Segunda-feira, Junho 02, 2008

Da Gazeta do Povo:








ROMANCE
DAS FRASES FEITAS


Eu a conheci num dia inesquecível, de céu azul de anil e sol radiante.

Eu vinha de trabalhos fatigantes, e levava a vida em devassidão, mas meu coração pecador era gruta escura pronta para receber a luz redentora.

Com sua sinuosa silhueta envolta por manto inconsútil, ela me lançou seu sorriso encantador e seu olhar envolvente, enquanto seus longos cabelos esvoaçavam ao vento.
Relutei indeciso e, descrente do sortilégio, desconfiei do destino.

Mas ela me entendeu sua mão amiga, com a graça de uma fada e a inocência de uma santa.

Em torno de nós clamava o comércio, a inveja nos dardejava, a maledicência nos vitimava, o ciúme envenenava, as calúnias apedrejavam, a ironia destilava, a intriga sussurrava e o sarcasmo sublinhava, o tédio suspirava, os boatos corriam mas a brisa, ao menos, refrescava.

Eu ainda era dominado pelos apetites da carne, mas ela plantou em mim o germe do espírito, com apenas três palavras:
- Eu te amo.

Quanto em apenas dois pronomes e um verbo! - e eu até desconfiaria de tanto, se não soubesse de antemão quão poderoso é o amor à primeira vista.

Subimos então aos píncaros da felicidade, vivendo o gozo dos amantes, a cegueira dos apaixonados, o enlevo dos enamorados, presos pelos laços da ternura, pelas cadeias dos predestinados, consumidos pelas chamas (e pelos grilhões) da paixão, entregues às delícias do amor sem fim.

Mas os problemas do dia a dia e as desavenças do cotidiano logo começariam a corroer nossa felicidade indizível.

Os menores aborrecimentos se juntavam aos impecilhos mais comezinhos, acompanhados sempre de desastrosos imprevistos, sem falar nas reveladoras coincidências, como quando eu ia ao vaso sanitário e descobria, pela indisfarçável fragrância, que ali ela estivera pouco antes.

Tudo conjurava para nossa separação, dos contratempos mais problemáticos aos piores pressentimentos, como quando ela inventou de me visitar no trabalho e me flagrou fazendo pesquisas íntimas com a secretária.

O vírus do ciúme a inoculou e, em despeitada vingança, ela começou a me trair com meu contador, que passou a confundir receita e despesa com calamitosas consequências.

No entanto, enquanto durou, nosso amor teve inesquecíveis momentos e gloriosas passagens.

Fizemos venturosas viagens e tivemos memoráveis jantares, opíparos almoços e alegres piqueniques.

Fizemos amor ansiosamente, como vivemos momentos de doce ternura.
Passeamos despreocupados, caminhamos lado a lado, percorremos trilhas, vadeamos riachos, subimos encostas, descemos rampas, palmilhamos praias, transpusemos precipícios e pontes, unimos nossas trajetórias e miramos o horizonte com os pés no chão, a não ser quando na roda-gigante.

Sentimos o amargor das decepções mas também o sabor do sucesso.
Plantamos as sementes da esperança, cultivamos o trabalho, colhemos os frutos da perseverança, mas a sombra da desgraça se abateu sobre nossa felicidade.

Sem saber como apagar as más lembranças, como resistir aos pecados, como superar os impasses, como driblar os imprevistos, como crer na redenção, como levantar o ânimo, como lavar a alma, como fortalecer a fé e como transformar os limões em limonadas, sucumbimos à descrença, carregados de culpas, retaliados de remorsos, corroídos pelo ciúme, dilacerados pela angústia, com os corações feridos, os corpos combalidos, as almas penadas, o espírito inconsolável, dominados pelo tédio, conformados à rotina, espezinhados pela baixa-estima.

Enfim, marcamos um último encontro para acertar nossas desavenças, mas ela se atrasou irresponsavelmente e eu, em vista do adiantado da hora, fui tocar minha vida, sem olhar para trás, seguindo em frente, esperando algum dia encontrar o verdadeiro amor, com quem viver enfim um romance sem fim.








2 Comentário:

Blogger Alan Carlos said...

isso me lembra aquela música de cartola, tive sim.

Segunda-feira, Junho 02, 2008 11:28:00 AM

 
Blogger Mariza Vitoria said...

Será que existe esse tal "romance sem fim"? Só se for lá no outro plano...
Adorei seu texto. Muito bom como sempre.
Abraço

Terça-feira, Junho 03, 2008 9:53:00 AM

 

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