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Domingo, Agosto 07, 2005

Fonte da Poesia


R E Z O





Não olho pro Céu
não bato no peito
a qualquer momento
rezo do meu jeito

Rezo de repente
no meio da rua
tanto em lua cheia
quanto sem lua
rezo que me clareia

Não rezo por mim
nem por ninguém
rezo por tudo enfim
rezo que só faz bem

Rezo por estar vivo
e não ser eterno
rezo que dá alívio
e rezando me livro
deste inferno

Mas rezo sobretudo
porque é gostoso
agradecer por tudo
milagres da natureza
desastres do mundo
a dor irmã do gozo
a bênção da beleza
o tempo de menino
os golpes do destino
e o diário renascer
tudo num segundo
entre vermelho e verde
numa esquina qualquer de
Londres ou Londrina
rezo que me ilumina

Essa menina é fogo!



O FOGO nos convida à reflexão, Dalva diz depois de passar três horas queimando galharia, das tantas podas e cortes de árvores e galhos caídos no sítio. Como todo dia deixamos cair cabelos e fragmentos de pele, um sitio deixa cair galhos e folhas. As folhas ficam no chão, mas os galhos, pelos menos os mais grossos que o braço da gente, é preciso queimar, ou abrigarão brocas e outros insetos. Aliás, deixo que quase apodreçam, abrigando mesmo esses bichos, que aí, na queima, também queimam junto.

Mas não era pouca galharada a queimar, uns dez metros cúbicos, "serviço de homem", mas Dalva resolveu fazer, enquanto eu cuidava de outras coisas. Com luvas de couro ela ficou jogando galhos no queimador, um cubículo que já foi pocilga confinando porcos e agora confina o fogo. Acabou o serviço suada e feliz, lembrando de seus tempos de menina na Selva (um distrito de Londrina). Lá brincava com os irmãos, caçando rãs e pescando carás em banhado, pegando preás com arapucas nos matos, rolando pelos barrancos dentro de pneu de trator.

- Olhando o fogo, lembrei de minhas paixões, os desafios que venci na vida e me jogaram para a frente. Quando mudamos para a cidade, estranhei muito. Não sabia brinquedos de meninas, e durante vários meses fui discriminada por elas, eu era a menina esquisita, que brincava com os meninos... Então ensinei brincadeiras de meninos para as meninas, e todos passaram a brincar juntos.

Um dia, leu uma peça de teatro, aliás a única que havia na biblioteca do colégio.
- Resolvi encenar a peça, formei um grupo, dirigi e interpretei o papel principal. Algumas pessoas disseram que gostaram muito, e até que era a melhor peça que já tinham visto. Falei que para mim também era a melhor, porque eu nunca tinha visto outra peça de teatro.

Depois, aos treze anos, resolveu trabalhar porque a situação estava muito apertada em casa.
- Peguei um ônibus, fui pra cidade. Fui entrando de loja em loja, dizendo que queria trabalhar. Um açougueiro me perguntou se eu já tinha trabalhado em açougue. Falei que não, mas que podia aprender rapidinho, e no dia seguinte estava trabalhando, ajudando nas despesas de casa e aprendendo a lidar com gente atrás do balcão.

A experiência valeu para o próximo emprego nas Lojas Americanas.
- Eu não tinha currículo, mas disse que precisava trabalhar, queria trabalhar e ia trabalhar o melhor que pudesse. E foi realmente o que fiz, o melhor sempre, até que depois de um ano já era chefe de seção.

Hoje, como franqueada de Treinamentos Dale Carnegie, Dalva treina homens e mulheres para habilidades de relacionamento e liderança. Faz o que gosta, gostam do que ela faz e vive sorrindo, acho que me apaixonei por seu sorriso antes de tudo.

- E acho que tudo começou – ela lembrou olhando o fogo – porque lá na Selva não havia meninas para brincar, no sítio onde a gente morava, mas eu me recusei a ficar sem brincar, fui brincar com os meninos. Destino é a gente que faz.

Pergunto das lembranças ruins, e ela diz que foram queimadas há muito tempo, não lembra mais.

- Como as brocas que queimaram junto com os galhos secos. Esqueci, não mais me farão mal...