuma, tenho de encostar o nariz na página para ler. Por isso, uso só uma, assim não preciso tirar para ler, ficando com um olho para longe, outro para perto. Sou um bifocal orgânico.
Em algumas fotos me vejo de óculos, adolescente, e só consigo lembrar que me davam um dilema: ou deslisavam pelo nariz, de modo que eu tinha de empurrar para cima a todo minuto, ou, se ajustava suas pernas, doíam atrás das orelhas. Era o caso de usar óculos leves, de armações finas, mas me pareciam coisa de velho. Quando John Lennon começou a usar óculos sem armação, já era tarde, eu já usava lentes.
Minha amiga Inês conta que os acidentes com seus óculos dariam uma novela, pois que dêem uma crônica.
- Já quebrei tantas pernas de óculos – conta ela – que, se juntasse todas, daria para formar uma centopéia ocular. E também já perdi a conta das vezes em que deitei de óculos e até dormi de óculos! Uma noite, sonhei que tinha perdido os óculos e procurava, procurava e não achava, então desesperada botei as mãos na cabeça, e acordei assim, com as mãos na cabeça, descobrindo que tinha dormido de óculos...
Na verdade, ela usa dois pares de óculos (pois são dois, o direito e o esquerdo, embora haja uma ótica chamada Casa do Óculos). Um dia, Inês começou a procurar os óculos escuros pela casa toda, até entrar no quarto, quanto tudo escureceu: ela estava com os óculos...
Noutra vez, entrou no carro e começou a procurar os óculos, pois tinha certeza de que tinha saído de casa com eles.
- Procurei no painel, no piso, em tudo, e nada. Aí liguei para minha filha, que tinha saído de casa em outro carro, eu queria confirmar que tinha saído de óculos. Ela falou que sim, e me mandou procurar nas costas, onde eu tinha colocado os óculos, pendurados pela correntinha, para dar um abraço nela...
Aliás, Inês conta que também já conseguiu perder a correntinha usada para não perder os óculos.
- Tirei a correntinha para arrumar um dos elos, fui atender o telefone e, depois, cadê? A correntinha só apareceu no dia seguinte, porque deixei sobre um jornal aberto, que depois fechei para procurar por ela. Ainda bem que alguém pegou o jornal para ver um classificado...
E, quando entra no chuveiro de óculos, Inês agradece:
- É sinal de que estou muito preocupada com alguma coisa, então procuro relaxar.
Por tudo isso, acredito que óculos não servem apenas para a vista, como diz o caboclo, mas também para a gente não perder de vista que somos falíveis, sempre andando entre distraídos e estressados.
E já viu como nenê no colo gosta de puxar óculos? Porque óculos são muito interessantes, conforme Inês:
- Tem dois olhos, duas pernas e nenhum corpo. Existe bicho mais esquisito?
Por Domingos Pellegrini (em 18/01/2010 @ 08:54:18, em jornal, lido 32 vezes)

PERGUNTAÇÃO
- Vô, por que a gente faz cocô?
O avô pergunta por que perguntar uma coisa tão boba.
- Porque você quem falou, vô, que não existe pergunta boba, e que a gente deve perguntar tudo que quiser.
O vô diz que é verdade, afinal fazer cocô é importante:
- Já pensou se o cocô ficasse dentro da gente? Você ia chegar na minha idade com cem metros de altura! Porque gente come três vezes por dia, né, e é por isso que faz cocô!
- E por que a gente come, vô?
- Sabia que ia perguntar isso. A gente come pra ter energia pra funcionar, que nem carro precisa de gasolina ou álcool.
- Mas a vó diz que você não devia beber tanto álcool, vô.
O avô diz não bebe pra ter energia, mas porque é gostoso.
- E eu gosto de fazer cocô, vô, é pecado?
- Que bobagem! Claro que não!
- É que a vó falou que quase tudo que é gostoso, é pecado.
- É que tua vó só vê sujeira no mundo...
- Então o que ela viu nocê, vô?
O avô fica pensando. O neto aponta uma nuvem:
- Por que nuvem não pára quieta, vô?
O avô pensa em falar de vapor e ventos etecétera, mas prefere dizer que é porque nuvem é igual guri:
- Nuvem tem vento na bunda, guri tem fogo no rabo.
- Eu não tenho rabo, vô.
- É modo de falar. Mas gente já teve rabo, quando ainda vivia em árvores como macacos.
- Você e a vó moraram em árvore, vô?!
- Nós não, os nossos antepassados, o bisavô do trisavô do tetravô do nosso quaquavô, muito tempo atrás!
O neto fica olhando o avô, até perguntar:
- Como você sabe que eles tinham rabo? Tem fotografia?
O avô fica pensando, o neto diz que não precisa responder:
- Quando você suspira, vô, é porque não sabe. Mas que pena que a gente não tem mais rabo.
- É? Por que?!
- Porque você reclama que os netos nenês puxam sua barba ou seus óculos, vô, e então eles podiam puxar só seu rabo, né?
O avô diz que não sabe qual é pior, se a idade da puxação ou a da perguntação.
- Que que é perguntação, vô?
O avô suspira, diz que perguntação é pergunta demais.
- Eu pergunto demais, vô?
- Mais ou menos.
- Mais mais ou mais menos?
O avô fica olhando as nuvens.
- Onde é a bunda da nuvem, vô?
- Depende; se a nuvem está de ponta-cabeça, a bunda é em cima. Senão, é embaixo.
O neto faz cara de quem agora realmente entendeu.
- E por que nuvem escurece, vô?
- Porque as nuvenzinhas fazem muitas perguntas pra elas, então vão ficando escuras, entende?
- Entendo, vô: gente suspira, nuvem escurece. E gente urina, nuvem chove, né, vô? Mas por que mulher só urina sentada?
O avô suspira.
Por Domingos Pellegrini (em 12/01/2010 @ 09:04:18, em jornal, lido 24 vezes)

PAIXÃO
Eu tinha dez anos e fui com o pai visitar sua terra natal, Capivari. Dali ele tinha saído moço, mas já zagueiro famoso, como contava Tio Orlando:
- Naquele tempo se jogava em campo sem grama e, às vezes, a confusão era tanta na entrada da área, com tanto chute pra todo lado, que levantava um poeirão, aí seu pai saía daquele poeirão com a bola dominada e lançava lá para o volante, armando o contra-ataque, a torcida aplaudia como se fosse gol.
Capivari era uma cidadezinha tão bem cuidada, com uma vida tão certinha, que um buraco na rua até seria bem vindo, para dar assunto às conversas. Indo de casa em casa com o pai, tomando tubaína com bolo até enjoar, eu ouvia as mesmas conversas, primeiro falando dos velhos: fulano morreu, beltrano morreu e ciclano, coitado, ainda não morreu mas tá morrendo. Depois falando dos novos: fulano casou e tem um monte de filhos, beltrano casou e também tem um monte de filhos, e o ciclano casou mas só teve três filhos, coitado...
Eu me enfastiava, bocejava, folheava velhas revistas, passava em revista porta-retratos e fotos de família emolduradas nas paredes. Até que, numa casa, mostraram uma coleção de moedas e, imediatamente, me apaixonei. Ali mesmo me deram algumas moedas repetidas e, nas visitas seguintes, eu perguntaria se não tinham moedas velhas para eu ver, confiando que me dariam algumas.
Quando voltamos de Capivari, eu tinha uma caixa de sapatos tão cheia de moedas que rompeu no caminho. Catei uma por uma no piso do carro, e durante vários anos continuaria a conseguir moedas, procurar moedas, comprar moedas.
Descobri que, numa Londrina colonizada por tantas nacionalidades, não era difícil achar famílias com velhas moedas esquecidas em gavetas. Consegui moedas japonesas furadas, moedas alemãs gastas de tão usadas, grandes moedas coloniais, catacões portugueses, moedas de cobre, de prata, de níquel, uma multidão de caras e coroas numa caixa de madeira que eu guardava com zelo e carinho.
Uma vez por semana, pegava a caixa, espalhava as moedas pelo piso do quarto, formando fileiras conforme os tamanhos ou a idade ou nacionalidade, ou fazendo desenhos geométricos, árvores de moedas, nuvens de moedas. Depois recolhia todas, guardava na caixa, até a próxima moedação, como mãe dizia.
Levei amigos para conhecer minhas moedas, e troquei moedas com outros moedeiros (alguém me explicou que eu não era ainda um colecionador organizado, com as moedas classificadas e arrumadas em tabuleiros). Gastei mesadas para comprar moedas, já guardadas em três caixas.
Um dia, comecei a trabalhar ganhando salário, podendo então comprar muitas moedas e me tornar colecionador de verdade. Mas chegava ao fim de semana cansado do trabalho, não tinha ânimo de procurar, visitar, fuçar, negociar. Não cheguei a gastar mais um tostão com moedas, e fui revendo minha moedagem só de vez em quando.
Um dia, dei algumas de presente a um priminho, feliz de ver sua felicidade com tão pouco. Dei de dar moedas a crianças e jovens apaixonáveis por moedas, enquanto eu passava a me apaixonar por ideologias, artes e pessoas.
E todas as paixões passaram, menos as paixões por artes. Quando um dia me dei conta de que nem sabia mais onde andava minha moedagem, me dei conta também de que superar paixões é a maior arte.
Por Domingos Pellegrini (em 31/12/2009 @ 07:19:06, em jornal, lido 101 vezes)

RESOLUÇÕES
Respiro fundo, olhando o amanhecer, e vou anotando minhas resoluções de ano novo.
Primeiro, vou buscar aquela jaqueta que esqueci na casa do Poca ano retrasado. Incrível como é a cabeça da gente, tanta coisa por resolver e começo lembrando da jaqueta - que até já fui buscar duas vezes, cheguei a pegar a danada, mas, conversando e tomando umas com o Poca, fui embora deixando de novo a jaqueta lá, deve estar mofando.
Mas não vai mofar minha vontade de mudar a alimentação. Não vou mais comer doces. A não ser, claro, em festas, pois não tem sentido ir a um casamento ou aniversário e recusar um pedaço de bolo ou uma trufa. Ou os dois. E um sorvetinho de vez em quando, depois do almoço da família no sábado. E também não vou poder recusar o bolo de cenoura com goiabada da sogra no domingo, seria desfeita a Dona Lúcia. Ela fica tão feliz que me sinto na obrigação de comer três fatias.
Aliás, li que chá de canela tira a vontade de comer doce, então resolvo tomar chá de canela todo dia. E vamos trocar o arroz branco por arroz integral. Também vamos continuar a cozinhar arroz e feijão sem óleo. E a carne de porco vamos fritar na própria gordura. Há tempo tiramos da dieta carne vermelha, mas Dalva diz que a de porco é parte de nossa identidade rural:
- Porco não é só carne branca, é carne abençoada! Cresci comendo porco e vendo a banha conservar peixe e fritar frango, e assim meus avós viveram mais de oitenta anos!
Resolvo, porém, dispensar o torresmo. A não ser, claro, que, por acaso, esteja num bar que só tenha salgados gordurosos, e gordura por gordura, será melhor ficar com o torresmo para acompanhar a cerveja gelada. Só não resolvo cortar a cerveja porque ninguém é de ferro e, com esse aquecimento global...
Por falar nisso, ecologicamente resolvo também não comprar mais cerveja em lata. Vou comprar uma dúzia de garrafas retornáveis, para o caso de retornar a vontade de tomar umas em casa, assim evitando o torresmo dos bares.
Também resolvo atender gentilmente as ligações de telemarketing:
- Bom dia, querida. Antes de você continuar com suas perguntinhas, deixe-me lhe dizer que me cadastrei na lista do Procon para não receber mais ligações de telemarketing. Então, por favor, diga-me seu nome completo e também o nome da empresa para eu registrar a queixa para a devida multa, tá? Alô, cadê você?
Resolvo, ainda, mudar de canal diante de notícias de desabamento de casas construídas em encostas, enchentes e engarrafamentos em São Paulo e Bacalhau do Batata no carnaval.
Também resolvo que, diante do pastor pregando dia e noite num dos canais de tevê, não vou mais me perguntar admirado: ele não dorme?
Resolução das resoluções, resolvo que é injusto me irritar com notícias sobre a lentidão de Justiça.
Quanto à corrupção, resolvo que continuarei honesto. O resto é o resto.
Além disso, Ano Novo, resolvo que só comerei ovos em forma de omelete, com queijo ralado e muita salsinha e cebolinha. Se morrer disso, morrerei feliz.
(p)Link
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