Links

Prévia

Arquivos anteriores

Powered by Blogger

Segunda-feira, Junho 30, 2008

Da Gazeta do Povo:

ESPIRITICES


Espírito de porco você conhece, e deve conhecer também o espírito de pouco, só que ainda sem lhe dar esse nome.
Antes, lembremos que existe o espírito de corpo, ou corporativismo, que é a mentalidade da empresa ou instituição se defender a qualquer custo de toda crítica. Como quando disseram a Fidel Castro que muitas universitárias cubanas estavam se prostituindo, e ele respondeu:
- Não é que as universitárias cubanas sejam putas, é que as putas cubanas são universitárias!
O espírito de corpo é irmão do espírito de equipe, que vem a ser a garra e a cooperação para o trabalho em conjunto. Tem jogador que já mata a bola olhando para quem passar, enquanto outro mata a bola pensando em fazer firula para se exibir antes de tudo, depois ficando sem tempo para passar e perdendo a bola. Ou como diziam de Gerson:
- Ele mata a bola sem olhar para ela, mata a marcação olhando para um e passando para outro, sempre armando uma jogada mortal.
Existe também o espírito público, que é pensar e dedicar-se ao bem comunitário, sem pensar em benefícios pessoais. Ou o contrário do velho ditado:
- Farinha pouca, meu pirão primeiro!
Existe também o espírito empreendedor, que é o que orientou, por exemplo, aquele casal que recebia bolsa-família, bolsa-escola, bolsa-idoso para a sogra, e poupou para comprar tijolos e cimento, erguendo um barracão nos fundos e, com a bolsa-gás, cozinhando para a vizinhança, iniciando rede de cozinhas de bairro e gerando, como dizem os políticos, empregos e renda. E existe o espírito crédulo, de quem acredita que isso possa acontecer. Ou como escreveu Zé Dantas na música de Luiz Gonzaga:
- Tanta esmola para um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.
Mas deixemos de tanto espírito crítico, para lembrar da paz de espírito, que muitos pensam conquistar com honestidade e boa conduta, que virou moda chamar de ética. No entanto, um político me confessou bêbado:
- Eu roubo, chantageio, minto, engano os bobos e enrolo os espertos, mas durmo tranquilo, porque pra mim isso é o certo.
Certo? Para quem tem espírito maligno, o certo é fazer o errado, só se sentem bem fazendo o mal.
Para demonstrar a diversidade típica dos humanos, tem também gente que acredita em espíritos celestes, os anjos. E os católicos acreditam no Espírito Santo, simbolizado como pomba, aliás um símbolo que parece ter sido tomado pelo espírito de porco, diante da sujeira que a super-população de pombas faz nas cidades.
Elas são de variadas cores, mas seu cocô é tão branco quanto abundante, cobrindo calçadas, parques, monumentos, como uma maré ecocôlógica. Chove, a lama branca vira um sabão fedido e escorregadio. Faz sol, a lama seca e vira poeira infecto-apocalíptica.
Então levanta-se a ira popular nas cartas aos jornais, pedindo providências, enquanto bons espíritos continuam a super-alimentar as pombas com milho, pipoca e pão de montão. E assim as pombas, sem inimigos naturais nas cidades, viram praga visada pela saúde pública e defendida pelos eco-românticos.
Borbulha o imenso caldeirão da polêmica, até gerar a idéia de uma audiência pública onde autoridades e especialistas discutirão o que fazer diante de tal coproblema (copro, em Latim, é cocô...).
Depois de muito discutir, os espíritos de pouco conseguem impor sua visão: combater as pombas é crime ambiental, pois as pobrezinhas são vítimas do desequilíbrio ecológico causado pelos humanos, e dar-lhes comida com anticoncepcionais é pouco, pois o certo será fazer muito mais: reflorestar o mundo, diminuindo as cidades e repovoando os campos, para enfim as pombas terem seu velho habitat com seus inimigos naturais.
Para o espírito de pouco, fazer alguma coisa é sempre pouco, portanto não é possível fazer nada porque não é possível fazer tudo, entendeu? Não se combate o crime porque isso é pouco, o certo seria antes acabar com a pobreza e... Ah, deixa pra lá. Não quero parecer espiroqueta.

Terça-feira, Junho 24, 2008

Do Jornal de Londrina:




PRAÇA-ZERO

Na década de 1980, a cidade de Nova Iorque chegou a ter dois mil assassinatos por ano e 600 mil crimes graves. Todos os seis mil vagões do metrô rodavam sujos de lixo e pixados de cima abaixo, por dentro e por fora.
No meio da década, um novo diretor do metrô, David Gunn, começou a aplicar a “teoria das janelas quebradas” dos consultores Wilson e Kelling: manter os vagões limpos e em ordem, sem nada quebrado. Argumentavam: “desordeiros e ladrões acham que suas chances de ser presos diminuem se atuarem em ruas ou locais onde as vítimas em potencial já estejam intimidadas pelas condições reinantes. Se a vizinhança não é capaz de evitar que um pedinte aborde as pessoas na rua, o ladrão pensa que é menos provável ainda que chamem a polícia para identificar e prender ladrões ou agressores”.
Então os vagões começaram a ser limpos todo dia, com as pixações cobertas por pintura nova ou apagadas com solventes. As gangues levavam até três dias para pixar um vagão, primeiro pintando de branco, depois traçando o esboço, depois pintando, e então os zeladores do metrô cobriam as pixações...
Ao mesmo tempo, na chefia do trânsito da cidade, William Bratton começou a combater os 170 mil caloteiros diários do metrô, que viajavam sem pagar. Eram crianças que passavam por baixo da roleta, ou gente que empurrava a roleta ao contrário, e outros que, vendo isso, aproveitavam e passavam também, por se sentirem injustiçados de pagar se tantos não pagavam...
Como a passagem custava pouco mais de um dólar, os policiais deixavam pra lá, até porque era preciso algemar, levar à delegacia e perder um dia com as formalidades. Bratton, então, passou a comandar prisões em massa, os infratores algemados em pé na plataforma, formando uma corrente até irem para ônibus-delegacia, onde as formalidades duravam só uma hora.
Examinando a ficha criminal dos detidos, encontravam-se pendências, e muitos portavam armas. As prisões em massa, por causa de uma passagem de metrô, passaram a funcionar como arrastões preventivos. E os cidadãos de bem passaram a pagar a passagem aliviados e agradecidos.
Quando Rudolph Juliani foi eleito prefeito em 1994, nomeou Bratton chefe da polícia, e a mesma estratégia passou a ser usada para toda a cidade e todos os pequenos crimes: os “limpadores de parabrisa” nos cruzamentos, os bêbados nas ruas, os quebradores de garrafas, os urinadores em postes, os poluidores sonoros, os pequenos furtos.
A cidade se limpou do lixo moral da tolerância e da omissão, e o resultado dessa política de “tolerância zero”, como ficou conhecida, pode-se ver hoje: você pode andar sem medo pelas ruas de Nova Iorque de madrugada, livre da impunidade que embala os criminosos e da impotência que humilha os cidadãos. A limpeza foi coroada com a campanha “I Love NY”, e a cidade recuperou turismo e prosperidade.
Agora, em Londrina, a Praça Tomie Nakagawa pode ser a praça-zero para uma limpeza moral na cidade em visível processo de degradação. Mas não adiantará ter câmeras na praça se atrás das câmeras sentar uma polícia tolerante e preguiçosa. PM e Polícia Civil deverão agir juntas e prontamente, diante de cada pequeno delito, uma detendo e outra enquadrando nas leis. Prefeitura, empresários, vizinhos e transeuntes deverão estar atentos à limpeza e manutenção da praça, para que funcione a “lei do mitório”: onde há limpeza, quase ninguém urina fora do vaso; onde não há limpeza, urina-se até nas paredes.
Em Nova Iorque a limpeza urbana e moral se estendeu a toda a cidade, a partir de locais exemplares. Em Londrina, os efeitos da Praça Nakagawa podem se estender para as outras praças centrais e para os vários centros e praças dos bairros. É querer, começar e manter a atitudade de tolerância zero para futuro máximo.

Quarta-feira, Junho 18, 2008

Da Gazeta do Povo:

NA FILA

- Mas essa fila não anda!
- Mas se andasse não era fila, era fila indiana.
- O que?
- Fila indiana, um andando atrás do outro.
- O senhor parece até que gosta de fila.
- Por que não? É democrática, né?
- De-mo-crá-ti-ca? O senhor sabe que os bancos têm os maiores lucros da histórica bancária do mundo, do mundo! mas nem por isso contratam mais caixas? Para ter mais lucro ainda, deixam a gente aqui em pé, mesmo sendo proibido por lei, porque sabem que, para acionar a lei, a gente tem de entrar em fila maior no Procon ou esperar anos na Justiça, e o senhor diz que é democrático!
- Calma, o senhor ficou até vermelho de raiva...
- Mas não é pra ter raiva?! Então o senhor deve achar que também é democrática fila de hospital, onde as pessoas esperam horas para ter um serviço pelo qual já pagaram nos impostos embutidos em tudo que a gente compra!
- Ih, agora o senhor tá ficando roxo...
- É a cidadania arco-íris, a gente vai do vermelho de raiva ao roxo de ódio!
- O senhor tem ódio de mim?
- Não, o senhor desculpe, ah, meu Deus, a gente perde a cabeça, eu tenho tanta coisa a fazer e fico aqui doando meu tempo, obrigatoriamente, para o lucro dos bancos...
- Se é obrigatório não é doação.
- Exatamente, agora o senhor falou uma coisa certa. É um paradoxo, somos obrigados a doar, porque não encontramos um meio de reagir, acabamos aceitando, feito uns... uns bovinos!
- Mas não é exatamente um paradoxo, parece mais uma contradição.
- Ah, é?! E sabe o que o senhor me parece? Um acomodado, um conformado, um... um... imbecil letrado!
- Impossível. Quem é imbecil não consegue ser letrado.
- Então o senhor é só um imbecil, pronto! Satisfeito?
- Nem sim nem não, porque não estou procurando satisfação nenhuma.
- Claro, o senhor é um perfeito acomodado, e deve estar na fila só por esporte, né?
- Por esporte não, mas por convivência, né. Se não entrasse na fila, não estaria conversando com o senhor.
- Peraí, só falta o senhor me dizer que entrou na fila por nada, não tem nada a pagar nem receber, só...
- Só pra passar o tempo, sim.
- O senhor tá brincando comigo, né, é um gozador, não é?
- Não, mas...
(Chega mulher: )
- Oh, pai, o senhor taí! Vamos pra casa já, e agora eu vou botar cadeado no portão!
- Peraí, dona, o seu pai aí, ele...
- Ele foge de casa, ainda bem que estava medicado, calmo, senão pode até ficar violento.
- Eu preferia, preferia ao menos alguém perdendo a calma nessa maldita fila. São todos uns bovinos...
(Mulher se afasta com o pai. Homem de trás reage: )
- O senhor me chamou de bovino?
- E não somos todos uns bovinos? Todos aqui feito gado, esperando pra dar lucro ao banco, que nem nos paga juros sobre o dinheiro que depositamos, nos faz trabalhar de graça nos caixas automáticos e...
- O senhor pode fazer tudo pela internet.
- É, e por que o senhor não faz? Pra ter o cartão clonado, a senha copiada, a conta roubada? Banco era pra dar segurança, mas nem isso!
- O senhor é do contra.
- Não, sou a favor! A favor da cidadania, da... Ai!
(Homem cai com a mão no peito. Outros se agacham sobre ele, meio que desmanchando a fila. Então a fila anda, contornando o homem deitado com a mão no peito. Alguém comenta baixinho: )
- Coitado, é no que dá viver reclamando... A gente tem que agradecer mais, isto sim. Parece até coisa de Deus, né: ele saiu da fila, a fila andou...


Segunda-feira, Junho 16, 2008

Do Jornal de Londrina:



TERNURÃO


Antigamente a gente sentava em praça, agora sentamos em shopping, onde podemos ver gente passar sem ser incomodados por ambulantes, achacados por pedintes e eventualmente assaltados – porém sem direito a passarinhos, céu, sol e brisa, e porém-porém sem chuva também.
Enfim, sentado no shopping ouvi a seguinte conversa de dois idosos:
- Cadê a mulher?
- Fingindo que faz compras. Ela só finge, porque a aposentadoria mal tá dando pra pagar os remédios.
- Ah, minha mulher e eu jogamos fora os remédios, um por um, conforme a gente foi melhorando.
- Como?!
- Passamos a caminhar todo dia e a cuidar mais do que entra e do que sai da boca.
- O que sai?
- Reclamação, xingamento, palavrão, pensamento negativo. Da nossa boca não saem mais. Se você não reclama, a dor não bota banca. Se não xinga, ninguém nem nada de você se vinga. E, se só fala coisa boa, as coisas boas passam a acontecer pra você.
- Parece poético, mas será que funciona?
- Sou a prova viva, meu amigo. Aqui entre nós, até o sexo melhorou!
- Melhorou? O meu não pode melhorar nem piorar, porque não existe mais...
- Questão de cabeça e de técnica, como diz minha mulher. Basta botar na cabeça que ainda não se aposentou sexualmente, e partir para as técnicas.
- Comida afrodisíaca, viagra?
- Não! Carinho, massagem, mão na mão, mão aqui, mão ali...
- Tá brincando.
- Isso mesmo, brincando a coisa acontece. Apagamos a luz, deixamos só o abajurzinho, e vamos brincando, sem compromisso... Se acontecer, aconteceu. Se não acontecer o tesão, não tem importância, não, a ternura também é uma gostosura. A gente se toca, a gente se cheira, a gente sussurra no ouvido, a gente se beija.
- Você não usa dentadura, né?
- Ela usa, mas eu não beijo a dentadura dela, beijo a língua. Beijava dente quando tinha catorze anos e estava aprendendo a beijar...
- Eu acho que até desaprendi.
- Nada, é que nem andar de bicicleta, nunca desaprende. E dá até pra inventar umas manobras novas...
- É mesmo? Por exemplo...
- Massagem com pijama de seda, coisa chinesa acho, é uma delícia. E comer amendoim torrado com vinho, um botando amendoim na boca do outro...
- Parece coisa de criança.
- É, a gente volta a ser criança. Por que sexo tem de ser sério? Tem que ser terno, que da ternura nasce o melhor tesão, mistura de carinho e desejo, a gente até chama de ternurão.
- Minha mulher não vai acreditar.
- Não conta pra ela, as palavras presentes matam os atos futuros. Pratica, em vez de falar. Ou fala, mas só para elogiar ela, dizer como está bonita, como você gosta dela. Diz que ama ela, há quanto tempo você não diz que ama sua mulher?
- Por falar nela... tá demorando.
- Você desviou o assunto. Há quanto tempo?
- Ih, nem sei. Acho que só falei isso pra ela antes de casar.
- Tem que falar... Amor é que nem flor, precisa regar.
- Por falar em regar, já viu como no shopping tem sempre planta florindo?
- Elas vêm de viveiros, já florindo e, quando começam a murchar, levam os vasos embora. Mas casamento é flor pra florir a vida inteira, não dá pra jogar fora. Ou então a gente continua vivendo que nem flor murcha, sem rir junto, sem brincar, só dividindo o mesmo teto e a mesma cama, né?
- Que hora será? Vou procurar ela, senão a gente vai perder o cinema.
- Vão ver o que?
- Não sei, filme de amor, que ela gosta de ver. Eu durmo.
- Bom sono!
- Obrigado. Lembranças a sua mulher.
- Obrigado. Lá vem ela. Parece uma menina, não parece?
- E tá com embrulho. Será mais um pijama de seda?
E então levantaram do banco, um foi beijar a mulher, outro se afastou com as mãos nos bolsos. Sempre me perguntei o que procuram os homens que andam com as mãos nos bolsos.
















Segunda-feira, Junho 09, 2008

Do Jornal de Londrina:





POBREMA


Ele bateu palmas, perguntou se eu queria aparar a grama da chácara, perguntei se também podava árvores, falou que sim:
- Desde que o senhor tenha o serrote. Faço quarquer serviço, mas o pobrema é que não tenho as ferramenta.
Eu tinha as ferramentas, e então ele podou árvores e aparou a grama, aprendendo a lidar com a máquina. Perguntei como aparava grama nas outras chácaras, com o tesourão? Ele confessou:
- É a primeira chacra onde consigo serviço. Todo mundo pensa que só porque falo errado sou inguinorante, e não me deixam lidar com a máquina.
Tempos depois, contou que, além da bolsa-família, estava ganhando bolsa-escola, botando os filhos para estudar, e tinha conversado com a “sistente” social do governo:
- O senhor acredita que o certo não é nem pobrema nem probema? O certo é pro-ble-ma! – soletrou com esforço, depois sorriu.
Dei-lhe parabéns, sempre é bom pro-gre-dir, soletrei, e pedi para aparar a grama. Ele coçou a cabeça:
- O pro-ble-ma, chefe, é que a grama cresceu, tá espalhando pela chacra e...
Combinamos novo preço, e ele fez o serviço depressa, porque depois tinha de ir buscar gás, estava ganhando vale-gás do governo, deixando de cozinhar com lenha.
- Não “puluo” mais com as “missão” de carbono, chefe.
Quando voltou, meses depois, antes de falar em serviço contou que estava fazendo curso de qua-li-ca-ção social, para “serção” no mercado de trabaio.
- Hoje, quem não istuda num vai pra frente, chefe. A farta de istudo é um dos principais pré-pro-ble-mas das pessoa.
- Pré-problema, João?
- É, chefe, aqueles pro-ble-mas que não deixam a gente resorvê nenhum pobrema, opa – bateu na boca e corrigiu: - Nenhum pro-ble-ma.
- E quais são esses pré-problemas, João?
- Farta de educação, farta de saúde, farta de comida, farta de transporte, farta de... ih, nem lembro mais, é tanta farta!
- E a grama, João, vai aparar?
- Farta combinar melhor o preço, né, chefe.
Lembrei que já tinha aumentando o preço do serviço da última vez, ele bateu na testa:
- Isqueci! É tanta coisa pra lembrar que isqueço! Tô aprendendo ci-da-dia, chefe, com um candidato a vereador que aparece lá na favela toda semana.
- Cidadia? Não será cidadania?
- Isso mesmo, chefe, cinadania, é uma coisa bonita. Sabia que todo mundo é iguar e tem os mesmo direito?
- E os mesmos deveres também, João, não falaram dos deveres?
Mas ele nem ouviu, já pegando a máquina para aparar a grama. Perguntei se queria também podar umas árvores, ele olhou, perguntou quanto ia ganhar, falei, falou que era muito pouco.
- Mas é trabalho de um dia no máximo, para ganhar o dobro do que ganha num dia aparando a grama!
- Mas é trabalho pesado, chefe, cada galho grosso pra carregar, pode dar pós-pro-ble-ma. É aqueles pro-ble-ma que dão depois, chefe, mau jeito, dor de coluna... Aí precisa pagar mais.
Falei que então eu mesmo ia podar os galhos, ele emburrou e não falei mais nada, fui podar as árvores enquanto ele aparava a grama. De vez em quando me olhava, balançando a cabeça inconformado, até que terminamos juntos e fiz limonada, bebemos ainda suados. Depois perguntou quando podia voltar, falei que não precisava mais.
- Por que, chefe? Quar é o pobrema?
- É que antes você me resolvia problemas, João, e agora cria problemas.
Foi embora bravo, mas só depois de tomar três copos de limonada, me dando tempo de lhe desejar boa sorte.
- Embora a sorte só ajude quem se ajuda, né, João, esse também é um pobrema.
Me olhou como se eu fosse um monstro. O governo precisa urgentemente criar uma bolsa-pobrema.

Segunda-feira, Junho 02, 2008

Do Jornal de Londrina

IMPOSTOPIA

Muita coisa, que hoje vigora, há menos de um século parecia utopia, como a igualdade feminina, a educação democratizada, os direitos trabalhistas, a cirurgia plástica sem cicatrizes, os salões de beleza para cachorros e carros rodando a mais de 50 por hora, sem falar no celular e no viagra, esses símbolos da trans-modernidade, sucessora da pós-modernidade.
Diante da intenção do governo de recriar a CPMF, que tal pensar em novos impostos, mesmo que pareçam à primeira vista utopia?


DIGANDO, Dívida Gerundiva Ativa: taxa que estará sendo cobrada via internet, de todos que estiverem usando gerúndio vicioso em seus emails e textos. Estará sendo uma forma de estar defendendo a Língua desse vício que está proliferando a ponto de configurar o Português Pré e o Português Pós-Gerundivo.


TATUTEX, Taxa sobre Tatuagens Exageradas, que achincalhem o corpo humano e causem repugnância. As porcentagens de áreas do corpo livres de taxação serão definidas por comissão especial composta de cidadãos tatuados e outros virgens de tatuagens. As tatuagens no rosto pagarão dobrado. Tatuagens em áreas íntimas, não expostas a público, terão isenção.


CFC, ou Contribuição Financeira sobre Chavões, aplicável a jornalistas televisivos que repetem durante anos e décadas os mesmos chavões, como “o Jornal Tal vai ficando por aqui”.


COFIN, Contribuição Financeira sobre Notícias Carne de Vaca, como o Bacalhau do Batata na Quarta-Feira de Cinzas.


COFAUS, também contribuição financeira, a ser cobrada do Domingão do Faustão, toda vez que ele não deixar entrevistado falar, atropelando a resposta para fazer outra pergunta ou comentário. A apuração financeira será destinada ao aperfeiçoamento dos cursos de Comunicação.


COFIF, Compensação Financeira para Filas, a ser creditada para todos que passarem mais de 15 minutos em filas de bancos e repartições públicas.


SOLTA-BOLA, multa a ser cobrada, pelos clubes de futebol, dos jogadores que insistam em prender a bola ou dar passes laterais, sem avançar, fazendo do futebol de campo um jogo cada vez mais chato.


A-PAGAR, multa para empresas de iluminação pública que deixarem de trocar lâmpadas de postes. O montante, na forma de redução da tarifa, será rateado entre os usuários de energia.
RESSA-CAR, pena alternativa para motoristas bêbados causadores de acidentes: passar temporada auxiliando Ciate e polícias rodoviárias no atendimento a acidentados.


COCOCÃO, contribuição comunitária a ser cobrada de todos que passeiam com cães sem levar saco para coleta de cocô, a ser aplicada em melhoramento dos parques comunitários.


CADÊ, Contribuição para Aprimoramento Democrático, desconto automático nos salários de deputados e vereadores que faltarem às sessões, formando fundo financeiro para divulgação das tabelas de ausência e comparecimento, visando orientação dos eleitores para a próxima eleição.


TRIPUDIA, Tributo sobre Posturas e Práticas Prejudicias à Maioria, como as greves de servidores públicos durante semanas e até meses, a interdição de rodovias por manifestações “sociais”, a invasão de prédios públicos e paralisação dos serviços, e outras práticas que abusam da democracia e tripudiam das pessoas.


PEG-PAG, multa para todas as “pegadinhas” televisivas que abusem da dignidade ou arrisquem a integridade física das pessoas envolvidas.


MSTRANCA, prisão imediata para todos os militantes do MST que invadirem novamente propriedade desocupada por determinação judicial.
Mas, epa, aí já não é mais imposto, é pena. Que pena.

Da Gazeta do Povo:








ROMANCE
DAS FRASES FEITAS


Eu a conheci num dia inesquecível, de céu azul de anil e sol radiante.

Eu vinha de trabalhos fatigantes, e levava a vida em devassidão, mas meu coração pecador era gruta escura pronta para receber a luz redentora.

Com sua sinuosa silhueta envolta por manto inconsútil, ela me lançou seu sorriso encantador e seu olhar envolvente, enquanto seus longos cabelos esvoaçavam ao vento.
Relutei indeciso e, descrente do sortilégio, desconfiei do destino.

Mas ela me entendeu sua mão amiga, com a graça de uma fada e a inocência de uma santa.

Em torno de nós clamava o comércio, a inveja nos dardejava, a maledicência nos vitimava, o ciúme envenenava, as calúnias apedrejavam, a ironia destilava, a intriga sussurrava e o sarcasmo sublinhava, o tédio suspirava, os boatos corriam mas a brisa, ao menos, refrescava.

Eu ainda era dominado pelos apetites da carne, mas ela plantou em mim o germe do espírito, com apenas três palavras:
- Eu te amo.

Quanto em apenas dois pronomes e um verbo! - e eu até desconfiaria de tanto, se não soubesse de antemão quão poderoso é o amor à primeira vista.

Subimos então aos píncaros da felicidade, vivendo o gozo dos amantes, a cegueira dos apaixonados, o enlevo dos enamorados, presos pelos laços da ternura, pelas cadeias dos predestinados, consumidos pelas chamas (e pelos grilhões) da paixão, entregues às delícias do amor sem fim.

Mas os problemas do dia a dia e as desavenças do cotidiano logo começariam a corroer nossa felicidade indizível.

Os menores aborrecimentos se juntavam aos impecilhos mais comezinhos, acompanhados sempre de desastrosos imprevistos, sem falar nas reveladoras coincidências, como quando eu ia ao vaso sanitário e descobria, pela indisfarçável fragrância, que ali ela estivera pouco antes.

Tudo conjurava para nossa separação, dos contratempos mais problemáticos aos piores pressentimentos, como quando ela inventou de me visitar no trabalho e me flagrou fazendo pesquisas íntimas com a secretária.

O vírus do ciúme a inoculou e, em despeitada vingança, ela começou a me trair com meu contador, que passou a confundir receita e despesa com calamitosas consequências.

No entanto, enquanto durou, nosso amor teve inesquecíveis momentos e gloriosas passagens.

Fizemos venturosas viagens e tivemos memoráveis jantares, opíparos almoços e alegres piqueniques.

Fizemos amor ansiosamente, como vivemos momentos de doce ternura.
Passeamos despreocupados, caminhamos lado a lado, percorremos trilhas, vadeamos riachos, subimos encostas, descemos rampas, palmilhamos praias, transpusemos precipícios e pontes, unimos nossas trajetórias e miramos o horizonte com os pés no chão, a não ser quando na roda-gigante.

Sentimos o amargor das decepções mas também o sabor do sucesso.
Plantamos as sementes da esperança, cultivamos o trabalho, colhemos os frutos da perseverança, mas a sombra da desgraça se abateu sobre nossa felicidade.

Sem saber como apagar as más lembranças, como resistir aos pecados, como superar os impasses, como driblar os imprevistos, como crer na redenção, como levantar o ânimo, como lavar a alma, como fortalecer a fé e como transformar os limões em limonadas, sucumbimos à descrença, carregados de culpas, retaliados de remorsos, corroídos pelo ciúme, dilacerados pela angústia, com os corações feridos, os corpos combalidos, as almas penadas, o espírito inconsolável, dominados pelo tédio, conformados à rotina, espezinhados pela baixa-estima.

Enfim, marcamos um último encontro para acertar nossas desavenças, mas ela se atrasou irresponsavelmente e eu, em vista do adiantado da hora, fui tocar minha vida, sem olhar para trás, seguindo em frente, esperando algum dia encontrar o verdadeiro amor, com quem viver enfim um romance sem fim.








Segunda-feira, Maio 26, 2008

Soneto:



LINDEZA


As coisas em repouso ficam lindas:
pedra que se acoberta com o musgo
a placidez que não mexe uma ruga
na face amada quando o gozo finda

o brinquedo de infância empoeirado
a bola ao sol orvalhada e redonda
o cachorro dormindo, o mar sem ondas
as roupas no varal apaziguadas

É belo e enganador esse repouso:
com o brinquedo brincam as lembranças
a louça logo voltará à mesa

está cheio de sonhos nosso sono
da mansidão emergirão mudanças
do céu calmo trovões: nisso, a lindeza

Do Jornal de Londrina:



P A P O P R É - C I R Ú R G I C O

- Como é, tudo bem? Preparado?
- Penso que sim, doutor. Ontem me deram um purgante que me fez visitar o vaso de hora em hora durante a noite, pensei até em levar o travesseiro pra lá. Hoje cedo lavei o que sobrou de mim, depois me rasparam os pelos do umbigo pra baixo, me botaram nesta camisola tão curta que quase as baixezas, me deram um sedativo que está me deixando tonto, então imagino que estou pronto.
- Ótimo, está de bom humor.
- Bom humor ajuda a cicatrizar, doutor?
- Falando sério, se a pessoa fica tensa, com a mente em estado de defesa, pode precisar de mais anestesia.
- E anestesia sempre pode matar, né, doutor?
- Conversa.
- Pois é, estamos conversando. Qual a porcentagem de óbitos por choque anestésico, doutor?
- Ínfima.
- O que mata mesmo é infecção hospitalar, não é?
- Não, meu caro, o que mata mesmo é doença não curada.
- Mas andei pensando, ou melhor, deitei pensando na infecção hospitalar, doutor. O senhor sabia que foi inventada ao mesmo tempo que a enfermagem e pela mesma pessoa, não é?
- Florence Nightingale, não é?
- Pois é, enquanto Pasteur descobria os micróbios no microscópio, mas ainda não tinha atinado que causavam infecções, ela, inaugurando a profissão de enfermagem e sem desconfiar de micróbios, mandou limpar as enfermarias e a infecção hospitalar desabou. Era um hospital de guerra, e antes de Florence morriam mais soldados por infecção nos hospitais que nas batalhas...
- Mas hoje a prevenção sanitária evoluiu tanto que...
- ...que os micróbios também evoluíram junto, não é? Pesquisei na internet: foram se acostumando tanto com os antibióticos e com os desinfetantes, que hoje existem cepas de micróbios super-resistentes e...
- Descanse, meu caro, já estão liberando a sala cirúrgica, encontro você lá. Até!
- Até, doutor. Pois é, se estão liberando a sala cirúrgia, é porque estava ocupada por outro, com seus micróbios... Ei, enfermeira, posso tomar água? Não? Ah, sim, por causa da anestesia. Sabe qual a porcentagem de infecção neste hospital?
- O senhor desculpe, até o ano passado a gente sabia, mas agora é assunto sigiloso.
- Ah...
- E mesmo que a gente soubesse, não poderia dizer, baixaram norma proibindo.
- Ih...
- O senhor está sentindo alguma coisa?
- Mau pressentimento. E frio nos pés.
- Mas infelizmente não posso lhe vestir meias, é norma cirúrgica.
- Posso mascar chiclete?
- O senhor sabe que... não sei?! Por via das dúvidas...
- Tudo bem. Podia ficar rolando saliva, se não estivesse com a boca seca.
- É efeito do sedativo. O senhor já devia estar grogue.
- Estou grogue, falando assim pra disfarçar o nervosismo.
- Não adianta ficar nervoso, é deixar nas mãos de Deus.
- Estou pensando é nas mãos do médico, tomara que lave direitinho.
- Lava, esfrega, escova, esteriliza, ele deve estar fazendo isso agora.
- E quem é que afia os bisturis?
- Que idéia, mas foi bom o senhor lembrar. Alô, Marinete? Anota aí que é preciso mandar afiar os bisturis, faz semanas que o doutor mandou mas esqueci, menina! Marinete... Ei, aonde o senhor vai? Alô, Marinete! Alerta a segurança, tem um paciente fugindo, vestido pra cirurgia! E é grandão, meu Deus, a camisola ficou super curta, tá aparecendo tudo! Alô, Marinete! Marinete! Ah, esse telefone!...