As únicas pessoas normais são aquelas que você não conhece bem.

Alfred Adler
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 Minha fazenda... de Domingos Pellegrini

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Benvindo! Sítio Terra Vermelha

Domingos Pellegrini
 
Por Domingos Pellegrini (em 04/03/2010 @ 10:55:59, em jornal, lido 7 vezes)

 

TRÊS PEIXES
 
 
 
 
         Elas pegaram três varas e começaram a pescar ansiosas, a todo minuto tirando os anzóis da água. Mas, com o sol castigando, acabaram com as varas pendidas já começando a bicar a água. 
         Então convidei para sentarem no meu banco, na sombra de árvore, e elas vieram agradecidas. Mostrei como colocar a isca cobrindo todo o anzol, e como puxar rápido e forte quando a bóia fosse puxada, não antes quando o peixe apenas beliscasse.
         Elas voltaram a pescar com as varas empinadas de esperança.
         A mãe foi a primeira a pegar seu peixe, as duas meninas pulando. ela tão alegre quanto aflita, sem saber como tirar o peixe da água. Recue, falei, recue e vá erguendo a vara, e ela foi recuando.
         Mas não recue tanto, falei, que vá cair na outra lagoa, e ela riu feito menina. Tirei o peixe do anzol, botei no samburá, as meninas ficaram erguendo o samburá acima da água para ver o peixe.
          Não façam amizade com ele, falei, senão depois vão ter dó de comer. Elas voltaram para as varas, olhos grudados nas bóias.
Com voz baixa, a mulher contou que o pai delas sempre prometia virem ao pesque-pague, mas antes acabou saindo de casa e agora atrasava a pensão, mas com a graça de Deus “e meu trabalho”, falou firme, não faltava nada para as meninas, só um pouco de diversão.
Contou também que, com o décimo-terceiro, primeiro pagou umas contas, o material escolar das meninas, o imposto do Fufu, o fusca que o marido deixou quando foi embora com o carro maior, e só então falou filhas, hoje vamos ao pesque-pague.
         Então a menina maior fisgou um peixe, e as três pularam e gritaram, e tiraram o peixe da água numa alegria louca.
         Quando voltaram a pescar, a mãe ficou consolando a caçula, dizendo que o importante é pescar, não pegar peixe, mas a menina continuou a olhar a bóia com tristeza.
         A mãe contou também que agora está fazendo curso de informática, para ganhar mais, e, com a graça de Deus, tudo vai melhorar – e, quando falou, isso, a caçula fisgou seu peixe.
          Se a alegria de uma criança pudesse ser medida por notas, a alegria da menina merecia nota doze. Ela tremia de satisfação, com as mãos juntas, enquanto a mãe fez questão de tirar o peixe ela mesma, “a gente tem de aprender”.
         Depois foi pegar o cardápio no bar, contou o dinheiro da bolsa e pediu refris e sanduíches, comeram trocando olhares de ternura e confiança.
         Pegando o samburá, a mãe perguntou como as meninas queriam os peixes, assados ou fritos, e depois de muita conversa resolveram que um seria assado, outro frito e outro cozido, mesmo que desse mais trabalho, “vamos comer peixe de todo jeito”, a mãe resolveu e as filhas olharam para ela orgulhosas.
         Fui pegar uma cerveja no bar e, lá do carro, elas acenaram, a mãe buzinou e descobri porque o fusca chama Fufu.
         Pensei como iam dividir um peixe pequeno a cada refeição, um assado, um frito, um cozido, mas isso não deve ser problema se comerem cada peixe com a alegria com que acenavam felizes. Felizes. Fe-li-zes.
 
 
  
 
Por Domingos Pellegrini (em 23/02/2010 @ 10:26:24, em jornal, lido 34 vezes)

 

PEQUENICES
 
 
 
 
 
Miniaturarte de Hélio Leites
 
 
         A estas altura (ou baixura) da caminhada, não me interessam mais grandezas que antes me apaixonavam, como ideologia, política, poder, mudar o mundo.
         Mas fico feliz quando consigo mudar alguma coisinha. Fiquei feliz ontem ao conseguir catar uma garrafa pet no bueiro, espetando com uma vara com prego na ponta.
         Fico feliz de não pegar fila em banco.
         Fico feliz de achar vaga fácil para estacionar, e ainda mais feliz se for na sombra.
         Fico feliz de achar abacaxi sem marcas de pancadas, neste país de abacaxis batidos na colheita, batidos no transporte, batidos na descarga, pobres abacaxis. E fico ainda mais feliz se o abacaxi estiver maduro.
         Fico feliz de parar num semáforo sem alguém fazendo malabarismo ou entregando papelzinho. Mas se o malabarista é bom, dou uma moeda, feliz por poder dar uma moeda em vez duma moedinha.
         Fiquei feliz de encontrar um colega de Tiro de Guerra no ônibus-leito, feliz de lembrarmos de nossos queridos sargentos, os homens mais decentes que conheci naquela ditadura com hipócritas e crápulas e carreiristas de direita e de esquerda. Foi uma conversinha de poucos minutos, antes que se apagassem as luzes do ônibus, mas me deixou muito feliz. Melhor uma conversinha boa do que um longo discurso chato, né?
         Fico feliz quando em cerimônias os discursos são curtos, e mais feliz se não há cerimônia.
         Fico feliz que só vendo quando flore uma das orquídeas que plantei e esqueci.
         Fico feliz quando levanto no meio da madrugada, urino e, antes de voltar a deitar, tomo um copo de água, sentindo a água descer pelo esôfago seco.
         Fico feliz de lembrar que antes dormia sem acordar para urinar mas, também, não sentia tantos pequenos prazeres como hoje. As estações do ano passavam e eu só sentia duas, o verão e o inverno, e agora fico feliz de sentir os invernicos no outono, os veranicos na primavera, um desfile de dezenas de estações no ano.
         Fico feliz de sentir a brisa na pele suada de trabalho ou molhada de banho.       
         Fico feliz de sentir o aroma do vinho antes de beber, apesar de nunca encontrar os tais aromas de frutas e especiarias de que falam os rótulos.
         Fico feliz de melhorar uma palavrinha num texto, botar um legume colorido no prato.
         Outro dia fiquei tão feliz vendo uma lagartixa, depois de longa e vagarosa caçada, conseguir abocanhar um mosquito.
         A eternidade não é feita de momentos? Não é o momento o único pedacinho disponível da eternidade? Então: as pequenices são os tijolinhos da felicidade.
         Agora, com licença, vou pegar aquele limãozinho ali, espremer naquela caneca de lata cheia de amassadinhos, e fazer uma limonada com gelo picadinho, para tomar em golinhos bem devagarinho, suspirando de prazer, como as reticências são suspiros das palavras...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
        
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
        
        
        
          
          
 
Por Domingos Pellegrini (em 08/02/2010 @ 09:02:54, em jornal, lido 30 vezes)

 

 
 
 
        A HERANÇA
        
         Fui encomendar uma pizza aqui perto da chácara, e na Avenida Nova Londrina, diante da pizzaria, vi um senhor de seus setenta anos, magro, sem camisa, aparando a grama da ilha com um alfanje.         Na sua imagem clássica, a Morte aparece de capa e capuz negros, com um alfanje nas mãos, a indicar que é ceifadora de vidas.
         Mas o alfanje é uma espécie de foice criada para ceifar trigo, com cabo longo permitindo que a gente corte rente ao solo sem precisar se curvar. 
         E o homem manejava bem, rapando a grama com golpes precisos, mostrando traquejo. Como a espada árabe, a cimitarra, também é chamada de alfanje, e como muitos chamam o alfanje apenas de foice, não resisti perguntar:
-         O senhor sabe o nome dessa ferramenta?
- Alfanje – ele falou passando a mão na testa suada e continuando a ceifar - É uma beleza pra cortar grama alta.
-         E a prefeitura paga pro senhor capinar aí?
Ele riu:
-         Pagam nada! Mas já fazem muito de não atrapalhar.
Lembrei então que o alfanje de cabo curto aparece no símbolo do comunismo, cruzado com martelo, e comunismo me lembrou comunidade:
-         É a associação de moradores que paga o senhor?
Só então ele parou para me encarar.
- Moço, ninguém me paga nada, eu faço isto porque não sei ficar parado. Faz bem pro corpo e pra cabeça.
Um menino olhava o idoso a suar de pingar do nariz, e adivinhei:
-         Seu neto? Também sabe usar o alfanje?
O homem riu.
- Esse aí é que nem essa moçada de hoje, só sabe usar celular e computador...
A dona da pizzaria veio para a rua e falou que o homem é seu pai, ficou olhando com orgulho. Reparei então que ele já ceifava além da parte da ilha diante da pizzaria.
-         Então ele não ceifa só diante da pizzaria de vocês?
Ela riu:
- Ele vai ceifar a ilha toda! Ele diz que baixando a grama fica de alto astral!
O homem voltou a passar a mão na testa, depois nas calças, para o cabo do alfanje não ficar escorregadio de suor, e continuou a ceifar.
         Fiquei mais um tempo olhando aquela imagem de vida, embora usando o alfanje da morte, e também imagem de dedicação comunitária, embora sozinho. E perguntei ao menino:
-         Gosta do seu avô?
Ele balançou a cabeça várias vezes, sorrindo, e eu tive a certeza de que o avô está deixando para o neto uma herança inestimável. Meu nono José também falava que essa é a maior herança, que não pode ser comprada nem é vendida:
-         É o exemplo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Por Domingos Pellegrini (em 01/02/2010 @ 15:50:56, em jornal, lido 41 vezes)

 

 

 

OH, ÓCULOS
 
 
 
         Usei óculos até os dezesseis anos, quando passei a usar lentes de contato. Mas, agora aos sessenta, se usar duas lentes, tenho de afastar o jornal para ler. Se não usar nenhuma, tenho de encostar o nariz na página para ler. Por isso, uso só uma, assim não preciso tirar para ler, ficando com um olho para longe, outro para perto. Sou um bifocal orgânico.
Em algumas fotos me vejo de óculos, adolescente, e só consigo lembrar que me davam um dilema: ou deslisavam pelo nariz, de modo que eu tinha de empurrar para cima a todo minuto, ou, se ajustava suas pernas, doíam atrás das orelhas. Era o caso de usar óculos leves, de armações finas, mas me pareciam coisa de velho. Quando John Lennon começou a usar óculos sem armação, já era tarde, eu já usava lentes.
Minha amiga Inês conta que os acidentes com seus óculos dariam uma novela, pois que dêem uma crônica.
- Já quebrei tantas pernas de óculos – conta ela – que, se juntasse todas, daria para formar uma centopéia ocular. E também já perdi a conta das vezes em que deitei de óculos e até dormi de óculos! Uma noite, sonhei que tinha perdido os óculos e procurava, procurava e não achava, então desesperada botei as mãos na cabeça, e acordei assim, com as mãos na cabeça, descobrindo que tinha dormido de óculos...
Na verdade, ela usa dois pares de óculos (pois são dois, o direito e o esquerdo, embora haja uma ótica chamada Casa do Óculos). Um dia, Inês começou a procurar os óculos escuros pela casa toda, até entrar no quarto, quanto tudo escureceu: ela estava com os óculos...
Noutra vez, entrou no carro e começou a procurar os óculos, pois tinha certeza de que tinha saído de casa com eles.
- Procurei no painel, no piso, em tudo, e nada. Aí liguei para minha filha, que tinha saído de casa em outro carro, eu queria confirmar que tinha saído de óculos. Ela falou que sim, e me mandou procurar nas costas, onde eu tinha colocado os óculos, pendurados pela correntinha, para dar um abraço nela...
Aliás, Inês conta que também já conseguiu perder a correntinha usada para não perder os óculos.
- Tirei a correntinha para arrumar um dos elos, fui atender o telefone e, depois, cadê? A correntinha só apareceu no dia seguinte, porque deixei sobre um jornal aberto, que depois fechei para procurar por ela. Ainda bem que alguém pegou o jornal para ver um classificado...
 E, quando entra no chuveiro de óculos, Inês agradece:
- É sinal de que estou muito preocupada com alguma coisa, então procuro relaxar.
Por tudo isso, acredito que óculos não servem apenas para a vista, como diz o caboclo, mas também para a gente não perder de vista que somos falíveis, sempre andando entre distraídos e estressados.
E já viu como nenê no colo gosta de puxar óculos? Porque óculos são muito interessantes, conforme Inês:
- Tem dois olhos, duas pernas e nenhum corpo. Existe bicho mais esquisito?
 
 
 
 
Por Domingos Pellegrini (em 18/01/2010 @ 08:54:18, em jornal, lido 84 vezes)

 

 
 
 
PERGUNTAÇÃO
 
-         Vô, por que a gente faz cocô?
O avô pergunta por que perguntar uma coisa tão boba.
- Porque você quem falou, vô, que não existe pergunta boba, e que a gente deve perguntar tudo que quiser.
O vô diz que é verdade, afinal fazer cocô é importante:
- Já pensou se o cocô ficasse dentro da gente? Você ia chegar na minha idade com cem metros de altura! Porque gente come três vezes por dia, né, e é por isso que faz cocô!
-         E por que a gente come, vô?
- Sabia que ia perguntar isso. A gente come pra ter energia pra funcionar, que nem carro precisa de gasolina ou álcool.
-         Mas a vó diz que você não devia beber tanto álcool, vô.
O avô diz não bebe pra ter energia, mas porque é gostoso.
-         E eu gosto de fazer cocô, vô, é pecado?
-         Que bobagem! Claro que não!
-         É que a vó falou que quase tudo que é gostoso, é pecado.
-         É que tua vó só vê sujeira no mundo...
-         Então o que ela viu nocê, vô?
O avô fica pensando. O neto aponta uma nuvem:
-         Por que nuvem não pára quieta, vô?
O avô pensa em falar de vapor e ventos etecétera, mas prefere dizer que é porque nuvem é igual guri:
-         Nuvem tem vento na bunda, guri tem fogo no rabo.
-         Eu não tenho rabo, vô.
- É modo de falar. Mas gente já teve rabo, quando ainda vivia em árvores como macacos. 
-         Você e a vó moraram em árvore, vô?!
- Nós não, os nossos antepassados, o bisavô do trisavô do tetravô do nosso quaquavô, muito tempo atrás!
O neto fica olhando o avô, até perguntar:
- Como você sabe que eles tinham rabo? Tem fotografia?
O avô fica pensando, o neto diz que não precisa responder:
- Quando você suspira, vô, é porque não sabe. Mas que pena que a gente não tem mais rabo.
-         É? Por que?!
- Porque você reclama que os netos nenês puxam sua barba ou seus óculos, vô, e então eles podiam puxar só seu rabo, né?
         O avô diz que não sabe qual é pior, se a idade da puxação ou a da perguntação.  
         - Que que é perguntação, vô?
O avô suspira, diz que perguntação é pergunta demais.
-         Eu pergunto demais, vô?
-         Mais ou menos.
-         Mais mais ou mais menos?
O avô fica olhando as nuvens.
- Onde é a bunda da nuvem, vô?
- Depende; se a nuvem está de ponta-cabeça, a bunda é em cima. Senão, é embaixo.
O neto faz cara de quem agora realmente entendeu.
-         E por que nuvem escurece, vô?
- Porque as nuvenzinhas fazem muitas perguntas pra elas, então vão ficando escuras, entende?
- Entendo, vô: gente suspira, nuvem escurece. E gente urina, nuvem chove, né, vô? Mas por que mulher só urina sentada?
         O avô suspira.