Terça-feira, Maio 20, 2008

Do Jornal de Londrina:

NOTÍCIAS DA CHÁCARA

AMOROSAMENTE, há coisas que só se deve fazer amorosamente, com vagar e cuidado, como colher frutas para presentear. Fizemos feijoada e, um dia antes, peguei escada e sacolas, fui para as laranjeiras, sem pressa, para colher as laranjas com calma e prazer. Não era tarefa nem obrigação, era uma gostosura feita de sol e céu, cores e suor. Colhendo poncãs, algumas caíram de maduras, descasquei para os cachorros, eles comem com caudas abanando e olhos agradecidos. No dia seguinte, depois da feijoada, cada convidado saiu levando uma sacola de laranjas, limas e poncãs. Espero que tenham gostado, mas quem mais gostou fui eu. Nada como ter para dar.

É certo que tudo passa
mas ser não é só passar
se a gente pratica a graça
de tanto ter quanto dar

CALHEIRO colocou calha na frente da casa e... na primeira chuva, desabou feito fruta madura. Por telefone, falei que fiquei tão chateado que nem queria que ele consertasse, ia procurar outro. Dalva insistiu que eu devia dar ao homem o direito de corrigir o serviço, enquanto eu achava que ele ia ficar me enrolando e eu passaria raiva depois da chateação. Enfim acabei ligando de novo para ele, que se mostrou aliviado, dizendo que queria refazer a calha e ficara muito chateado de eu não deixar. Dalva diz que tem muita gente boa neste mundo, e que devemos esperar de todos o melhor, até prova em contrário.

Quem só julga os outros mal
sempre faz, pensando bem,
mal para si afinal
depois de aos outros também...

PEQUENOS, quanto menores são, mais garra tem de ter. O musgo é o mais antigo dos vegetais e não se extinguiu como as imensas árvores que viraram petróleo, ou como as florestas que cobriam a Itália e viraram navios, barricas, carroças, móveis e fogueiras de rituais, como as árvores da Ilha de Páscoa, que o povo devastou e se extinguiu junto com elas. A peroba, tão alta, é um bebezão vegetal, a árvore mais recente da floresta intertropical, por isso têm raízes rasas e, sem a proteção da floresta, cai com a ventania. O musgo, não, até resseca nas secas, fica cor de palha, mas basta chover e volta e enverdecer. Menino, lembro do musgo enverdecendo as mãos de subir na mangueira depois de chuva. Musgo cobre tronco, terra e pedra, adaptável como só.
Então revesti de tijolos a passarela do portão para a casa, ficou bonito, mas logo o musgo começou a enverdecer os tijolos, Analu alertou: - Vai virar sabão, dar escorregão! O pedreiro raspou os tijolos com escova de aço, passou impermeabilizante, lá ficarão os tijolos revestido e imunes à cobertura verde do musgo, floresta em miniatura. Recolhi a raspa de tijolos e musgo, coloquei em vasos.

Em tantas formas
enfim como for
tudo se transforma
seja em pó ou flor.

GUERRA contra os ratos, novo capítulo. Descobri que é preciso fechar a porta da cozinha já logo que anoitece, pois eles vão ficando cada vez mais ousados e, mal escurece, querem se enfiar na casa. Escalam a parede, não sei como, e se enfiam pelos vitrôs da janela, que agora fecho também. Eles vêm do quintal, passam pelo porão, onde não há o que comer, sobem a escada da garagem, chegam ao terraço e aí... comem os variados venenos que coloco, voltam para o quintal para morrer, os cachorros acham os corpos, trazem na boca, deixam na porta. Elogio, afago, eles ficam felizes. Ratos servem ao menos para alegrar cachorros. E para me lembrar que, por mais que me ache grande e inteligente, tenho pequenos inimigos terríveis, hábeis e tinhosos, todo cuidado é pouco, desde que não vire neurose e assim vitória deles. Portanto, vamos continuando nossa guerra com inteligência e bom humor, como Churchill, enquanto Hitler babava ódio e raiva... Como digo a Dalva:

Não me tirarão o humor
por mais que roam os ratos
enquanto eu tiver fosfato
e eles gula, meu amor.

FORMIGAS também combato sempre. Como ratos, pombas e baratas, proliferam porque encontram, com os humanos, comida e ambientes sem predadores. (Aranhas não proliferam, graças às lagartixas.) Mas um tipo de formigas se esconde cavando formigueiros, em cujas entradas basta despejar veneno, a gravidade se encarrega de levar ao fundo. Outro tipo ergue formigueiros de folhas picadas, onde basta despejar álcool e botar fogo. São como os impérios, que crescem criando as condições para a própria destruição. Macedônico, Romano, Maia, Britânico, Otomano, nenhum se perpetuou, e agora o Americano se contorce na decadência. E a gente também tem, dentro, o mesmo combustível que more os impérios:

Ganância, ambição, usura
são como os grande impérios
que constróem tão a sério
suas próprias sepulturas.

PLANTA não gosta de um lugar, não cresce, embirrada feito criança maltratada, sem soltar seu sorriso flor. É mudar o vaso de lugar, botando em outro canto, às vezes até menos iluminado, mas onde não venta tanto, e pronto, a planta cresce e flore feito gente com carinho e elogio. Eu não percebia que iam mal as orquídeas que estavam num canto do terraço, apenas achava que andavam lentas no crescimento, mas Dalva, com seu olhar interior e intuição feminina, falou não, aqui não é lugar para vocês. Mudou os vasos para outro canto, as orquídeas floriram.

Gente é igual a folhagem
que flore com água e trato:
timidez vira coragem
e vira encanto o recato

4 Comentário:

Anonymous maray said...

Aqui em casa tem umas formiguinhas "nerds": elas moram dentro do computador ou da torre, acho eu. Tá bom que minha filha tecla com uma mão e come bolachas com a outra, e as formigas devem agradecer o banquete. De minha parte, eu, míope desde sempre, já que não as enxergo e só sinto os passinhos pelas mãos e pelos braços, aprendo a conviver. Dá uma coceirinha na pele, mas é só.
Os pequeninos herdarão a terra, não é assim??

Terça-feira, Maio 20, 2008 11:52:00 AM

 
Blogger Mariza Vitoria said...

Eu concordo com a Dalva: deve-se sempre esperar que as pessoas mostrem o seu melhor, até prova em contrário.No mais, é aproveitar tudo de bom que a natureza nos oferece.No meu sitio em Itatiba, quando vou colher as mexiricas, limões, amoras e acerolas, vou sempre agradecendo pelo momento sublime...
Um abraço

Terça-feira, Maio 20, 2008 8:54:00 PM

 
Blogger FILOSOFASTRO said...

A timidez vira coragem? Tomara que sim, já não sei o que faço com a minha. Às veses fico imaginando que vou ficar vermelho, com todo mundo me olhando, no caixão depois de morto. É uma prisão.

Quarta-feira, Maio 21, 2008 8:17:00 AM

 
Anonymous Anônimo said...

Maray, cuidado! Formigas roem os circuitos impressos do computador, inviabilizando a máquina.

Mariza, daqui a pouco vou colher laranjas champanhe, que são grandes, de casca grossa, com cheiro e gosto de mexirica (as cascas, pois as laranjas são híbridas de baranja baiana com mexirica, cho que criação da Embrapa) para dar a minha ex-mulher, Marta, mãe de Ana Luísa, minha quarta filha, mãe de meu primeiro neto, Caetano. Marta cortda as cascas em tiras, seca e recobre de chocolate, ela faz chocolates para festas e restaurantes, muito chiques.

Engraçoa, Filosofastro, você se diz tímido mas usa um pseudõnimo de astro...

Quarta-feira, Maio 21, 2008 8:34:00 AM

 

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