Botei na cabeça que vou morar na praia, depois que Analu se emancipar, os outros três filhos já estão pelo mundo. E será uma praia assim, quieta, sem agitos nem carros de som, onde poderei ir à praia com os cachorros sem coleira (e com o saco de plástico para coletar o cocô deles, sim). A casa deverá ter vista para o nascente e o poente, os dois gratuitos maiores espetáculos no planeta. O terreno será a uns quinhentos metros da praia, para ouvir bem longe o barulho das ondas, e também para que seja uns 10 metros acima do nível do mar. Os oceanos subirão, se continuar o aquecimento global, como certamente continuará. Só quando cidades costeiras forem inundadas providências pra valer serão tomadas.
Aliás, o noticiário sobre a catástrofe em Nova Órleans foi me intrigando: eram só negros que apareciam desalojados, famintos, desesperados. Até que caiu a ficha quando noticiaram que o atraso do governo Bush em socorrer as vítimas pode ter sido porque são quase todos negros... Aí fiquei matutando: os brancos, claro, de classe média para cima, fugiram de carro, enquanto os pobres negros ficaram não só por falta de transporte mas, também, decerto por apego às suas poucas posses. Quem tem uma bela casa, se manda sabendo que o seguro pagará os estragos ou a reconstrução. Já quem tem só um rádio e uma cama, sobe na cama e abraça o rádio enquanto a água sobe...
O que fica claro é que o planeta está mostrando sua zanga com as mudanças provocadas pelo bicho homem. Secas, enchentes, variações de temperatura como nunca antes, aquecimento dos oceanos, veranicos tão prolongados e quentes que parecem verões no meio do inverno. Chuvas de granizo fortes como só. E em janeiro veremos de novo os deslisamentos de terra nos morros favelados e depelados.
Agora decerto vão construir uma nova Nova Órleans, com diques que funcionem etc. Mas aqui nos morros a farra favelária decerto vai continuar até um grande desastre, uma chuvarada que varra os morros e faça milhares de mortos. Aí lançarão um grande plano habitacional e recuperador das encostas. O bicho homem parece que só aprendendo apanhando, né? Então que apanhe. A esta altura da vida, estou começando a deixar de ter dó, embora não consiga deixar de entristecer.
TEMPÓTICAS HIPÓTESES
OS CHÁPÉUS SE FORAM PORQUE: 1) Eram resquício de um mundo rural 2) As cabeças mudaram 3) Surgiram os bonés
AS ANÁGUAS ACABARAM PORQUE: 1) As saias encurtaram 2) As mulheres se liberaram 3) Só Deus sabe porque
Fonte da Poesia
PRIMAVERA
O ar seco de setembro me sedenta cada gole de água é gostosura no vento pó e pólen se misturam com borboletas e nuvens de insetos
Faltam semanas mas já se inaugura a primavera em fúria florescente enquanto a hera verdolentamente volta a envolver com sua manta o muro
Ainda é inverno só no calendário de flor em flor o beija-flor avisa e até a lesma tenta ser ligeira
Roupas velhas retornam para o armário e antes de refrescar minha camisa a brisa se perfuma em laranjeiras
Notícias do Sítio
TAMBOR cortado pela metade serve como churrasqueira no terraço, e o churrasco sai muito bom; alcatra só salgada depois que começa a suar sangue, aí viro e salgo, a carne não resseca, fica suculenta. Frango com fatias de bacon e bistela de porco, para grelhar, tempero só com limão-rosa e sal (marinho). Arroz, pão crocante, salada, e não é preciso mais para um belo almoço de sábado, prolongando tarde adentro. Aí, no embalo de chupar cana, passamos horas chupando cana e conversando, contando casos, lembrando histórias e rindo. A mastigação de cana contrai o maxilar, o riso descontrai. Até que o piso fica forrado de bagaços e cascas, como amarguras descarregadas. Quando o sol bica o horizonte, estamos de boca mole mole e alma doce.
TEMPORADA de escavação: os cachorros estão cavando buracos, principalmente por baixo do muro. No muro da frente, que dá para a calçada da rua, chegaram a cavar um túnel com mais de dois metros de comprimento, que deve estar já bem abaixo da calçada. Então lá vai o sitiante despejar entulho no buraco, já que eles parece que comem a terra que retiram, some! É que cavocam com vigor, pateando a terra para trás, e ela se espalha pelo terreno em volta, então preciso entupir os buracos com entulho. Pensando bem, é bom, pois eu tinha mesmo que dar destino ao entulho. Alguém me diz que as cadelas cavam na época do cio, preparando tocas para a prole. Mas Pingo e Bravo estão castrados, então logicamente Maga e Leta estariam perdendo tempo e energia. Mas se cachorro tivesse lógica não era cachorro. Na verdade, estão se divertindo, e tudo continua bem no sítio, apesar dos buracos no chão e na conta bancária.
ESTÃO FLORINDO ou já formando frutinhas: jaboticabeiras, mangueiras, laranjeiras, limeira, limoeiros, figueiras, parreiras, gabirobeira, tamarindeiro. Estão enfolhando os pés de caqui e framboeza, e enramando os maracujazeiros. Abóboras estão madurando. Passarinhos comem os últimos abacates. Cresce firme a nova caramboleira. Setembro é o mês da passagem de ano no sítio. Sem sirenes nem fogos de artifício, mas com muito canto de passarinhos e perfumes de floradas. Macacão molhado de suor, facão na mão, depois de três horas lidando com o sítio, olho o sol se pondo e bebo água de torneira na concha da mão. Os mosquitinhos da tardinha festejam em volta. Feliz ano novo!
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