Segunda-feira, Maio 26, 2008Do Jornal de Londrina:
![]() P A P O P R É - C I R Ú R G I C O
- Como é, tudo bem? Preparado? - Penso que sim, doutor. Ontem me deram um purgante que me fez visitar o vaso de hora em hora durante a noite, pensei até em levar o travesseiro pra lá. Hoje cedo lavei o que sobrou de mim, depois me rasparam os pelos do umbigo pra baixo, me botaram nesta camisola tão curta que quase as baixezas, me deram um sedativo que está me deixando tonto, então imagino que estou pronto. - Ótimo, está de bom humor. - Bom humor ajuda a cicatrizar, doutor? - Falando sério, se a pessoa fica tensa, com a mente em estado de defesa, pode precisar de mais anestesia. - E anestesia sempre pode matar, né, doutor? - Conversa. - Pois é, estamos conversando. Qual a porcentagem de óbitos por choque anestésico, doutor? - Ínfima. - O que mata mesmo é infecção hospitalar, não é? - Não, meu caro, o que mata mesmo é doença não curada. - Mas andei pensando, ou melhor, deitei pensando na infecção hospitalar, doutor. O senhor sabia que foi inventada ao mesmo tempo que a enfermagem e pela mesma pessoa, não é? - Florence Nightingale, não é? - Pois é, enquanto Pasteur descobria os micróbios no microscópio, mas ainda não tinha atinado que causavam infecções, ela, inaugurando a profissão de enfermagem e sem desconfiar de micróbios, mandou limpar as enfermarias e a infecção hospitalar desabou. Era um hospital de guerra, e antes de Florence morriam mais soldados por infecção nos hospitais que nas batalhas... - Mas hoje a prevenção sanitária evoluiu tanto que... - ...que os micróbios também evoluíram junto, não é? Pesquisei na internet: foram se acostumando tanto com os antibióticos e com os desinfetantes, que hoje existem cepas de micróbios super-resistentes e... - Descanse, meu caro, já estão liberando a sala cirúrgica, encontro você lá. Até! - Até, doutor. Pois é, se estão liberando a sala cirúrgia, é porque estava ocupada por outro, com seus micróbios... Ei, enfermeira, posso tomar água? Não? Ah, sim, por causa da anestesia. Sabe qual a porcentagem de infecção neste hospital? - O senhor desculpe, até o ano passado a gente sabia, mas agora é assunto sigiloso. - Ah... - E mesmo que a gente soubesse, não poderia dizer, baixaram norma proibindo. - Ih... - O senhor está sentindo alguma coisa? - Mau pressentimento. E frio nos pés. - Mas infelizmente não posso lhe vestir meias, é norma cirúrgica. - Posso mascar chiclete? - O senhor sabe que... não sei?! Por via das dúvidas... - Tudo bem. Podia ficar rolando saliva, se não estivesse com a boca seca. - É efeito do sedativo. O senhor já devia estar grogue. - Estou grogue, falando assim pra disfarçar o nervosismo. - Não adianta ficar nervoso, é deixar nas mãos de Deus. - Estou pensando é nas mãos do médico, tomara que lave direitinho. - Lava, esfrega, escova, esteriliza, ele deve estar fazendo isso agora. - E quem é que afia os bisturis? - Que idéia, mas foi bom o senhor lembrar. Alô, Marinete? Anota aí que é preciso mandar afiar os bisturis, faz semanas que o doutor mandou mas esqueci, menina! Marinete... Ei, aonde o senhor vai? Alô, Marinete! Alerta a segurança, tem um paciente fugindo, vestido pra cirurgia! E é grandão, meu Deus, a camisola ficou super curta, tá aparecendo tudo! Alô, Marinete! Marinete! Ah, esse telefone!... 2 Comentário:
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