Quarta-feira, Junho 18, 2008

Da Gazeta do Povo:

NA FILA

- Mas essa fila não anda!
- Mas se andasse não era fila, era fila indiana.
- O que?
- Fila indiana, um andando atrás do outro.
- O senhor parece até que gosta de fila.
- Por que não? É democrática, né?
- De-mo-crá-ti-ca? O senhor sabe que os bancos têm os maiores lucros da histórica bancária do mundo, do mundo! mas nem por isso contratam mais caixas? Para ter mais lucro ainda, deixam a gente aqui em pé, mesmo sendo proibido por lei, porque sabem que, para acionar a lei, a gente tem de entrar em fila maior no Procon ou esperar anos na Justiça, e o senhor diz que é democrático!
- Calma, o senhor ficou até vermelho de raiva...
- Mas não é pra ter raiva?! Então o senhor deve achar que também é democrática fila de hospital, onde as pessoas esperam horas para ter um serviço pelo qual já pagaram nos impostos embutidos em tudo que a gente compra!
- Ih, agora o senhor tá ficando roxo...
- É a cidadania arco-íris, a gente vai do vermelho de raiva ao roxo de ódio!
- O senhor tem ódio de mim?
- Não, o senhor desculpe, ah, meu Deus, a gente perde a cabeça, eu tenho tanta coisa a fazer e fico aqui doando meu tempo, obrigatoriamente, para o lucro dos bancos...
- Se é obrigatório não é doação.
- Exatamente, agora o senhor falou uma coisa certa. É um paradoxo, somos obrigados a doar, porque não encontramos um meio de reagir, acabamos aceitando, feito uns... uns bovinos!
- Mas não é exatamente um paradoxo, parece mais uma contradição.
- Ah, é?! E sabe o que o senhor me parece? Um acomodado, um conformado, um... um... imbecil letrado!
- Impossível. Quem é imbecil não consegue ser letrado.
- Então o senhor é só um imbecil, pronto! Satisfeito?
- Nem sim nem não, porque não estou procurando satisfação nenhuma.
- Claro, o senhor é um perfeito acomodado, e deve estar na fila só por esporte, né?
- Por esporte não, mas por convivência, né. Se não entrasse na fila, não estaria conversando com o senhor.
- Peraí, só falta o senhor me dizer que entrou na fila por nada, não tem nada a pagar nem receber, só...
- Só pra passar o tempo, sim.
- O senhor tá brincando comigo, né, é um gozador, não é?
- Não, mas...
(Chega mulher: )
- Oh, pai, o senhor taí! Vamos pra casa já, e agora eu vou botar cadeado no portão!
- Peraí, dona, o seu pai aí, ele...
- Ele foge de casa, ainda bem que estava medicado, calmo, senão pode até ficar violento.
- Eu preferia, preferia ao menos alguém perdendo a calma nessa maldita fila. São todos uns bovinos...
(Mulher se afasta com o pai. Homem de trás reage: )
- O senhor me chamou de bovino?
- E não somos todos uns bovinos? Todos aqui feito gado, esperando pra dar lucro ao banco, que nem nos paga juros sobre o dinheiro que depositamos, nos faz trabalhar de graça nos caixas automáticos e...
- O senhor pode fazer tudo pela internet.
- É, e por que o senhor não faz? Pra ter o cartão clonado, a senha copiada, a conta roubada? Banco era pra dar segurança, mas nem isso!
- O senhor é do contra.
- Não, sou a favor! A favor da cidadania, da... Ai!
(Homem cai com a mão no peito. Outros se agacham sobre ele, meio que desmanchando a fila. Então a fila anda, contornando o homem deitado com a mão no peito. Alguém comenta baixinho: )
- Coitado, é no que dá viver reclamando... A gente tem que agradecer mais, isto sim. Parece até coisa de Deus, né: ele saiu da fila, a fila andou...


1 Comentário:

Anonymous Mário Jaceguay said...

É a "Evolução", como já escreveu Mário Quintana:

"Evolução
Antes, quase todo mundo passava a vida em salas de espera. Mas, agora, em vez daquele abafamento, é nestas longas filas de espera, ao ar livre, em plena rua."
(Em A vaca e o Hipogrifo)

Assim, continuamos evoluindo...

Quarta-feira, Junho 25, 2008 9:49:00 PM

 

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